quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Fumo :
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Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos..
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Florbela Espanca
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NelitOlivas

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Momento Poético

A cidade é um chão de palavras pisadas :
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A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
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Ary dos Santos
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NelitOlivas

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Verdes Anos :

 
Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.
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Pedro Tamen

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NelitOlivas

domingo, 28 de dezembro de 2014

Momento Poético

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A Vida

Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! 
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! 
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor 
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor! 
Ó olhos negros como noites, como poços! 
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos! 
Ó puros como o céu! ó tristes como levas 
De degredados! 

    Ó Quarta-feira de Trevas! 

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias: 
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias, 
Ó velas do perdão! candeias da desgraça! 
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça! 
Olhos accezos como altares de novena! 
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna! 
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, 
Lume dos que no mar andam botando as linhas... 
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes! 
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes, 
Mais os que vão na diligencia pela serra! 
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra! 
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto! 
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! 
Luas d'Estio! Luas negras de velludo! 
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo 
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal 
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, 
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas 
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! 
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas 
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! 
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha... 
Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha... 
Olhos tranquillos e serenos como pias! 
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias 
Cheias de Luz
! Olhos sem par e sem irmãos, 
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos! 
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos, 
E milagrozos, e misericordiozos, 
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, 
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar! 
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, 
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas... 

Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! 
De que te serve ter uns astros sem eguaes? 
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? 
O mar a uivar! A espuma verde das marés! 
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! 
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja 
A arder entre clarões de coleras! O orgulho 
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho! 
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica! 
Quantos lares sem lume e quanta gente rica! 
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias! 
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias! 
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças! 
Quantos suores sem proveito! quantas taças 
A trasbordar veneno em espumantes boccas! 
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, 
N'este macomio do Planeta! E as orfandades! 
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades! 
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! 
E aquella que não sae por ter uzada a saia! 
E os que sossobram entre a vaidade e o dever! 
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer! 
Olha essa procissão que passa: um torturado 
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado, 
E para ser feliz fez todos os esforços... 
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, 
Como dez annos de prizão maior-cellular! 
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar... 
Olha o bébé que teve Torre de coral 
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, 
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, 
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada! 
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas... 
Olha essas rugas que têm certos diplomatas! 
Olha esse olhar que têm os homens da politica! 
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica... 
Olha esse que não tem talento e o julga ter 
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever! 
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade! 
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade! 
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! 
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! 
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal! 
Olha aquelle que habita uma Torre de sal, 
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, 
Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! 
Olha um velhinho a carregar com a farinha 
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha! 
Olha a sair a barra a galera _Gentil_ 
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil! 
Olha, acolá, no caes uma outra como chora: 
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!» 
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão... 

Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção! 

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, 
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos! 
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, 
Foi para ver, coitada! essa bola de lama 
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, 
A Terra! 

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha... 

António Nobre, in 'Só'
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NelitOlivas

sábado, 27 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Amanhece :


Amanhece
esgalha-se o solo
de um pássaro na pauta máxima
dos rapazes dos jornais.
No espelho das privações
tenho uma flor a mais.

Dia-a-dia Eis a vida
que os deuses me venderam
como um lápis de cor
para avivar a dor
da alma que esqueceram.

Com meus danos juntei
o depósito à ordem
de qualquer paraíso
ganhando no inferno
o meu dente de siso.

Amanhece
mais um dia
novo risco de prisão.
A vida prende quem faz
contrabando de poemas
ou melhor de indignação.

Na tristeza literal
desta selecta de mínguas
ganhei a voz natural
de chamar filhos da puta
aos deuses nas suas línguas.

Amanhece
de pontiagudas
carências nas ruas se forma
a movediça teoria.
Pedi o pássaro hora isenta
na clave de sol de manhã.

Não pedi um novo dia.
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Natália Correia
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NelitOlivas

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Momento Poético

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O Meu Amor Anda em Fama :

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O meu amor anda em fama 
Mesmo assim lhe quero bem 
Os olhos do meu amor 
Não os vejo em mais ninguém 
Eu nunca pensei na vida 
Vir um dia a encontrar 
A minha vida escondida 
Dentro do teu olhar 


Eu bem sei que me desdenhas 
Mas gosto que seja assim 
Que o desdém que por mim tenhas 
Sempre é pensares em mim 


Se algum dia me deixares 
Meu amor por caridade 
Entre as coisas que levares 
Leva também a saudade

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Pedro Homem de Melo
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NelitOlivas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Epístola para os meus medos :

"Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos."
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Fiama Hassa Pais Brandão
Epístolas e Memorandos, 
Relógio d'Água
1996
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NelitOlivas

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Momento Poético


Lisboa perto e longe
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Lisboa perto e longe :

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros
-- meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.


