quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Júlio Diniz

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«A Esmola do Pobre» - Júlio Diniz :
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Nos toscos degraus da porta
Da igreja rústica e antiga,
Velha, trémula era a mendiga,
Que implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la, enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam
Á distãncia, na alameda;
Uma trajava de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas louras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.

A rica ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga, e ao regaço
Uma esmola lhe lançou;
Ela recebeu-a, e a criança
Que a socorre compassiva
Em prece fervente e viva
Aos anjos a encomendou.

Dum ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
-O prazer de dar esmolas
-A ti e aos teus não é dado
-Pobre como és,c oitado!
-Aos pobres o que hás-de dar?

Então a criança pobre,
Sem mais sombra de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E depois, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se , ajoelha
E a magra mão lhe beijou.

A mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção.
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola,
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.

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