quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Meus Oito Anos - Casimiro de Abreu :
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Oh ! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !

Como são belos os dias
Do despontar da existência !
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é lago sereno,
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino damor !

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingénuo folgar !
O céu bordado destrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !

Oh ! dias da minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !

Oh ! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.LA LUNA Y LA ROSA - MIGUEL DE UNAMUNO :
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No silêncio estrelado
na rosa a Lua incidia
e o perfume da noite
lhe enchia - sedenta boca -
o paladar do espírito,
que aquietando o seu pesar
se rasgava ao céu nocturno
de Deus e de sua Mãe...
Toda cabelos tranquilos,
a Lua, tranquila e só,
acariciava a Terra
com seus cabelos de rosa
silvestre, branca, escondida...
A Terra, dos seus rochedos,
inspirava suas entranhas
fundidas de amor, seu odor...
Entre as sarças, o seu ninho,
era outra lua a rosa,
toda cabelos coalhados
no berço, sua corola;
as cabeleiras mescladas
quer da Lua, quer da rosa
e no cadinho da noite
fundidas em uma só...
No silêncio estrelado
na rosa a Lua incidia
enquanto a rosa se dava
à Lua, tranquila e só.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.ACHO INÚTEIS AS PALAVRAS - António Sousa Freitas :
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Acho inúteis as palavras
quando o silêncio é maior,
inúteis são os meus gestos
p'ra te falarem de amor.

Acho inúteis os sorrisos
quando a noite nós procura,
inúteis são minhas penas
p'ra te falar de ternura.

Acho inúteis nossas bocas
quando voltar o pecado,
inúteis são os meus olhos
p'ra te falar do passado.

Acho inúteis nossos corpos
quando o desejo é certeza,
inúteis são minhas mãos
nessa hora de pureza.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poema de Amor  - JOAN MANUEL SERRAT :
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O sol nos esqueceu ontem sobre a areia,
nos envolveu o rumor suave do mar,
teu corpo me deu calor,
tinha frio,
e ali na areia,
entre os dois nasceu este poema,
este pobre poema de amor
para ti

Meu fruto, minha flor,
minha história de amor,
minhas carícias

Meu humilde candeeiro,
minha chuva de abril,
minha avareza

Meu pedaço de pão,
meu velho refrão,
meu poeta

A fé que perdi,
meu caminho
e minha carreta

Meu doce prazer,
meu sonho de ontem,
minha bagagem

Meu morno canto,
Minha melhor canção,
minha paisagem

Meu manancial,
meu canavial,
minha riqueza

Minha lenha, minha lareira,
meu teto, meu lar,
minha nobreza

Minha fonte, minha sede,
meu barco, minha rede
e a areia

Onde te senti
onde te escrevi
meu poema
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(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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"The Female of the Species" - Rudyard Kipling :

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A FÊMEA DA ESPÉCIE

Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,

ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;

mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,

se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;

mas a sua companheira não se arreda do caminho,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,

rezavam por não ser presas do feminino penacho,

que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,

pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,

mas a história do marido confirma a do caçador –

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,

propõe negociações e reconhece o contrato;

só muito raro é que torce a lógica da evidência

até a extrema conclusão, num imperdoável ato.

Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,

a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.

O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro

pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!

Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo

numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;

e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,

a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.

Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,

não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.

Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;

Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!

Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,

como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;

e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito

de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.

Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;

suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!

Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,

a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.

Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;

e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;

e vivisseção científica do nervo até que ele seque,

e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!

Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio

com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende

onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos

a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.

O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu

deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;

e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,

que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.O Combate - Joaquim Namorado :
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Nada poderá deter-nos,
Nada poderá vencer-nos.
Vimos do cabo do mundo
Com esse passo seguro
De quem sabe aonde vai.

Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos!

Guerras perdidas e ganhas
Marcaram o nosso corpo
Mas nunca em nós foi vencida
Essa certeza sabida
De saber aonde vamos

Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos!

Os mortos não os deixamos
Para trás, abandonados,
Fazemos deles bandeiras,
Guias e mestres, soldados
do combate que travamos

Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos!

Nada poderá deter-nos
Pró assalto das muralhas
nossos corpos são escadas
para as batalhas da rua
nossos peitos barricadas

Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos!

Nada poderá deter-nos
Vimos do cabo do mundo
Vimos do fundo da vida:
Que somos o próprio mundo
E somos a própria vida

Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos!