domingo, 11 de janeiro de 2015

Momento Poético

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PASSAGEM :
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É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
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António Ramos Rosa

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NelitOlivas

sábado, 10 de janeiro de 2015

Momento Poétco

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Ternura:

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Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós !
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David Mourão-Ferreira
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NelitOlivas

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Fuzilaram um homem num país distante :

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Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças
proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino que a morte!

Sim, proíbo!
E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!

JOSÉ GOMES FERREIRA
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NelitOlivas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Momento Poético

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As Pessoas Sensíveis :

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As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto” Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

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NelitOlivas

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Tempo de Poesia :

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Todo o tempo é de poesia,
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia,
desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia,
todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram,
corolas que se desdobram,
corpos que em sangue soçobram,
vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança,
sob o arco da aliança
da celeste alegoria,
todo o tempo é de poesia,
desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
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António Gedeão
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NelitOlivas

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Momento Poético

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Nos Teus Gestos :

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Nos teus gestos há animais em liberdade 
e o brilho doce que só têm as cerejas. 
É neles que adormeço, e dos teus dedos 
retiro a luz azul dos arquipélagos. 

Os teus gestos são letras, sílabas, poemas. 
Os teus gestos são páginas inteiras. São 
a tua boca a namorar na minha boca, 
o cio dos séculos a saudar o tempo. 

São os teus gestos que me acordam. Gestos 
que vestem o silêncio fundo das ravinas 
e assinalam a água dos desertos. 

Os teus gestos são música. São lume. 
São a respiração do teu olhar. A seara 
de espigas que ondula no meu corpo.
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Joaquim Pessoa
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NelitOlivas

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Momento Poético

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A um ti que eu inventei :
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Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
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António Gedeão
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NelitOlivas