segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Bly

.
Counting Small-Boned Bodies - Robert Bly :
.

.
CONTANDO CORPOS DE PEQUENO PORTE
(tradução de Luiz Olavo Fontes)

Contaremos os corpos mais uma vez.
 
Se pudéssemos tão somente tornar os corpos menores,
Tamanho de crânios,
Poderíamos fazer toda uma planície branca de crânios ao luar!

Se pudéssemos tão somente tornar os corpos menores,
Talvez tivéssemos
todas as matanças do ano diante de nós na escrivaninha!

Se pudéssemos tão somente tornar os corpos menores,
Poderíamos introduzir
Um corpo numa aliança e guardar de lembrança para sempre.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Olavo Bilac

.
"Via Láctea" - Olavo Bilac :
.
.
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas

sábado, 29 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Harold Pinter

.
 Don't look... - Harold Pinter :
.
.
O Mundo Está Prestes a RebentarNão olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel António Pina

.
Café Orfeu - Manuel António Pina :
.
.

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido
Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Heinrich Heine

.
Heinrich Heine :
.
.
BOM CONSELHO
.
Põe sempre os nomes aos bois
Nas histórias que contares.
Ou logo os burros depois
Se queixam de os retratares:
Mas são as minhas orelhas!
Este azurrar é o meu!
Se estas são minhas guedelhas!
Ai este burro sou eu!
Não me nomeie ele embora,
Toda a Pátria vai agora
Saber-me por burro, hin-hã!
Ai que eu, hin-hã, hin-hã!
- Quiseste a um burro poupar...
Logo doze hão-de zurrar.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Torquato Neto

.
A Coisa Mais Linda Que Existe - Torquato Neto :
.
.
Coisa mais linda nesse mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim
.
Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da noite escura
É lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura
.
A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim
.
O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Feliz Natal 2012

.

                            A EQUIPA DE REDAÇÃO DESTE BLOG
.
DESEJA A TODOS OS SEUS LEITORES (OCASIONAIS E SUBSCITORES)
.
                                                     UMAS
.

.
                               F E S T A S   F  E  L  I  Z E S      
.
Picareta Escribante

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Louis Stevenson

.
Robert Louis Stevenson :
.
.
Guarde seus medos para você mesmo, mas partilhe sua inspiração com todos.
.
O homem de sucesso é o que viveu bem, riu muitas vezes e amou bastante; que conquistou o respeito dos homens inteligentes e o amor das crianças; que galgou uma posição respeitada e cumpriu suas tarefas; que deixou este mundo melhor do que encontrou, ao contribuir com uma flor mais bonita, um poema perfeito ou uma alma resgatada; que jamais deixou de apreciar a beleza do mundo ou falhou em expressá-la; que buscou o melhor nos outros e deu o melhor de si.     
.
A felicidade não é ausência de problemas, mas a capacidade de lidar com eles. Não há dever que tanto descuidemos como o de sermos felizes.
.
As mais cruéis mentiras são, às vezes, ditas em silêncio.
.
A política talvez seja a única profissão para a qual não se julga necessária uma preparação.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Teofilo Folengo

.
TEOFILO FOLENGO :
.
.
"A gata apressada muitas vezes pare gatinhos tísicos."
.
"Existem três coisas no mundo, dizia o sábio Sócrates,
que afugentam o homem e fazem-no sair de casa:
o fogo, o fumo e uma mulher má.
.
"Sou rico? Todos estão prontos a dar-me a própria pele;
sou pobre? Ninguém me quer dar nem uma moeda."

sábado, 22 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Emily Dickinson

.
I Died For Beauty - Emily Dickinson :
.
.
Morri pela BelezaMorri pela Beleza - mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado -

Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza", respondi -
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais -
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -

E assim, como parentes próximos, uma Noite -
Falámos de uma Casa para outra -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios -
E cobriu - os nossos nomes -
.
Tradução de Nuno Júdice

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Pedro Luiz Pereira de Souza

.
LÁGRIMAS DO PASSADO - PEDRO LUIZ PEREIRA DE SOUZA :
.
.
Serena estrella no meu céo não viste?
Pallida e triste foi morrer alem;
Aqui findou-se o meu extremo goso,
É já forçoso que me vá tambem.
.

A UM PAI
Fitando longe os teus passados dias,
vendo tingidas de mortais palores
trêmulas crenças, entre murchas flores,
em pó desfeitas puras alegrias;
em sonho, em riso, em lágrimas dirias:
- "A noite rola fúnebres vapores...
Mas brilha a estrela d'alva! Aos seus fulgores
é verde o campo, o mar tem harmonias".
Era esse filho que adoravas tanto,
na densa névoa da alma entristecida,
azul estrela, da alvorada o canto!
Cedo trocou-se na estação querida
do orvalho a gota em pérola de pranto,
morreu em flor a flor de tua vida.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Edmond Rostand

.
Edmond Rostand :
.
.
Poema :
.
Somente no moral se vê minha elegância.
Enfeitar-me não sei; nem dou para casquilho,
Julgo estar muito bem, não sendo peralvilho.
_O que eu não faço nunca é, franco e por incúria,
Sair sem lavar bem a recebida injúria
Trazer o pundonor ébrio de sono e vinho,
Ter os brios de luto e a honra em desalinho!
Ando, sem nada ter que pela cor agrade,
Emplumado de orgulho e garbo e liberdade;
Se não prendo a cintura esbelta num corpete
A vergonha ajustou minh’alma num colete.
São-me os feitos e ações as fitas que apresento;
Qual bigode gentil, retorço o meu talento;
Faço, por onde vou, tornando-as bem sonoras,
As verdades vibrar como tlintlins de esporas!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Clarice Lispector

.
Dá-me Tua Mão - Clarice Lispector :
.
.
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
 e que é linha sub-reptícia.
.
 
Entre duas notas de música existe uma nota,
 entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
 - nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
 que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
 é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Louis Aragon

.
 J'arrive où je suis étranger - Louis Aragon :
.
.
Chego onde sou estrangeiro :


Nada é tão precário quanto viver
Nada quanto ser é tão passageiro
É quase como gelo derreter
E para o vento ser ligeiro
Chego onde sou estrangeiro
.
Um dia passas a margem
De onde vens mas onde vais então
Amanhã que importa que importa ontem
Muda o cardo e o coração
Tudo é sem rima nem perdão
.
Passa na tua têmpora teu dedo
Toca a infância como os olhos veem
Baixa as lâmpadas mais cedo
A noite por mais tempo nos convém
É o dia claro envelhecendo
.
As árvores são belas no outono
Mas da criança o que é sucedido
Eu me olho e me assombro
Deste viajante desconhecido
Seu rosto e seu pé desvestido
.
Pouco a pouco te fazes silêncio
Mas não rápido o bastante
Para não sentires tua dessemelhança
E sobre o tu-mesmo de antes
Cair a poeira do tempo
.
É demorado envelhecer enfim
A areia nos foge entre os dedos
É como uma água fria em torvelim
É como a vergonha num crescendo
Um couro duro corroendo
.
É demorado ser um homem uma coisa
É demorado renunciar totalmente
E sentes-tu as metamorfoses
Que se passam internamente
Dobrar nossos joelhos lentamente
.
Ó mar amargo ó mar profundo
Qual é a hora da preamar
Quanto é preciso de anos-segundos
Ao homem para o homem abjurar
Por que por que esse gracejar
.
Nada é tão precário como viver
Nada quanto ser é tão passageiro
É quase como gelo derreter
E para o vento ser ligeiro
Chego onde sou estrangeiro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rainer Maria Rilke

.
 O Cisne - Rainer Maria Rilke :
.
.
Este sacrifício de avançar
pelos feixes do irrealizado
lembra um cisne, altivo a caminhar.

E a morte – esse nada mais buscar
do chão diariamente repisado –
lembra a sua angustia de pousar

sobre as águas que o recebem mansas
e cedem sob ele, em suaves tranças
de marolas que cercá-lo vem;
enquanto ele, calmo e independente,
segue sempre majestosamente
como ao seu capricho lhe convém.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Acuña

.
Nocturno a Rosario - Manuel Acuña :
.
.
Pues bien, yo necesito
decirte que te adoro,
decirte que te quiero
con todo el corazón;
que es mucho lo que sufro,
que es mucho lo que lloro,
que ya no puedo tanto,
y al grito que te imploro
te imploro y te hablo en nombre
de mi última ilusión.
De noche cuando pongo
mis sienes en la almohada,
y hacia otro mundo quiero
mi espíritu volver,
camino mucho, mucho
y al fin de la jornada
las formas de mi madre
se pierden en la nada,
y tú de nuevo vuelves
en mi alma a aparecer.
Comprendo que tus besos
jamás han de ser míos;
comprendo que en tus ojos
no me he de ver jamás;
y te amo, y en mis locos
y ardientes desvaríos
bendigo tus desdenes,
adoro tus desvíos,
y en vez de amarte menos
te quiero mucho más.
A veces pienso en darte
mi eterna despedida,
borrarte en mis recuerdos
y huir de esta pasión;
mas si es en vano todo
y mi alma no te olvida,
¡qué quieres tú que yo haga
pedazo de mi vida;
qué quieres tú que yo haga
con este corazón!
Y luego que ya estaba?
concluido el santuario,
la lámpara encendida
tu velo en el altar,
el sol de la mañana
detrás del campanario,
chispeando las antorchas,
humeando el incensario,
y abierta allá a lo lejos
la puerta del hogar...
Yo quiero que tú sepas
que ya hace muchos días
estoy enfermo y pálido
de tanto no dormir;
que ya se han muerto todas
las esperanzas mías;
que están mis noches negras,
tan negras y sombrías
que ya no sé ni dónde
se alzaba el porvenir.
¡Que hermoso hubiera sido
vivir bajo aquel techo.
los dos unidos siempre
y amándonos los dos;
tú siempre enamorada,
yo siempre satisfecho,
los dos, un alma sola,
los dos, un solo pecho,
y en medio de nosotros
mi madre como un Díos!
¡Figúrate qué hermosas
las horas de la vida!
¡Qué dulce y bello el viaje
por una tierra así!
Y yo soñaba en eso,
mi santa prometida,
y al delirar en eso
con alma estremecida,
pensaba yo en ser bueno
por ti, no más por ti.
Bien sabe Díos que ése era
mi más hermoso sueño,
mi afán y mi esperanza,
mi dicha y mi placer;
¡bien sabe Díos que en nada
cifraba yo mi empeño,
sino en amarte mucho
en el hogar risueño
que me envolvió en sus besos
cuando me vio nacer!
Esa era mi esperanza...
mas ya que a sus fulgores
se opone el hondo abismo
que existe entre los dos,
¡adiós por la última vez,
amor de mis amores;
la luz de mis tinieblas,
la esencia de mis flores,
mi mira de poeta,
mi juventud, adiós!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Blake

.
The Tyger - William Blake :
.
.

O Tigre

Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?
.
Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos ?
Sobre que asas se atreveu a ascender ?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração ?
.
E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui ?
Que martelo te forjou ? Que cadeia ?
Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?
.
Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação ?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?~
.
Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?
.
Tradução de Ângelo Monteiro

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Violeta Parra

.
Volver a los 17 - Violeta Parra :
.
.

Regressar aos 17 anos :

Voltar aos 17 depois de viver um século
É como decifrar sinais sem ser sábio competente
Voltar a ser de repente tão fragil como um segundo
Voltar a sentir profundo como um menino diante de Deus
Isso é o que sinto neste instante fecundo


Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.


Meu passo retrocede quando o de vocês avança
O arco das alianças penetrou em meu ninho
Com todo seu colorido passeou por minhas veias
E até a dura corrente com a qual nos prende o destino
É como um diamante fino que ilumina minha alma serena


Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.


O que pode o sentimento não o pode o saber
Nem o mais claro proceder, nem o maior dos pensamentos
Tudo o muda num momento qual mago condescendente
Nos afasta docemente de rancores e violências
Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes


Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.


O amor é um turbilhão de pureza original
Até o feroz aminal sussura seu doce som
Detém os pergrinos, liberta os prisioneiros
O amor com seus esforços ao velho o torna criança
E ao mal só o carinho o torna puro e sincero


Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.


