sábado, 31 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Verde Pino, Verde Mastro :

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Não há flor do verde pino que responda
A quem, como eu, dorme singela,
O meu amigo anda no mar e eu já fui onda,
Marinheira e aberta!

Pesa-me todo este corpo que é o meu,
Represado, como água sem destino,
Anda no mar o meu amigo, ó verde pino
Ó verde mastro da terra até ao céu!

Soubera eu do meu amigo,
E não estivera só comigo!

Que onda redonda eu era para ele
Quando, fagueiro, desejo nos levava,
Ao lume de água e à flor da pele
Pelo tempo que mais tempo desdobrava!

E como, da perdida donzelia
Me arranquei para aquela tempestade
Onde se diz, duma vez, toda a verdade,
Que é a um tempo, verdade e fantasia.

Soubera eu do meu amigo,
E não estivera só comigo

Que sou agora, ó verde pino, ó verde mastro,
Aqui prantado e sem poderes largar?
Na mágoa destes olhos, só um rastro,
Da água verdadeira doutro mar

Soubera eu enfim do meu amigo,
E não estivera só comigo, em mim.
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Alexandre O'Neill
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NelitOlivas

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Momento Poético

Aquela nuvem e outras :
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- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

- Leva-me contigo.
Quero ver Granada.
Quero ver o mar.

- Granada é longe,
o mar é distante,
não podes voar.

- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

- Serve para te ver.
E passar, passar.
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Eugénio de Andrade
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NelitOlivas

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Vagabundo do Mar :

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Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar. 
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora
queira, ou não queira
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem 
aos vagabundos do mar.
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Manuel da Fonseca
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NelitOlivas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Momento Poético

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CINCO HORAS :

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Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!


Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.


(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)


Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...


Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.


Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.


(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)


Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.


É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.


Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...


(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)


Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.


Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.


— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.



Mário de Sá Carneiro
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NelitOlivas

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Momento Poético

Urgentemente :

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É urgente o amor 
É urgente um barco no mar 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer. 
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Eugénio de Andrade
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NelitOlivas