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Manuel Alegre
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NelitOlivas

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Meu Coração Sem Direito :
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Lá foi o tal coração
Que eu tinha contravontade
Lá foi aquele ladrão
Não sei para que cidade

O meu velho coração
Que ficou triste comigo
Por causa desse ladrão
Não volta a ser meu amigo

Pobre de quem envelhece
Por fora do coração
Que novo nos aparece
Com uma nova paixão

Meu coração sem direito
De bater tão apressado
Anda dentro do meu peito
Onde não cabe coitado

Vai-te embora coração
Eu não sou boa morada
Onde mora a solidão
Não há lugar p'ra mais nada.
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Amália Rodrigues
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NelitOlivas

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Momento Poético

Ultimatum :

Mandado de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai Frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstratamente o infinito."
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NelitOlivas

domingo, 21 de dezembro de 2014

Momento Poético

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SABEDORIA :

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Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

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José Régio

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NelitOlivas

sábado, 20 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Palavras Minhas :

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Palavras que disseste e já não dizes, 
palavras como um sol que me queimava, 
olhos loucos de um vento que soprava 
em olhos que eram meus, e mais felizes. 

Palavras que disseste e que diziam 
segredos que eram lentas madrugadas, 
promessas imperfeitas, murmuradas 
enquanto os nossos beijos permitiam. 

Palavras que dizias, sem sentido, 
sem as quereres, mas só porque eram elas 
que traziam a calma das estrelas 
à noite que assomava ao meu ouvido... 

Palavras que não dizes, nem são tuas, 
que morreram, que em ti já não existem 
— que são minhas, só minhas, pois persistem 
na memória que arrasto pelas ruas.
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Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”
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NelitOlivas

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Poema de Amor :
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Se te pedirem, amor, se te pedirem 
que contes a velha história 
da nau que partiu 
e se perdeu, 
não contes, amor, não contes 
que o mar és tu 
e a nau sou eu. 

E se pedirem, amor, e se pedirem 
que contes a velha fábula 
do lobo que matou o cordeiro 
e lhe roeu as entranhas, 
não contes, amor, não contes 
que o lobo é a minha carne 
e o cordeiro a minha estrela 
que sempre tu conheceste 
e te guiou — mal ou bem. 

Depois, sabes, estou enjoado 
desta farsa. 
Histórias, fábulas, amores 
tudo me corre os ouvidos 
a fugir. 

Sou o guerreiro sem forças 
para erguer a sua espada, 
sou o piloto do barco 
que a tempestade afundou. 

Não contes, amor, não contes 
que eu tenho a alma sem luz. 

...Quero-me só, a sofrer e arrastar 
a minha cruz.
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Fernando Namora, in "Relevos"
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NelitOliva

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Momento Poético

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AO MEU NETO LUIZ FERNANDO :

Luiz Fernando: sê bom! Foge à cobiça
E expande alegre a tua mocidade;
Acima do querer, põe a Justiça;
Acima da Justiça, a caridade.

Ama as palavras que uma fé mortiça
Hoje se atreve a olhar sem majestade;
Palavras que o passado ergueu na liça:
Honra, Pátria, Heroísmo, Santidade!

Procura ser alguém; mas se o não fores,
Sê contente servindo os teus amores
Na doce paz de uma existência honrada;

Quando quiseres orientar teu rumo,
Põe Deus mais alto que o Sol a prumo
E mais alto que Deus não ponhas nada.
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BRANCA DE GONTA COLAÇO
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NelitOlivas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Momento Poético

Deslumbramento :

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A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos cal vários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousax
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade …
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
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Teixeira Pascoaes

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NelitOlivas

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Momento Poético

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E TUDO ERA POSSÍVEL :

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo
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NelitOlivas

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Um Amor :
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Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo. 
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade. Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio. 
Lembro-me do som dos teus passos, 
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, 
e a tua figura luminosa atravessando a praça 
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, 
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, 
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha 
essa doente sensação que 
me deixaste como amada 
recordação.
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Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"
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NelitOlivas

domingo, 14 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Vai-te, Poesia! :

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Vai-te, Poesia!
Deixa-me ver friamente
a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.

Vai-te, Poesia!
Não transformes o mundo
descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
- enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.