De par em par a janela se abriu como por encanto
Entrou o amor com seu manto como uma fraca manhã
Ao som de sua bela Diana fez brotar o jasmim
Voando qual serafim ao céu lhe pôs brincos
Meus anos em dezessete os converteu o querubim

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jonathan Swift

.
"A Description of the Morning" - Jonathan Swift :
.
.
 .
 Agora mal aqui e ali um hackney-treinador
 Aparecendo, show'd abordagem da manhã corado de.
 Agora Betty da cama de seu mestre tinha voado,
 E suavemente roubou a perturbava a sua própria.
 O deslizamento calçados 'aprendiz de porta de seu mestre
 Tinha par'd a sujeira, e espargiu o chão.
 Agora Moll tinha whirl'd seu mop com ares dext'rous,
 Prepar'd para esfregar a entrada e as escadas.
 Os jovens com tocos broomy começou a rastrear
 O canil de ponta, onde as rodas tinha usado o lugar.
 O homem de pequena carvão foi ouvida com profunda cadência;
 Até drown'd em notas agudíssimas de "limpa-chaminés".
 Duns no portão de sua senhoria começou a cumprir;
 E brickdust Moll tinha scream'd através de metade da rua um.
 O carcereiro agora seu rebanho retornando vê,
Devidamente soltou uma noite para roubar de honorários.
Os oficiais de justiça vigilantes levar seus carrinhos silenciosos;
 E estudantes ficam com sacolas nas mãos.
.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Silvio Rodriguez

.
Te doy una cancion - Silvio Rodriguez :
.
.

Te dou uma canção

Como eu gasto papel lembrando de você
Como me faz falar no silêncio
Como não me tira as vontades
Ainda que ninguém nunca me veja com você
E como passa o tempo que de repente são anos
Sem passar você por mim, detida


Te dou uma canção
Se abro uma porta
E das sombras sai você,
Te dou uma canção de madrugada
Quando mais quero sua luz,
Te dou uma canção
Quando aparece
O mistério do amor
E se não aparece
Não me importo
Eu te dou uma canção


Se olho um pouco para fora me detenho
A cidade se derruba
E eu cantando
A gente que me odeia e que me ama
Não vai me perdoar
Que me distraia,
Acreditem em tudo que eu digo
Que eu jogo a vida
Porque não te conhecem
Nem te sentem


Te dou uma canção e faço um discurso
Sobre o meu direito de falar,
Te dou uma canção
Com as minhas duas mãos
Com as mesma de matar,
Te dou uma canção
E digo pátria
E continuo falando para você,
Te dou uma canção
Como um disparo
Como um livro
Uma palavra
Uma guerrilha...
Como dou o amor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Andre Breton

.
Andre Breton :
.
.
Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
Cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a montanha.
Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente
E os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o serviço de café da beladona.

O tempo enrodilha-se miraculosamente detrás dos seus
sapatos de estrelas de neve
ao longo dum rasto perdido nas carícias
de dois arminhos.

Os perigos anteriores foram ricamente repartidos
e mal extintos os carvões no abrunheiro bravo das sebes
pela serpente coral que sem custo passa
por um delgado
filete de sangue seco
na lareira profunda
sempre sempre esplendidamente negra
Esta lareira onde aprendi a ver
e sobre a qual dança sem cessar
o crepe das costas das primaveras
Aquele que é necessário lançar muito alto para dourar
a mulher em cujos cabelos encontro
o sabor que perdera
O crepe mágico o sinete voador
do amor que é nosso.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Gedeão

.
DECLARAÇÃO DE AMOR - António Gedeão :
.
.

Excita-me a tua presença, ó Árvore - ó Árvores todas!
Desejo-te (desejo-vos) como se fosses Carne, e eu Desejo.
Como se eu fosse o vento que preside às tuas bodas,
e te cicia em redor, e te fecunda num aliciante beijo.

Ponho os olhos em ti e entretenho-me a pensar que sou mãos,
todo mãos que te envolvem o tronco e te sacodem convulsivamente.
Requebras-te com volúpia, e os teus emaranhados cabelos louçãos
fustigam o ar como látegos, com toda a força que este amor me consente.

Ó árvore minha débil! Ó prazer dos meus olhos extáticos!
Ó filtro da luz do Sol! Ó refresco dos sedentos!
Destila nos meus lábios as gotas dos teus ésteres aromáticos,
unge a minha epiderme com teus macios unguentos.

