segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Momento Poético

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Moças de Bencatel :


Ó moças de Bencatel,
não vos zangueis se vos ralho:
muito amor, pouco trabalho;
pouco trigo,muito mel;
- fiai-vos no que vos digo
e não fiqueis mal comigo,
ó moças de Bencatel -
para vós, para a lavoura,
tomai tento, melhor fora
muito trigo, pouco mel.

Vejo terras de pousio,
que andaram sempre lavradas,
todas cobertas de flores;
mais quando chegar o frio
e passarem os calores,
e as chaminés apagadas
e as camas sem cobertores,
mal irá às namoradas
e pior aos lavradores.

Funçanatas e derriços.
cantigas e pasmaceiras,
fazem fugir aos serviços
e faltar às sementeiras:
eis porque estão os cortiços
abarrotados de mel
e estão desertas as eiras,
ó moças de Bencatel.

Como abelhas, as cantigas,
por entre moitas e brejos,
fabricam favos de beijos
nas bocas das raparigas,
e os mocetões das aldeias,
sem canseiras nem cuidados,
largam ancinhos e arados
para crestar as colmeias...

Ó moças de Bencatel,vós tendes as bocas cheias...
Acautelai-vos , senão
haveis de ficar sem mel,
sem maridos e sem pão!

(De «Musa Alentejana» , Conde de Monsaraz (1852-1913))

in Antologia da Terra Portuguesa - Alto e Baixo Alentejo.
Introdução, selecção e notas por Urbano Tavares Rodrigues
Livraria Bertrand 

António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz (nasceu em Reguengos de Monsaraz a 18 de Julho de 1852 — m. em Lisboa a 17 de Julho de 1913)

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(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor).
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NelitOlivas


domingo, 21 de setembro de 2014

Momento Poético

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DESCALCA VAI PARA A FONTE :

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões
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(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

sábado, 20 de setembro de 2014

Momento Poético

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Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda :
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Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
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Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Momento Poético

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Flores do Verde Pinho :
Ó meu jardim de saudades,
Verde catedral marinha,
E cuja reza caminha
Pelas reboantes naves...

Ai flores do verde pinho,
Dizei que novas sabedes
Da minha alma, cujas sedes
Ma perderam no caminho!

Revejo-te e venho exangue;
Acolhe-me com piedade,
Longo jardim da saudade
Que me puseste no sangue.

Ai flores do verde ramo,
Dizei que novas sabedes
Da minha alma, cujas sedes
Ma alongaram do que eu amo!

- A tua alma em mim existe,
E anda no aroma das flores,
Que te falam dos amores
De tudo o que é lindo e triste.

A tua alma, com carinho,
Eu guardo-a, e deito-a, a cantar,
Das flores do verde pinho
- Àquelas ondas do mar.
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Afonso Lopes Vieira
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Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Momento Poético

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Já a roxa manhã clara :

Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ua suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Ó deleitosa pena,
ó efeito de Amor tão preeminente
que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual' aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.
Assi como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algüa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora, a
esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Ó ditosa partida!
Ó glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.
Porém a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.
Canção de cisne, feita n'hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura já me impede o dia.
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Luiz Vaz de Camões
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(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas