sábado, 31 de março de 2012

REC. - Reabilitação de Edifícios

.Ao editar fotos de edifícios-históricos portugueses (para inclusão na rubrica "Imagens do Mundo") deparo, frequentemente, com belos imóveis (repletos de História e de Arte), mas em total estado de abandono e degradação.

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Mete dó, vermos perder-se muita da nossa Memória-colectiva, apenas por uma questão de incúria. É certo que herdámos uma pesada-herança de património da nossa Época-dourada, para o qual os actuais Estado e Autarquias não têm possibilidades de acorrer na totalidade : Muitos Mosteiros e Conventos, abandonados pelas Ordens-religiosas, foram adaptados a Escolas, Hospitais, Lares, Tribunais, etc.; Muitos dos Palacetes e Chalets, abandonados pela Nobreza e pela Burguesia, foram transformados em Centros-de-Dia, Bibliotecas, Museus, Centros Culturais, etc. Mas, para além das dispendiosas obras de recuperação, há toda uma série de custos de manutenção e funcionamento, que são incomportáveis para o Erário-público.

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Seria através da esfera-privada que se conseguiria a tão desejada reabilitação desses nobres Edifícios mas, com excepção de algumas adaptações a Turismo-de-Habitação, Sedes-de-Empresas ou Pousadas, pouco se vê fazer nesse sentido : A maioria dos nossos Construtores-Civis não passam de "patos-bravos", sem qualquer Cultura ou sensibilidade (para não deixarem ruir pedaços da nossa História, feitos de forma que já ninguém, hoje em dia, sabe imitar, e com materiais que não existem mais). Preferem construir mamarrachos (tipo caixote - que é tudo o que sabem fazer), a adquirirem conhecimentos na recuperação de antiguidades, pois apenas conseguem vislumbrar o Lucro-imediato.
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Competiria ao Estado dar-lhes incentivos-fiscais para que, já que só pensam em dinheiro, se tentarem a investir nessa Área (salvaguardando a traça original dos Imóveis); O último Governo ainda chegou a equacionar promover a reabilitação-urbana; Mas, com este, tudo acabou por cair em saco-roto.
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Já que andam a inventar trabalhos, para darem dinheiros-públicos a ganhar aos Empreiteiros (em arranjos urbanísticos modernaços, de mau-gosto e reduzida utilidade), mais valia que empregassem essas verbas na reabilitação do nosso Património, com o que todos ganharíamos !
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E assim se vão deixando arruinar, a pouco-e-pouco, pedaços da nossa Memória...

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Se me saísse uma grossa maquia, aplicá-la-ia na reconstrução e restauro desses Edifícios, para sua posterior cedência a Instituições-Culturais ou de Solidariedade-Social.
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Picareta Escribante

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Mon reve familier - Paul Verlaine :
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O Meu Sonho Habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 30 de março de 2012

.ESTATUTOS DO HOMEM - THIAGO DE MELLO :
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Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Canción del pirata - José de Espronceda  :
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A CANÇÃO DO PIRATA
Com doze canhões por banda,
Vento em popa, a todo pano
Voa, não corre, no oceano
Um veleiro bergantim;
Baixel pirata, que chamam
Por seus feitos "O Temido",
Em todo o mar conhecido
De Marselha a Bombaim.

Treme a lua sobre as águas;
Nos rinzes suspira o vento,
E ergue em brado movimento
Orlas de prata e de azul.
Ei-lo, o capitão pirata,
Que vai cantando na popa,
Ásia a um bordo, a outro a Europa,
E pela proa Estambul.

"Voga, meu barco, navega
"Sem temor;
"Nem forte nau na refrega,
"Nem procela, ou calmaria "
Do teu rumo te desvia,
Ou sujeita o teu valor.
"Vinte presas
"Tenho feito
"Em despeito
"Té do inglês:
"E abateram
"Pendões vários
"Cem contrários
"A meus pés.

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento, e os céus!
"Além movam feroz guerra
"Cegos reis
"Por mais um palmo de terra;
"Que eu aqui tenho por meu
"Quanto avisto em mar e céu,
"A quem nada vem dar leis.
"Nem bandeiras
"Sobranceira
"Nem bandeira
"De esplendor,
"Que não ceda
"De repente,
Ë me alente
"Meu valor.

"O meu barco é meu tesouro
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, vento, e os céus!
"A voz: - "D'avante uma vela!
"É de ver
"Como tudo se acautela
"Panos cheios a escapar;
"Que eu sou déspota do mar,
"Minha fúria é de temer,
"Nós despojos
"O colhido
"Eu divido
"Por igual,
"E só guardo
"Dessa presa
"A beleza
"Sem rival.

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus.