Desnuda-me a tua intimidade, ó Árvore! Diz-me a que segredos recorres
para te desenrolares em flores e em frutos num cíclico desvario.
Porque é que tudo morre à tua volta e tu não morres,
e aceitas sempre o Amor com renovado cio.

Inicia-me nos teus mistérios, ó feiticeira dos cabelos verdes!
Ensina-me a transformar um raio de Sol em suculenta carnadura,
e nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes,
prolongando o teu ser no ar que te emoldura.

É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza.
É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente.
É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza.
Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Uns Pensamentos por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charles Maurras

.
Charles Maurras  :
.
.
"Não há uma ideia nascida do espírito humano que não tenha feito correr sangue sob a Terra."
.
"Só a instituição durável fez subsistir o que há de melhor em nós."
.
"A igualdade só poderá ser soberana nivelando as liberdades, desiguais por natureza."

sábado, 8 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Félix Lope de Vega y Carpio

.
Varios efectos del amor - Félix Lope de Vega y Carpio :
.
.
Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;
no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;
huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;
creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Thomas Chatterton

.
Thomas Chatterton :
.
.

A New Song

Ah blame me not, Catcott, if from the right way
My notions and actions run far.
How can my ideas do other but stray,
Deprived of their ruling North-Star?

A blame me not, Broderip, if mounted aloft,
I chatter and spoil the dull air;
How can I imagine thy foppery soft,
When discord's the voice of my fair?

If Turner remitted my bluster and rhymes,
If Hardind was girlish and cold,
If never an ogle was got from Miss Grimes,
If Flavia was blasted and old;

I chose without liking, and left without pain,
Nor welcomed the frown with a sigh;
I scorned, like a monkey, to dangle my chain,
And paint them new charms with a lie.

Once Cotton was handsome; I flam'd and I burn'd,
I died to obtain the bright queen;
But when I beheld my epistle return'd,
By Jesu it alter'd the scene.

She's damnable ugly, my Vanity cried,
You lie, says my Conscience, you lie;
Resolving to follow the dictates of Pride,
I'd view her a hag to my eye.

But should she regain her bright lustre again,
And shine in her natural charms,
'Tis but to accept of the works of my pen,
And permit me to use my own arms.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gregório de Matos

.
A Instabilidade das Cousas no Mundo - Gregório de Matos :
.
.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Oscar Wilde

.
"Loucos e Santos" - Oscar Wilde :
.
.
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Marisa de Medeiros

.
MÃE COMO TE AMO - MARISA DE MEDEIROS :
.
.
Mãe ! Obrigada por você existir
no meu coração e naquela
estrelinha a me sorrir.
.
(...) mãe, tão forte
como o mar bravio;
delicada e frágil
como uma borboleta;
é amor incondicional;
falar dos encantos teus,
Mãe, feminino de Deus !
é tão bom poder falar,
não há nada pra comparar,
mas, em cada dia meu,
lembro um conselho, um
exemplo teu; tuas mãos me
abençoavam quando com
elas inocentemente brincava,
e, o teu olhar quando brava,
encondidinha eu lia
que me amavas;
mãe ! tomada de emoção,
de coração pra coração;
mãe é mais que mãe,
é exemplo, amor e lição;
Mãe ! me pega no colo !
eu te amo e como te amo.
Mãe ! Mãe ! Mãe !

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Walter Raleigh

.
The Nymph's Reply To The Shepherd - Sir Walter Raleigh :
.
.
Resposta da Ninfa ao pastor :
.
Se o mundo e o amor fossem sempre jovens
E as palavras do pastor sempre verdadeiras
Esses lindos prazeres poderiam levar-me
A viver contigo e ser teu amor.
.
O tempo leva os rebanhos dos pastos para o aprisco
Quando os rios se enraivecem e as rochas gelam
E Filomena emudece
O tranquilo lamento de preocupações por vir.
.
As flores fenecem, e os campos viçosos
Conduzem às instáveis consequências do inverno;
Língua de mel, coração de fel
Primavera de fantasia, Outono de pesar.
 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mario de Andrade

.
O valioso tempo dos maduros - Mario de Andrade :
.
.
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Boris Pasternak

.
Boris Pasternak  :
.





A fama é reles...
 
Ter fama é reles; a escalada

ao apogeu segue outras leis.

Arquivos não servem de nada,

Não tremas sobre os teus papéis.
 

Criar é entregar-se de todo,

e não sucesso ou alarido.

É vergonhoso, sendo engodo,

virar provérbio difundido.
 

Cumpre viver, mas sem disfarce,

para atrair-se enfim o puro

amor do espaço ou escutar-se

o apelo, ao longe, do futuro.
 

Deixa as lacunas no destino,

nas obras, não. Qualquer passagem,

qualquer capítulo ou domínio

de tua vida – anota à margem.
 

Some no anonimato e esconde

teus passos como sítio oculto

por brumas muito espessas onde

não há como entrever seu vulto.
 

Outros, que irão por tua rota,

seguem teu rasto, passo a passo.

Mas não te cabe ser quem opta

entre um sucesso ou um fracasso.
 

Não rendas nunca, por motivo

algum, teu rosto, tua estrada;

prossegue vivo, apenas vivo

até o fim, vivo e mais nada.





quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Milton

.
On His Blindness - John Milton :
.
.
Sobre a sua Cegueira :
.
Quando medito em minha luz perdida,
Nesta tão vasta e mais sombria terra,
E que esse dom que só a Morte cerra
Inútil mora em mim, embora a vida

N´alma me seja ao Criador rendida
E a mais prestar-lhe a conta que não erra,
«A quem, negada a luz, a treva encerra,
Calcula Deus a quotidiana lida?»

Pergunto ansiosamente. E a Paciência
O murmurar me cala: «El´ não precisa
Dos dons de um só em cada humana esfera.

Se El´ convoca os seus fiéis, e com ardência
Que milhar´s correm para onde Ele pisa.
Também O serve aquel´ que fica e espera.»

On His Blindness - tradução de Jorge de Senain blog de José Maria Alves

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Júlio Diniz

.
«A Esmola do Pobre» - Júlio Diniz :
.
.
Nos toscos degraus da porta
Da igreja rústica e antiga,
Velha, trémula era a mendiga,
Que implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la, enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam
Á distãncia, na alameda;
Uma trajava de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas louras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.

A rica ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga, e ao regaço
Uma esmola lhe lançou;
Ela recebeu-a, e a criança
Que a socorre compassiva
Em prece fervente e viva
Aos anjos a encomendou.

Dum ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
-O prazer de dar esmolas
-A ti e aos teus não é dado
-Pobre como és,c oitado!
-Aos pobres o que hás-de dar?

Então a criança pobre,
Sem mais sombra de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E depois, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se , ajoelha
E a magra mão lhe beijou.

A mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção.
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola,
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Georges Brassens

.
La mauvaise réputation - Georges Brassens :
.
.
A má reputação
.
Nesta aldeia sem pretensão
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do rebanho.
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.
pretensão
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do rebanho.
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.












segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nei Duclós

.
Quero Um Sorriso - Nei Duclós :
.
.
Quero um sorriso
que dure uma quadra
e dobre a esquina
a iluminar-me

uma lágrima
sem consolo
que traga um soluço
de dez minutos

um corpo que aperte
com fogo de inferno
uma dor que desperte
um ruído que abra

Qualquer coisa forte
que rasgue

domingo, 25 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Friedrich Schiller

.
Hino à alegría - Friedrich Schiller :
.
.

Ode à Alegria
.
Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus!
.
Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.
.
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto dos Anjos

.
Versos Íntimos - Augusto dos Anjos :
.
.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Louis Stevenson

.
Where Go the Boats - Robert Louis Stevenson :
.
.
PARA ONDE VÃO OS BARCOS?
Escuro é o rio, dourada a areia.
Ele fui sempre e para sempre.
Barcos meus navegando: onde será a sua casa?
O rio corre deixando o moinho para trás.
 Rio abaixo, a cem milhas ou mais,
outras crianças hão-de ancorar os meus barcos.
.
( Excerto de um poema de Robert Louis Stevenson)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nuno Júdice

.
Um amor - Nuno Júdice :
.
.
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.