sábado, 7 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

Noite :

.
Sou da noite um filho noite
Trago rugas nos meus dedos 
De contarem os segredos
Nas altas fontes do amor

E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor

Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

Oh minha mãe de arvoredos
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
A minha voz soluçar

Dei-te um corpo de segredos
Onde risquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia no ar


Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei.
.
Vasco de Lima Couto
.
noite.jpg
.
NelitOlivas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.
O Amor :
.
O Amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
.

Fernando Pessoa

..
sol.jpg
.
NelitOlivas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente :

.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente 
Em minha perdição se conjuraram; 
Os erros e a Fortuna sobejaram, 
Que para mim bastava Amor somente. 

Tudo passei; mas tenho tão presente 
A grande dor das cousas que passaram, 
Que já as frequências suas me ensinaram 
A desejos deixar de ser contente. 

Errei todo o discurso de meus anos; 
Dei causa a que a Fortuna castigasse 
As minhas mal fundadas esperanças. 

De Amor não vi senão breves enganos. 
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse 
Este meu duro Génio de vinganças !
.

Luís Vaz de Camões
.
L.V.C....jpg

.
NelitOlivas

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

O mar nos olhos :

.
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

.

Sophia de Mello Breyner Andresen
.
mar nos olhos.jpg
.
NelitOlivas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

Que Povo é este, que Povo :

.
Que Povo é este, que Povo,
Que compra os rios que tem?
Que vende a terra pequena
E não sabe donde vem?

Que Povo é este, que Povo,
que respira sem garganta?
Que chora porque tem frio
mas não tem sol quando canta?

Que Povo é este. que Povo,
que é poeta e se alimenta
de tanta maré vazia
no mar que ele próprio inventa?

Que Povo é este, que Povo,
que tenta um sonho esmagado?
...É o Povo de onde venho
todo por dentro amarrado!
.

Vasco de Lima Couto

.
V.L.C..jpg
.
NelitOlivas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

O peso da sombra :

.
A noite já devia ter caído, a pele do rio
escurecera. Vozes felizes afastavam-se
luminosas, desciam as escadas de mansinho,
enquanto as lágrimas não tardariam a rebentar
no escuro.

Eles não sabiam que o lobo conseguira
fugir e o caçador adormecera de cansaço debaixo
da grande árvore vermelha. Sem o menor
ruído a porta começara a abrir-se,
primeiro foram só uns olhos de lume, depois o animal
todo entrou no quarto.

Se tivesse de morrer seria agora, o peso da sombra
sobre o coração, empurrando-me para as águas,
cada vez mais próximas e desertas.
.
Eugénio de Andrade
.
E..A
.
NelitOLivas

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Momento Poético

.

NOCTURNO :

 .
Amor, não sei de coisa mais violenta
que ficar de noite à tua espera.
É triste como uma manhã cinzenta
destruindo o coração da primavera.

E aqui, como um pássaro deitado,
julgando ouvir na chuva a tua voz,
a madrugada deita-se a meu lado
fingindo que na cama estamos nós.

Mas eu sinto chegar esta amargura
que vem fechar-me os olhos. E depois,
já nem sei se é um sonho ou se é loucura:
no quarto onde estou só, ficamos dois.

E nada mais me importa, já não espero
aquela que enche a noite de alegria.
Então, para dizer quanto te quero,
eu faço amor contigo até ser dia.
.

JOAQUIM PESSOA
.
noturno.jpg
.
NelitOlivas