sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charles Baudelaire

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A Beleza  - Charles Baudelaire :
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De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor' de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p'ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!

Tradução Delfim Guimarães

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Jacinto

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"Monangamba" - António Jacinto :
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NAQUELA ROÇA GRANDE NÃO TEM CHUVA
É O SUOR DO MEU ROSTO QUE REGA AS PLANTAÇÕES
NAQUELA ROCA GRANDE TEM CAFÉ MADURO
E AQUELE VERMELHO-CEREJA
SÃO GOTAS DO MEU SANGUE FEITAS SEIVA.

O CAFÉ VAI SER TORRADO
PISADO, TORTURADO,
VAI FICAR NEGRO, NEGRO DA COR DO CONTRATADO.
NEGRO DA COR DO CONTRATADO!
PERGUNTEM ÀS AVES QUE CANTAM,
AOS REGATOS DE ALEGRE SERPENTEAR
E AO VENTO FORTE DO SERTÃO:

QUEM SE LEVANTA CEDO? QUEM VAI À TONGA?
QUEM TRAZ PELA ESTRADA LONGA
A TIPÓIA OU O CACHO DE DENDÉM?
QUEM CAPINA E EM PAGA RECEBE DESDÉM

FUBÁ PODRE, PEIXE PODRE,
PANOS RUINS, CINQUENTA ANGOLARES
"PORRADA SE REFILARES"?

QUEM?
QUEM FAZ O MILHO CRESCER
E OS LARANJAIS FLORESCER
- QUEM?

QUEM DÁ DINHEIRO PARA O PATRÃO COMPRAR
MAQUINAS, CARROS, SENHORAS
E CABEÇAS DE PRETOS PARA OS MOTORES?
QUEM FAZ O BRANCO PROSPERAR,
TER BARRIGA GRANDE - TER DINHEIRO?
- QUEM?

E AS AVES QUE CANTAM,
OS REGATOS DE ALEGRE SERPENTEAR
E O VENTO FORTE DO SERTÃO
RESPONDERÃO:

- "MONANGAMBÉÉÉ..."

AH! DEIXEM-ME AO MENOS SUBIR ÀS PALMEIRAS
DEIXEM-ME BEBER MARUVO, MARUVO
E ESQUECER DILUÍDO NAS MINHAS BEBEDEIRAS

- "MONANGAMBÉÉÉ..."

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - G. K. Chesterton

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G. K. Chesterton :
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UMA PRECE NAS TREVAS
(de G.K. Chesterton)

respeitosamente dedicado a Michelson Borges

Basta, ó Céu – gerar ou sonhar pudesse,
Sem me polpar; que o mundo se alimente,
Sim, se louco eu me mate realmente,
Vê que a erva sobre o meu sepulcro cresce.

Se rosno entre este sol e solo meus
Queixa e rogo, acenda e eu tenha na mão,
Ante sol, chuva e fruto da estação,
A mudez fúlgea do desdém de Deus.

Por Deus, astros me estão além da força;
Se me viesse a dor em noite de ira,
Nenhuma mariposa se ferira,
E o imprecar não faz com que a flor se torça.

Que se apagara o sol, cada um dizia:
Mas, no Calvário, a mente ainda fulgura:
Ele, penso em madeiro de tortura,
Ao ouvir grilos em canto, ali sorria.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jorge Luis Borges

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La Lluvia - Jorge Luis Borges :
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A CHUVA

A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo freqüentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.
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(Tradução de Renato Suttana)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Betjeman