Vai-te, Poesia!
Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!
Não quero cantar.
Quero gritar!


José Gomes Ferreira
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NelitOlivas

sábado, 13 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Pelo sonho é que vamos :


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
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Sebastião da Gama
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NelitOlivas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Momento Poético

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O Amigo Que Eu Canto :

Desde quando nasci
Que o conheço e lhe quero
Como a um irmão meu
Como ao pai que perdi,
Como tudo o que espero.

É um homem que tem o condão da doçura
No sorriso de água, nos olhos cansados,
É metade alegria, é metade ternura
Nas palavras cantadas, nos gestos dançados,
Nos silêncios magoados.

Tem um rosto moreno
Que o inverno o marcou
E apesar de ser forte,
É um homem pequeno
Mas maior do que eu sou.

Tem defeitos, é certo. Como todos nós.
Sonha, às vezes demais,
Fala, às vezes no ar
Mas quando dentro dele a alma ganha a voz
É tal como se fosse o som do nosso mar,
Se pudesse falar...

REFRÃOFoi capaz de mentir,
Foi capaz de calar
É capaz de chorar e de rir,
Tem um quê de fadista,
Tem um quê de gaivota,
E a mania que há-de ser artista.
Quando vê que precisa
É capaz de roubar,
Mas também sabe dar a camisa.
Foi capaz de sofrer,
Foi capaz de lutar,
È capaz de ganhar
E perder.

É um amigo meu que às vezes me ofende
Mas que eu sei que me escuta,
Que eu sei que me ouve
E também compreende.
Quantas vezes lhe digo que tenha juízo,
Que a mania dos copos só lhe faz é mal,
Que a preguiça não paga e que o trabalho é preciso.
Ele encolhe-me os ombros num despreso total,
Este tipo é assim, mas...

REFRÃOFoi capaz de mentir,
Foi capaz de calar
É capaz de chorar e de rir,
Tem um quê de fadista,
Tem um quê de gaivota,
E a mania que há-de ser artista.
Quando vê que precisa
É capaz de roubar,
Mas também sabe dar a camisa.
Qual o nome final
Deste amigo que eu canto?
Pois é claro que é
Portugal.
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José Carlos Ary dos Santos
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NelitOlivas

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Momento Poético

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Regresso ao Lar :
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Ai, há quantos anos que eu parti chorando 
deste meu saudoso, carinhoso lar!... 
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!... 
Minha velha ama, que me estás fitando, 
canta-me cantigas para me eu lembrar!... 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida... 
Só achei enganos, decepções, pesar... 
Oh, a ingénua alma tão desiludida!... 
Minha velha ama, com a voz dorida. 
canta-me cantigas de me adormentar!... 

Trago de amargura o coração desfeito... 
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! 
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!... 
Minha velha ama, que me deste o peito, 
canta-me cantigas para me embalar!... 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho 
pedrarias de astros, gemas de luar... 
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... 
Minha velha ama, sou um pobrezinho... 
Canta-me cantigas de fazer chorar!... 

Como antigamente, no regaço amado 
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar! 
Ai o teu menino como está mudado! 
Minha velha ama, como está mudado! 
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... 

Canta-me cantigas manso, muito manso... 
tristes, muito tristes, como à noite o mar... 
Canta-me cantigas para ver se alcanço 
que a minha alma durma, tenha paz, descanso, 
quando a morte, em breve, ma vier buscar! 

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

Regresso ao LarAi, há quantos anos que eu parti chorando 
deste meu saudoso, carinhoso lar!... 
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!... 
Minha velha ama, que me estás fitando, 
canta-me cantigas para me eu lembrar!... 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida... 
Só achei enganos, decepções, pesar... 
Oh, a ingénua alma tão desiludida!... 
Minha velha ama, com a voz dorida. 
canta-me cantigas de me adormentar!... 

Trago de amargura o coração desfeito... 
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! 
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!... 
Minha velha ama, que me deste o peito, 
canta-me cantigas para me embalar!... 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho 
pedrarias de astros, gemas de luar... 
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... 
Minha velha ama, sou um pobrezinho... 
Canta-me cantigas de fazer chorar!... 

Como antigamente, no regaço amado 
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar! 
Ai o teu menino como está mudado! 
Minha velha ama, como está mudado! 
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... 

Canta-me cantigas manso, muito manso... 
tristes, muito tristes, como à noite o mar... 
Canta-me cantigas para ver se alcanço 
que a minha alma durma, tenha paz, descanso, 
quando a morte, em breve, ma vier buscar! 
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NelitOlivas