terça-feira, 8 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nicolau Tolentino

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 Nicolau Tolentino de Almeida :
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http://youtu.be/-uPy8u33VW0
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DEITANDO UM CAVALO À MARGEM :


Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal de minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra terra este letreiro:

— "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome"
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(retirado, com a devida vénia, de "D´ali e D´aqui")

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Keats

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To Autumn - John Keats :

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Ao Outono :
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I

Estação de névoas e frutífera suavidade,
Amiga do peito do sol maduro;
Conspiras como ele como espargir e abençoar
Com frutas as videiras nos beirais de palha;
Arqueias com maçãs os ramos musgosos,
Preenches até o fim de madurez as frutas;
Inflas as cabaças e farta as cascas das avelãs
Com doce cerne; fazes brotar mais
E mais, flores tardias às abelhas,
Até que pensem jamais findar-se-ão os dias quentes,
Pois o Verão transbordou suas meladas colméias.

II

Quem não te viu em teu armazém?
Às vezes, aquele que procurar te encontrará
Sentada tranquila no chão do celeiro,
Teu cabelo levemente erguido pelo vento joeirante,
Ou dormindo profundo num sulco ceifado ao meio,
Entorpecida no aroma das papoulas, enquanto tua foice
Poupa a fileira seguinte e suas flores enroscadas.
E várias vezes como um colhedor manténs
Firme tua cabeça pródiga ao atravessar o riacho;
Ou ao lado de uma prensa de cidra, com olhar paciente,
Contemplas as derradeiras horas viscosas.

III

Onde estão as canções da Primavera? Sim, onde estão?
Não penses nelas, tens tua música também, -
Nuvens como estrias brotam no dia que suave se esvai,
E tangem com rósea cor os restos dos campos desnudos;
Num coro-lamento pranteam os mosquitos
Entre os salgueiros do rio, no alto
Ou imersos quando a tênue brisa vive ou fenece;
E grandes carneiros berram no riacho das montanhas;
Grilos cantam; e agora com suave trinado
O papo-roxo sibila do jardim,
Andorinhas gorjeiam nos céus.
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(retirado, com a devida vénia de "John Keats")

domingo, 6 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Albano Martins

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Albano Dias Martins :
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Uma Cidade :Uma cidade pode ser 
apenas um rio, uma torre, uma rua 
com varandas de sal e gerânios 
de espuma. Pode 
ser um cacho 
de uvas numa garrafa, uma bandeira 
azul e branca, um cavalo 
de crinas de algodão, esporas 
de água e flancos 
de granito. 
                      Uma cidade 
pode ser o nome 
dum país, dum cais, um porto, um barco 
de andorinhas e gaivotas 
ancoradas 
na areia. E pode 
ser 
um arco-íris à janela, um manjerico 
de sol, um beijo 
de magnólias 
ao crepúsculo, um balão 
aceso 

numa noite 
de junho. 

Uma cidade pode ser 
um coração, 
um punho. 
.(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francisco Balagtas

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Francisco Baltazar Balagtas :
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To Celia :

If I recall and read again
those days in love’s long-faded script,
would there be not a mark or trace
but Celia’s, imprinted on my breast?

The Celia whom I’ve always
feared might forget our love,
who took me down these hapless depths,
the only reason for this turn of fate.

Again would I neglect to read
the pages of our tenderness,
or call to mind the love she poured,
the bitter struggle I gave for it?

Our sweet days gone,
my love is all that’s left;
ever shall it dwell within
till I’m laid down in my grave.

Now as I lie in loneliness,
behold wherein I seek relief:
each bygone day I revisit, I find
joy in the likeness of your face.

This likeness painted with love
and longing has lodged within
my heart, sole token left with me
not even death can steal.

My soul haunts the paths
and fields you blessed with your footsteps;
and to Beata River and shallow Hilom stream
my heart never fails to wander.

Not rarely now my vagrant grief
sits under the mango tree we passed,
and looking at the dainty fruits
you wanted picked I forget my ache.

