segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Castro Alves


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As duas Flores - Castro Alves :

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São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Geraldy

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Despedida - Paul Geraldy :

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Con que entonces, adios.
No olvidas nada?
entonces vete...
Podemos despedirnos.

Ya no tenemos nada que decirnos?

Te dejo,puedes irte...Aunque no, espera,
espera todavia:
que pare de llover...Espera un rato,
y sobre todo,ve bien abrigado,
pues ya sabes el frio que hace alli afuera.

domingo, 5 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gabriela Mistral

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El placer de servir - Gabriela Mistral :

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A ALEGRIA DE SERVIR 

Toda a Natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, servem os vales.
Onde haja uma árvore que plantar, planta-a tu;
Onde haja um erro que emendar, emenda-o tu;
Onde haja um esforço que todos evitam, aceita-o tu.

Sê aquele que afasta a pedra do caminho,
O ódio dos corações e as dificuldades de um problema
Existe a alegria de ser são, e a alegria de ser justo,
Mas existe sobretudo, a formosa a imensa alegria de servir.
Como seria triste o mundo se tudo já estivesse feito,
Se não houvesse um roseiral que plantar, uma empresa que iniciar!
Que não te atraiam somente os trabalhos fáceis.

É tão belo fazer a tarefa a que outros se esquivam!
Mas não caias no erro de que só se conquistam méritos
Com os grandes trabalhos;
Há pequenos serviços que são imensos serviços:
Adornar a mesa, arrumar os bancos, espanar o pó.
Aquele é o que critica, este é o que destrói;
Sê tu o que serve.

O serviço não é tarefa só de seres inferiores.
Deus, que dá o fruto e a luz, serve.
Poder-se-ia chamá-lo assim: Aquele que serve.
E Ele, que tem os olhos em nossas mãos, nos pergunta todo dia:
“Serviste hoje? A quem? À árvore, a teu amigo, à tua mãe?”


sábado, 4 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francis Ponge

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La pluie - Francis Ponge :

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A CHUVA :
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A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.
Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.
O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.
Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.
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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Almada Negreiros

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«Mãe» - Almada Negreiros :

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Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Marie Under

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Marie Under :

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Christmas Greetings :

    I walk the silent, Christmas-snowy path,
    that goes across the homeland in its suffering.
    At each doorstep I would like to bend my knee:
    there is no house without mourning.
    
    The spark of anger flickers in sorrow's ashes,
    the mind is hard with anger, with pain tender:
    there is no way of being pure as Christmas
    on this white, pure-as-Christmas path.
    
    Alas, to have to live such stony instants,
    to carry on one's heart a coffin lid!
    Not even tears will come any more -
    that gift of mercy has run out as well.
    
    I'm like someone rowing backwards:
    eyes permanently set on past -
    backwards, yes - yet reaching home at last ...
    my kinsmen, though, are left without a home...
    
    I always think of those who were torn from here...
    The heavens echo with the cries of their distress.
    I think that we are all to blame
    for what they lack - for we have food and bed!
    
    Shyly, almost as in figurative language,
    I ask without believing it can come to pass:
    Can we, I wonder, ever use our minds again
    for sake of joy and happiness?
    
    
    Now light and darkness join each other,
    towards the stars the parting day ascends.
    The sunset holds the first sign of the daybreak -
    It is as if, abruptly, night expands.
    
    All things are ardent, serious and sacred,
    snow's silver leaf melts on my lashes' flame,
    I feel as though I'm rising ever further:
    that star there, is it calling me by name?
    
    And then I sense that on this day they also
    are raising eyes to stars, from where I hear
    a greeting from my kinsfolk, sisters, brothers,
    in pain and yearning from their prison's fear.
    
    This is our talk and dialogue, this only,
    a shining signal - oh, read, and read! -
    with thousand mouths - as if within their glitter
    the stars still held some warmth of breath inside.
    
    The field of snow dividing us grows smaller:
    of stars our common language is composed....
    It is as if we d started out for one another,
    were walking, and would soon meet on the road.
    
    For an instant it will die away, that 'When? When?'
    forever pulsing in you in your penal plight,
    and we shall meet there on that bridge in heaven,
    face to face we'll meet, this Christmas nigh


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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ARTHUR DE SALLES :

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VENEZA :
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Rolam no mar azul, num temporal desfeito,
Teus barcos, teu poder, tua soberania.
Tremes de espanto e horror. E um canto de agonia
Sobe dos teus canais ao leão de torvo aspeito.

O Oriente, a coruscar de ouro e de pedraria,
Fulge-te à fronte e às mãos num derradeiro preito,
E o nardo, o incenso, a mirra ungem-te o régio leito
Em que estendes a dor do teu último dia.

Cristã, que abriste o seio ao pagão muçulmano,
Clamas contra o destino, este maldito oceano
Que o ceptro secular te espedaça nas fragas.

E o Ibero, o teu Otelo, ardendo de áureos ciúmes,
Afoga-te no leito entre raros perfumes,
Ó soberba e imortal Desdêmona das vagas!
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