"Condenado estou à morte!
"Disso rio.
"Se não me abandona a sorte
"O mesmo que me condena
"Penderá de alguma antena
"Talvez no próprio navio.
"sucumbindo
"Que é a vida?
"Já perdida
"Não a vi,
"Quando o jugo
"Vil de escravo
"Como um bravo
"Sacudi?

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade meu Deus
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus.

"São minha orquestra melhor
"Aguilhões Mas o horríssono tremor
"Desses cabos sacudidos;
"E das vagas os bramidos,
"E o rugir dos meus canhões.
"Quando o raio
"Cruza aos centos
"Eu, dos ventos
"Ao troar,
"Adormeço
"Sossegado,
"Embalado,
"Pelo mar!

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade meu Deus
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus."

(Trad. de José da Silva Mendes Leal)  

quarta-feira, 28 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.SÓLO QUIEN AMA VUELA - Miguel Hernández
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Só quem ama voa

Sobrevivem, Miguel, seus versos refugiados
Entre livros de viagens e novelas
Em português neste lado do mundo.
A voz do poeta
Que se impõe sobre a terra,
Voando já sobre este mar poderoso
E tristes praias vazias.
Eu também sou barro ainda que Javier
Me chame.

O vento move os braços
das palmeiras que te buscam.
As palmeiras que levantam
Seus olhos te buscando,
Claros de desejos,
Ardente de asas e penas.

Volto seus versos
Junto aos outros livros
Tão distantes da sua pátria...
Para que todos os olhos te leiam.
Onde faltaram plumas
Pôs valor e esqueço.

terça-feira, 27 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Besos - Gabriela Mistral :

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Há beijos que pronunciam por si mesmos
do amor a sentença peremptória,

há beijos que se dão com um olhar,
há beijos que se dão com a memória.

Há beijos silenciosos, beijos nobres,
Há beijos enigmáticos, sinceros,
Há beijos que se dão só com a alma,
Há beijos proibidos, mas verdadeiros.

Há beijos que queimam e que ferem,
Há beijos que arrebatam os sentidos,
Há beijos misteriosos que deixaram
milhares de sonhos errantes e perdidos.

Há beijos problemáticos que contém
um código que ninguém tem decifrado,
Há beijos que provocam a tragédia
que tantas rosas em botão tem arrasado.

Há beijos perfumados, beijos quentes
que palpitam em íntimos desejos
Há beijos que nos lábios deixam rastros
como um campo de sol entre dois gelos.

Há beijos que parecem açucenas
por serem sublimes, ingênuos e puros,
Há beijos traiçoeiros e covardes,
Há beijos malditos e perjuros.

Judas a Jesus beija e deixa impressa
em seu rosto de Deus a aleivosia,
enquanto Madalena com seus beijos
fortifica piedosa de Jesus a agonia.

Desde então nos beijos pulsa
o amor, a traição e as dores;
nas bocas humanas se parecem
à brisa que brinca com as flores.

Há beijos que produzem desvarios
de amorosa paixão ardente e louca,
você bem os conhece pois são meus
criados por mim para sua boca.

Beijos de fogo que no seu rastro impresso
levam sulcos de um amor vetado,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só nossos lábios tem provado.

Lembra-se do primeiro? Indescritível!
Cobriu sua face de tons vermelhos
e no impulso de uma emoção tão estranha
encheram-se de lágrimas seus olhos.

Lembra-se de que numa tarde de loucura
eu o vi ciumento imaginando ofensas;
segurei-o com meus braços, vibrou um beijo
e viu brotar sangue em meus lábios .

Eu o ensinei a beijar: os beijos frios
são de impassível coração de rocha,
Eu o ensinei a beijar com meus beijos
inventados por mim para a sua boca.
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Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Volverán las oscuras golondrinas - Gustavo Adolfo Becquer :

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Voltarão as escuras andorinhas
em teu balcão seus ninhos a pendurar,
e outra vez com a asa em seus cristais
brincando chamarão;

Mas aquelas que o vôo refreavam
tua formosura e minha felicidade ao contemplar,
aquelas que aprenderam nossos nomes...
Essas... não voltarão!
Voltarão as densas madressilvas
de teu jardim os muros a escalar,
e outra vez na tarde, ainda mais formosas,
suas flores se abrirão;
porém aquelas, coalhadas de orvalho
cujas gotas olhávamos tremer
e cair, como lágrimas do dia...
Essas... não voltarão!
Voltarão do amor em teus ouvidos
as palavras ardentes a soar;
teu coração de seu profundo sono
talvez despertará;
porém mudo e absorto e de joelhos,
como se adora a Deus ante seu altar,
como eu te quis... desengana-te.
Assim não te quererão!

Tradução: Zélia Tellaroli N. Zamora