The whole of me could only
be intimate with sighs when you were ill;
for I knew as Eden kept a room us,
my hidden hurt was heaven still.

I woo your image that resides
in the Makati river we frequented;
to the happy berth of boats I trace your steps,
among the stones that touched your feet.

All these return before me now,
the joy of years, the blissful past,
where I would soak and steep myself
before I’m caught in brackish neap.

Always I could hear what you would say:
Three days and our eyes won’t meet.
And the eager answer from my leaping heart:
There’s only me but you prepare a feast.

So what was there in our
joyful past that memory could miss:
in constant retrun the tears do flow,
I sigh and weep: O hapless fate!

Where is Celia, joy of my heart?
Why could our blissful love not last?
Where is the time when just her look
was heaven’s glimpse, my soul, my life?

Why, when we parted,
did this luckless life not cease?
Your memory is death, O Celia,
but in my heart you will not fade.

This long torment you brought,
I couldn’t bear, O departed Joy;
but it took me by the hand to poetry and song,
about a life so trodden low, now lost.

Celia, my messages are mute,
my muse is dumb, her voice faint;
without my taunt she would not speak,
pray listen to me with mind and ear.

This first spring that breaks
from my parched mind I offer at your feet:
deign receive, from this kneeling heart,
even if you won’t savor it.

If all this fell into slur and insult,
my gain is great from invested effort,
if complaint it is you now peruse,
remember, too, it is the author’s gift.

O joyful nymphs of Bai, the placid lake,
Sirens whose voices bring music to my ears,
I come now to your sparkling shrine,
my forlorn muse implores you.

Rise now to shore and field,
accompany with lyre this humble song
that speaks: if fate this life may snip,
its fervent wish is that love won’t cease.

Gleaming bloom of my mind,
Celia whose symbols are M, A, and R;
here I am adoring at the Virgin Madonna’s
altar, F and B, your loyal servant.
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(retirado, com a devida vénia, de "PoemHunter.com")

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Voltaire

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Voltaire, 
pseud. de François-Marie Arouet
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Amor Comparado :Queres ter uma ideia do amor, vê os pardais do teu jardim; vê os teus pombos; contempla o touro que se leva à tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem à égua em paz que o espera, e que desvia a cauda para recebê-lo; vê como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsões, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para o objecto que a natureza lhe destinou; mas não tenhas inveja, e pensa nas vantagens da espécie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, força, beleza, ligeireza, rapidez. Há até mesmo animais que não sabem o que é o gozo. Os peixes escamados são privados dessa doçura: a fêmea lança no lodo milhões de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que fêmea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam só têm prazer por um sentido; e, assim que esse apetite é satisfeito, tudo se extingue. Nenhum animal, com excepção de ti, conhece os entrelaçamentos; todo o teu corpo é sensível; os teus lábios, sobretudo, gozam de uma volúpia que nada cansa, e esse prazer só pertence à tua espécie; enfim, tu podes a qualquer tempo entregares-te ao amor, os animais têm o seu tempo específico. (...) Por isso, estás acima dos animais; mas, se gozas de tantos prazeres que eles ignoram, em compensação quantas tristezas os animais não fazem ideia! .(retirado, com a devida vénia, de "Citador")


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mahmoud Darwish

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Wait For Her - Mahmoud Darwish :



Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Tradução: André Simões
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(retirado, com a devida vénia, de "sobre as ruínas")

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Carlos Queiroz Ribeiro

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VARINA - CARLOS QUEIROZ :

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Ó varina, passa,
Passa tu primeiro!
Que és a flor da raça,
A mais séria graça
Do país inteiro.

O teu vulto seja
Sonora fanfarra,
Zimbório de igreja;
Que logo te veja
Quem entra na barra.

Lisboa, esquecida
Que é porto-de-mar,
Sente a sua vida
Reconstituída
Pelo teu andar.

Dá-lhe a tua graça
Clássica e sadia.
Ó varina, passa!
Na noite da raça
Teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente
Mas fica contente
De olhar para ti.

E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do mar.
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(retirado, com a devida vénia, de "José Maria Alves")