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Momento Poético

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POEMA LXII :
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Bora lá! Despe-te dos teus afectos, dos teus medos
e torna-te um guerreiro combatente das desarmonias
com as quais o teu corpo e o teu espírito se revoltam.
A fada do dentinho já não anda por aí, será por isso
que sentes um vazio? Estás ansioso por recomeçar?
Até amanhã, então. Recomeçarás, na realidade,
a partir da realidade. Nada de rituais. Nada
de magia. Nada de transcendências.
Acreditar em ti já é um bom princípio. Se não
houver estrelas, não poderá haver guerra das estrelas.
Tudo é uma questão de probabilidades. E possibilidades.
Como o Vesúvio, que voltará a explodir nos próximos
cem anos. Mas são os pequenos detalhes que
te permitem interpretar melhor o mapa da vida.
Bons e maus, cínicos e generosos, egoístas e solidários,
rodeiam-te e ajudam a moldar o teu carácter, a tua
opinião, o teu comportamento. Terás de saber apenas
do que precisas, o que pretendes para ti. 
Tens que ter vontade de ter vontade.
Bora lá!, aproxima-te e respira fundo
até oxigenares as tuas expectativas. E parte
para os desertos que ainda temes, consciente
de que o perfil das dunas se modifica a cada hora, mais
lenta mas mais seguramente do que as ondas do mar.
Qualquer que seja o caminho a seguir, deves
estabelecer as tuas prioridades. És excelente a analisar
as situações mas estás permanentemente a adiar
o plano A e a passar ao plano B. Precisas,
talvez de terapia. Tens de conhecer a natureza
do crime para encontrares o seu autor.
Enquanto desconheceres a tua vocação não deves
comemorar. Santos e pecadores são como peixes:
devoram e são devorados e todos são alimento
de terceiros. A desunião do cardume é
a força do armador.
Queres renovar as tuas energias? `Bora lá!
Não há tradição que resista. Entre portas astrais
procurarás os anjos que dançam sob a luz que respiras.
Estão sonâmbulos, acorda-os. Trá-los para a zona
das tuas emoções. O teu coração protege-te.
Cada experiência única é um contrabando. O que
não é possível obter senão de uma forma transgressiva.
As manhãs são uma revolta permanente contra 
a noite, um bom dia às nossas esperanças. Se
te atreves a passar construirás caminho inverso às
ameaças, estarás a dar indicações ao teu futuro.
Se te surpreende a travessia, escreve a tua história,
uma aventura que não acaba pois para isso tem
de haver uma boa razão. Viver é emocionante
se não acertares o ritmo. Se saíres da lista de espera.
E se não souberes o que fazer, faz qualquer coisa.
Faz de conta que sabes. Não há magia nem
segredos. Tem confiança em ti.
Bora lá!, 
faz uma boa proposta à vida que ela aceita!
Nunca estarás pronto para ser coisa alguma,
mas podes sempre ser o que quiseres, nenhum
projecto é impossível. E nenhum Deus te 
poderá dizer: Estás enganado!
Não lutes contra a mentira toda, nem 
no prolongamento conseguirias vencer, provavelmente
nem sabes o que sentes mas não batas à porta da
tristeza, há coisas importantes, coisas fantásticas,
coisas impensáveis pelas quais não tens
de pedir desculpa mas animar-te como se tivesses
bilhetes reservados para o espectáculo do século. Não
chegues cedo nem tarde. Chega, simplesmente. Vê 
se estás lá, como uma surpresa, como um aniversariante
que para isso falta à própria festa. Mas faz por
merecer os parabéns!
Não te sintas um problema
para que não te tornes um problema.
O teu coração é um tambor que acompanha
o ritmo do canto da fénix, o seu apelo ao regresso
é a última palavra pacífica antes da ofensa.
Quando contemplas o mar raramente lhe vês o fundo,
assim são aqueles com quem divides a vida,
será então possível confessar a tua paixão, soltar
os pedaços das tuas emoções como se fossem
conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...?
A clepsidra vai trocando a areia, vai trocando as voltas,
nunca será possível perder num sonho a moeda que
achaste na realidade, gasta-a contigo e agarra
o instante que chega como a borboleta, por 
pouco que dure, conserva essa beleza, recorda-a
como recordam os amantes os mais rápidos e íntimos
momentos de felicidade. Alegra o teu coração, 
os teus nervos, os pequeníssimos cristais 
da tua carne.
Quando souberes envelhecer serás um jovem.
É esplêndido o que poderás fazer quando a manhã 
romper e não lamentes nada quando acabar o dia.
O mais importante é sempre o que está para chegar.
Repara como aquela andorinha dirige orações ao vento
que a ajuda a partir e a encontrar o caminho de 
regresso. Mesmo em dificuldade, faz como ela.
A vida é um eterno retorno.
Bora lá!
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Joaquim Pessoa
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domingo, 25 de janeiro de 2015

Momento Poético

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AMÊNDOA AMARGA :
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Port ti falo
E ninguém pensa
Mas eu digo
Minha amêndoa, meu amigo
Meu irmão
Meu tropel de ternura
Minha casa
Meu jardim de carência
Minha asa.

Por ti vivo
E ninguém pensa
Mas eu sigo
Um caminho de silvas
E de nardos
Uma intensa ternura
Que persigo
Rodeada de cardos
Por tantos lados.

Por ti morro
E ninguém sabe
Mas eu espero 
O teu corpo que sabe 
A madrugada
O teu corpo que sabe
A desespero

Ó minha amarga amêndoa, desejada.
(Ai minha amarga amêndoa, desejada.)
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José Carlos Ary dos Santos
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NelitOlivas

sábado, 24 de janeiro de 2015

Momento Poético

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 Fidelidade:

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
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Jorge de Sena 

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NelitOlivas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Momento Poético

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"Pedro, lembrando Inês" :

 
Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
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Nuno Júdice

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Morrer de Amor :

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Morrer de amor 
ao pé da tua boca 

Desfalecer 
à pele 
do sorriso 

Sufocar 
de prazer 
com o teu corpo 

Trocar tudo por ti 
se for preciso 
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Maria Teresa Horta
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NelitOlivas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Um quarto dos poemas é imitação literária :

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Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na 
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro.
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Herberto Helder

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NelitOlivas

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Impossível :

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Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas !
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei !

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio !
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Cesário Verde
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NelitOlivas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Nome de Rua :

Deste-me um nome de rua
Duma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua,
Do que nome de pessoa.
Um desse nomes de rua
Que são nomes de canoa.
Nome de rua quieta, 
Onde à noite ninguém passa,
Onde o ciúme é uma seta,
Onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde a sombra do poeta,
De repente, nos abraça!
Com um pouco de amargura,
Com muito da Madragoa.
Com a ruga de quem procura, 
E o riso de quem perdoa.
Deste-me um nome de rua,
Duma rua de Lisboa !
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David Mourão Ferreira

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NelitOlivas

domingo, 18 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Meu País Desgraçado :

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Meu país desgraçado !… 
E no entanto há Sol a cada canto 
e não há Mar tão lindo noutro lado. 
Nem há Céu mais alegre do que o nosso, 
nem pássaros, nem águas… 

Meu país desgraçado!… 
Porque fatal engano ? 
Que malévolos crimes 
teus direitos de berço violaram ? 

Meu Povo 
de cabeça pendida, mãos caídas, 
de olhos sem fé 
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde 
a causa da miséria se te esconde. 

E em nome dos direitos 
que te deram a terra, o Sol, o Mar, 
fere-a sem dó 
com o lume do teu antigo olhar. 

Alevanta-te, Povo! 
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres, 
a calada censura 
que te reclama filhos mais robustos ! 

Povo anémico e triste, 
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres ! 
— olha a censura muda das mulheres! 
Vai-te de novo ao Mar! 
Reganha tuas barcas, tuas forças 
e o direito de amar e fecundar 
as que só por Amor te não desprezam !
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Sebastião da Gama
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NelitOlivas

sábado, 17 de janeiro de 2015

Momento Poético

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CANÇÃO III :

Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando. 

A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Oh, deleitosa pena!
Oh, efeito de Amor tão preeminente!
Que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura. 

A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam. 

Assim como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algũa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Oh, ditosa partida!
Oh, glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.

Porém, a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado, 
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso,
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso. 

Canção de cisne, feita na hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura
já me impede o dia.
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Luís Vaz de Camões
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Momento Poético

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a flor da solidão :

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Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos 
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Ruy Belo
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NelitOlivas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Súplica :
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Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
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Miguel Torga
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NelitOlivas

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Entre o deserto e o deserto :

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Entre o deserto e o deserto
numa viagem sem destino
procuras a água e o vinho
nenhuma pista nenhum signo

vivo de pouco ou de nada
sem nunca ter um lugar
sempre a insónia mais branca
e a sede de um novo ar

escurece já o olvido
e é noite quando amanhece
nenhum barco traz aquela
por quem a escrita se tece

talvez esteja perdido
como um náufrago na areia
talvez me reste a canção
e o vento que desenleia

Entre o deserto e o deserto
Entre o deserto e o deserto
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António Ramos Rosa
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NelitOlivas

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Poema da Pedra Lioz 
Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Catanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca…truca…
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaro celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgaseados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca…truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande sonhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.
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António Gedeão
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NelitOlivas

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Aquilo Que Eu Não Fiz :
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Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei

Não fui eu que gastei
Mais do que era para mim
Não fui eu que tirei
Não fui eu que comi

Não fui eu que comprei
Não fui eu que escondi
Quando estavam a olhar
Não fui eu que fugi

Não é essa a razão
Para me querem moldar
Porque eu não me escolhi
Para a fila do pão
Este barco afundou
Houve alguém que o cegou
Não fui eu que não vi

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei

Talvez do que não sei
Talvez do que não vi 
Foi de mão para mão
Mas não passou por mim
E perdeu-se a razão
Todo o bom se feriu
foi mesquinha a canção
Desse amor a fingir
Não me falem do fim
Se o caminho é mentir
Se quiseram entrar
Não souberam sair
Não fui eu quem falhou
Não fui eu quem cegou
Já não sabem sair

Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu Norte em contraluz
Meu fado é vento que leva e conduz.
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Tiago Bettencourt
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NelitOlivas