quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Tempo de Poesia :

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Todo o tempo é de poesia,
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia,
desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia,
todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram,
corolas que se desdobram,
corpos que em sangue soçobram,
vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança,
sob o arco da aliança
da celeste alegoria,
todo o tempo é de poesia,
desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
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António Gedeão
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NelitOlivas

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Nos Teus Gestos :

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Nos teus gestos há animais em liberdade 
e o brilho doce que só têm as cerejas. 
É neles que adormeço, e dos teus dedos 
retiro a luz azul dos arquipélagos. 

Os teus gestos são letras, sílabas, poemas. 
Os teus gestos são páginas inteiras. São 
a tua boca a namorar na minha boca, 
o cio dos séculos a saudar o tempo. 

São os teus gestos que me acordam. Gestos 
que vestem o silêncio fundo das ravinas 
e assinalam a água dos desertos. 

Os teus gestos são música. São lume. 
São a respiração do teu olhar. A seara 
de espigas que ondula no meu corpo.
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Joaquim Pessoa
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NelitOlivas

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Momento Poético

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A um ti que eu inventei :
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Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
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António Gedeão
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NelitOlivas

domingo, 4 de janeiro de 2015

Momento Poetico

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QUEM MUITO VIU...

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Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

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Jorge de Sena
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NelitOlivas

sábado, 3 de janeiro de 2015

Momento Poético

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As fontes :

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Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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NelitOlivas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Num Dia Excessivamente Nítido :

Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
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NelitOlivas

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Momento Poético

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NEVOEIRO :

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!
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Fernando Pessoa
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NelitOlivas