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Diary of a Church Mouse - John Betjeman :
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Diario de un Ratón de Iglesia
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Aquí entre casullas largo tiempo abandonadas,
bancos podridos y escabeles a medio quebrar,
aquí donde el vicario nunca mira
yo mastico entre viejos misales.
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Acuclillado y solo paso mis días
detrás de este paño de la Iglesia de Inglaterra.
Comparto mi oscura y olvidada pieza
con dos lámparas de aceite y media escoba.
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El que limpia nunca me molesta
así que aquí, frugal, me tomo el té.
Mi pan es aserrín mezclado con paja;
mi mermelada es limpiador de piso.
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Pascua y Navidad podrán ser un festín
para curas y congregaciones
y quizá también Pentecostés. Todos lo mismo,
ninguno me llena mi flaca estampa.
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Para mí el único festín en realidad
es el Festival de la Cosecha, en otoño
en que puedo satisfacerme a voluntad
con jarras de trigo alrededor de la pila.
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Escalo la cabeza de bronce del águila
para cavar a través de una hogaza de pan.
Me trepo por la escalera del púlpito
y mordisqueo las médulas que cuelgan de ahí.
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Es agradable disfrutar
estos artículos antes de que se vayan al tacho,
pero qué molesto cuando uno se encuentra
con que otros ratones de mentes paganas
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se meten a la iglesia para compartir mi comida
cuando no tienen nada que hacer acá.
Dos ratones de campo con ningún deseo
de ser bautizados invaden el coro.
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Una rata enorme y realmente poco amistosa
viene a ver en qué andamos.
Dice pensar que Dios no existe
pero igual viene... es muy extraño.
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Este año se robó un manojo de trigo
(frente al sitial de nuestro predicador)
y prósperos ratones de campos lejanos
vienen a escuchar tocar el órgano
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y ocultos bajo sus notas
comen a través del fardo de avena del altar.
Un ratón de Baja Iglesia[1], que cree que yo
soy demasiado papista, y Alta,
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sin embargo no cree erróneo
masticar sonoramente durante la Oración de la Tarde
mientras yo, que paso hambre todo el año,
tengo que compartir mi comida con roedores
.que excepto en esta época
ni se aparecen por la iglesia.
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Yo sé que dentro del mundo humano
eso no podría ser,
porque los seres humanos sólo hacen
lo que su religión les dice.
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Leen la Biblia todos los días
y rezan siempre, mañana y noche
e igual que yo, el buen ratón de iglesia
adoran al Señor en su Casa,
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pero de todos modos me extraña
cuán llena puede estar la iglesia
con gente que nunca veo,
excepto para el Festival de la Cosecha.

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alexandre O'Neill

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Amigo - Alexandre O'Neill :
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Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

sábado, 1 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Guillaume Apollinaire

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 Guillaume Apollinaire :
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JANELAS

Todo o amarelo morre do vermelho ao verde

Quando as araras cantam nas florestas nativas

Miúdos de pir-rís

É preciso escrever um poema sobre o pássaro de uma asa só

Vamos enviar por telefone

Traumatismo gigante

Faz os olhos correrem

Repare naquela moça bonita que passa entre as mulheres de Turim

O pobre rapaz assoa o nariz na sua gravata branca

Você vai erguer a cortina

E eis que a janela se abre

Aranhas quando minhas mãos teciam a luz

Beleza palidez insondáveis violetas

Em vão tentaremos um cochilo

Começaremos à meia-noite

Onde se tem o tempo tem a liberdade

Mexilhões Bacalhau múltiplos Sóis o Ouriço do poente

Um par de velhas botas amarelas na janela

Torres

Torres são ruas

Poços

Poços são praças

Poços

Árvores ocas abrigando mestiços vagabundos

Mulatos cantam cantigas que matam

Mulatos barulhentos

E o ganso trompeteia seu ruá-ruá rumo ao norte

Onde caçadores de guaxinim

Raspam as peles da caça

Vancouver

Diamante brilhante

Onde o trem branco de neve e seus fogos noturnos fogem do inverno

Ô Paris

Todo o amarelo morre do vermelho ao verde

Paris Vancouver Hyères Maintenon New-York Antilhas

A janela se abre como laranja

Bonito fruto da luz



GUILLAUME APOLLINAIRE

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes