quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.E tudo era possível - Ruy Belo :
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Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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VIOLA QUEBRADA - Camillo de Jesus Lima :
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Da viola pra muié
É pequena a deferença.
Ancê óia, escuta e pensa.
Eu juro, esta fala é franca:
A viola tem cabelo
Nas dez corda qui ela tem.
Tale quale uma muié,
Ela tem braço também
E tem cintura e tem anca.
A viola faz chorá
E chora a hora qui qué.
Tale quale uma muié,
Derrete toda na mão
Da pessôa qui qué bem.
Só inziste duas cousa
Qui ela tem e muié não:
É qui a viola de pinho
Tem alma e tem coração…


Poesia de Camilo de Jesus Lima



Viola Quebrada

"Da viola pra muié
É pequena a deferença.
Ancê óia, escuta e pensa.
Eu juro, esta fala é franca:
A viola tem cabelo
Nas dez corda qui ela tem.
Tale quale uma muié,
Ela tem braço também
E tem cintura e tem anca.
A viola faz chorá
E chora a hora qui qué.
Tale quale uma muié,
Derrete toda na mão
Da pessôa qui qué bem.
Só inziste duas cousa
Qui ela tem e muié não:
É qui a viola de pinho
Tem alma e tem coração…

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Psalm of Life - Henry Longfellow :
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Um Salmo à Vida
Não me faleis, em enlutados versos,
Que um sonho vazio seja a vida!
Pois morta é a alma que adormece
E as aparências enganosas são.

Genuína, a vida! Vida, coisa séria!
O fim último o túmulo não é;
“Sois pó e ao pó retornais”,
Assertiva não condizente à alma.

Nem só de alegrias ou de tristezas
Se traçam nossos destinos
Mas de atos cumpridos a fim de que cada amanhã
Um passo melhor do que hoje seja.

Longa é a tarefa e fugaz é o Tempo,
Nosso corações, posto fortes e valentes,
Como tambores surdos ainda tocam
Marchas fúnebres a caminho do túmulo.

Que no amplo campo de batalhas do mundo
No bivaque da vida,
Não sejais gado inerte e submisso!
Um herói sede na luta!

Ainda que promissor, no Futuro não confieis!
Deixai que o Passado morto os que se foram sepulte!
Agi – no Presente em vida, agi!
Com o coração aberto e com Deus no Alto!

Recordar nos fazem todos os grandes homens
Que podemos tornar sublimes nossas vidas;
E, na despedida, deixar devemos
Nas areias do tempo nossas marcas –

Marcas que, quiçá, um outro ser,
Da vida velejando sobre o mar solene,
Um irmão, náufrago à deriva,
Avistando-as, a esperança há de reaver.

Em alerta e em ação permaneçamos sempre.
Com o coração a qualquer situação pronto
Alcançar procurando, perseguindo sempre,
A lutar e a esperar aprendei.
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(Tradução de Cunha e Silva Filho)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.O Homem e a Mulher - Victor Hugo  :
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O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono.
Para a mulher, um altar.
O trono exalta.
O altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.
A luz fecunda.
O Amor ressuscita.
O homem é forte pela razão.
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence.
As lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos.
A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece.
O martírio sublima.
O homem tem a supremacia.
A mulher, a preferência.
A supremacia significa a força.
A preferência representa o direito.
O homem é um gênio; a mulher, um anjo.
O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.
Contempla-se o infinito.
Admira-se o inefável.
A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória faz tudo grande.
A virtude faz tudo divino.
O homem é um código.
A mulher, um evangelho.
O código corrige.
O evangelho aperfeiçoa.
O homem pensa.
A mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano.
A mulher um lago.
O oceano tem a pérola que adorna.
O lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa.
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.
O homem é um templo.
A mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos.
Ante o sacrário nos ajoelhamos.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.
E a mulher onde começa o céu.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Manias - Cesario Verde :
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O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
Eu sei um bom rapaz, -hoje uma ossada-,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
Aos domingos a deia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Ode a um rouxinol - John Keats :
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Meu peito dói; um sono insano sobre mim
Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
É do excesso de ser que aspiro em tua paz –
Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
Do harmonioso recorte
Das verdes árvores e sombras estivais,
Lanças ao ar a tua dádiva sonora.
Ah! um gole de vinho refrescado longamente
Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
Com bolhas de rubis à beira rebordada

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Digo que a lua é mulher - José Afonso :
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Digo que a lua é mulher,
porque muda quando quer,
muda de forma e de cor...
Do que digo, pois faz prova,
essa lua, a «lua nova»,
«lua das noites de amor»!...

Digo que a lua é mulher,
faça ela o que fizer,
já não muda a minha ideia!...
- Viro a esquina, sigo em frente,
mas ela em «quarto crescente»,
se insinua e "pavoneia"...

Digo que a lua é mulher,
pois nada muda sequer,
nesse seu «quarto minguante»!...
Porque enfim, haja o que houver,
sobre uma rua qualquer,
está sempre a lua brilhante!

Digo que a lua é mulher,
porque muda quando quer,
muda de forma e de cor...
Porque ela à noite, ao serão,
penetra em meu coração,
faz de mim um sonhador!...

Digo que a lua é mulher,
faça ela o que fizer,
já não muda a minha ideia...
- Sendo assim não é errado,
que me sinta deslumbrado,
ao olhar a «lua cheia»!

- Mais logo, por sorte a minha,
sei que a lua está sozinha,
vou tentar falar com ela...
Que a lua sai à noitinha,
com uma «saia curtinha»,
com uma «saia amarela»!...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Paisagem - David Mourão-Ferreira :
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Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Massemba - José Carlos Capinan :
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Que noite mais funda calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga
Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro
É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito
Káwo-kabiesile-káwo
Okê-arô-okê

Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
Do ventre escuro de um porão
Vou baixar no seu terreiro
Êpa raio, machado e trovão
Êpa justiça de guerreiro

Ê semba ê ê samba ah
O batuque das ondas
Nas noites mais longas
Me ensinou a cantar

Ê semba ê ê samba ah
Dor é o lugar mais fundo
É o umbigo do mundo
É o fundo do mar
Ê semba ê ê samba ah
No balanço das ondas okê arô
Me ensinou a bater seu tambor
Ê semba ê ê samba ah
No escuro porão eu vi o clarão
Do giro do mundo

Que noite mais funda calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga
Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro
É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito
Káwo-kabiesile-káwo
Okê-arô-okê

Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
Do ventre escuro de um porão
Vou baixar no seu terreiro
Êpa raio, machado e trovão
Êpa justiça de guerreiro

Ê semba ê ê samba ah
Ê céu que cobriu nas noites de frio
Minha solidão

Ê semba ê ê samba ah
É oceano sem fim, sem amor, sem irmão
Ê káwo quero ser seu tambor

Ê semba ê ê samba ah
Eu faço a lua brilhar o esplendor e clarão
Luar de Luanda em meu coração

Umbigo da cor, abrigo da dor,
A primeira umbigada é massemba yayá
Yayá massemba é o samba que dá

Ô aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Vou aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
... "Prender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Vou aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Que noite mais funda calunga...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.A Concha -Vitorino Nemésio :
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A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poema sobre a recusa -  Maria Teresa Horta :
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Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Deixa-me ! - Fagundes Varela :
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Quando cansado da vigília insana
Declino a fronte num dormir profundo,
Por que teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?

Por que teu vulto se levanta airoso,
Tremente em ânsias de volúpia infinda?
E as formas nuas, e ofegante o seio,
No meu retiro vens tentar-me ainda?

Por que me falas de venturas longas,
Por que me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes à fogueira extinta,
Doces perfumes a polutas flores?

Não basta ainda essa existência escura,
Página treda que a teus pés compus?
Nem essas fundas, perenais angústias,
Dias sem crenças e serões sem luz?

Não basta o quadro de meus verdes anos
Manchado e roto, abandonado ao pó?
Nem este exílio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?

Ah! não me lembres do passado as cenas,
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? a quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo?

A quantos outros, inda os lábios quentes
De ardentes beijos que eu te dera então,
Não apertaste no vazio seio
Entre promessas de eternal paixão?

Oh! fui um doudo que segui teus passos,
Que dei-te em versos de beleza a palma;
Mas tudo foi-se, e esse passado negro
Por que sem pena me despertas n'alma?

Deixa-me agora repousar tranqüilo,
Deixa-me agora dormitar em paz,
E com teus risos de infernal encanto
Em meu retiro não me tentes mais!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Fecundou-te - Eugénio de Andrade:
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Fecundou-te a vida nos pinhais.
Fecundou-te de seiva e de calor.
Alargou-te o corpo como os areais
onde o mar se espraia sem contorno e cor.

Pôs-te sonho onde havia apenas
silêncio de rosas por abrir,
e um jeito nas mãos morenas
de quem sabe que o fruto há-de surgir.

Brotou água onde tudo era secura.
Paz onde morava a solidão.
E a certeza de que a sepultura
é uma cova onde não cabe a coração.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Ana II - António Lobo Antunes :
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O mar não é tão fundo que me tire a vida
Nem há tão larga rua que me leve a morte
Sabe-me a boca ao sal da despedida
Meu lenço de gaivota ao vento norte
Meus lábios de água, meu limão de amor
Meu corpo de pinhal à ventania
Meu cedro à lua, minha acácia em flor
Minha laranja a arder na noite fria

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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http://youtu.be/3jHMaxBnmIE
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O CANTO QUE ME ENSINASTE
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O CANTO que me ensinaste foi virgem e livre:
todas as águas balançaram nelle,
todos os ventos murmuraram nelle,
todos os perfumes se impregnaram nelle.

Foi como um vôo,
foi como um vôo longo, longo,
um vôo todo verde n teu sol todo de ouro, no eu ar todo azul<
o canto virgem, o canto livre que me ensinaste.
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Ronald de Carvalho

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Elegia - Augusto de Campos :
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Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.
Eu sou um que sabe.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poema da Rosa - Bertold Brecht :
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Há uma rosa linda no meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu, quem cuidará de mim?
De manhã desabrochou, a tarde foi escolhida
pra de noite ser levada de presente à minha amiga

Feliz de quem possui uma rosa em seu jardim
A minha amiga com certeza pensa agora só em mim
Quando sopra o vento frio e o inverno gela o jardim
Eu tenho calor em casa e fico quietinho assim

Feliz de quem tem o seu teto pra ajudar a sua amiga
a fugir do vento ruim que deixa gelado o jardim.

(Tradução: Augusto Boal)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Puntos suspensivos - Joaquin Sabina :
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Lo peor del amor, cuando termina,
son las habitaciones ventiladas,
el solo de pijamas con sordina,
la adrenalina en camas separadas.
Lo malo del después son los despojos
que embalsaman los pájaros del sueño,
los teléfonos que hablan con los ojos,
el sístole sin diástole ni dueño.
Lo más ingrato es encalar la casa,
remendar las virtudes veniales,
condenar a galeras los archivos.
Lo atroz de la pasión es cuando pasa,
cuando, al punto final de los finales,
no le siguen dos puntos suspensivos

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Canção de amor da jovem louca - Sylvia Plath :
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Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem qu lhe faria

.The Flower - Aleksandr Sergeevich Pushkin :
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A FLOR (Trad., André)

Vejo uma flor seca, sem ar
Cá esquecida em um caderno,
E meu espírito prosterno
Num esquisito meditar:
Floriu quando? Onde? Em que estaçāo?
E postergou-se? E é estranha
Ou amiga a māo que a apanha?
E a pôs aqui por que razāo?
Pra recordar um encontro amável
Ou uma separaçāo funesta,
Ou um passeio solitário
Num sítio, à sombra da floresta?
E ele está vivo, ela também?
E a que refúgio se retêm?
Ou eles ambos já mirraram
Como esta flor que aqui deixaram?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Le petit cheval blanc - Paul Fort :

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Le petit cheval dans le mauvais temps, qu'il avait donc du courage !
C'était un petit cheval blanc, tous derrière et lui devant.

Il n'y avait jamais de beau temps dans ce pauvre paysage.
Il n'y avait jamais de printemps, ni derrière ni devant.

Mais toujours il était content, menant les gars du village,
A travers la pluie noire des champs, tous derrière et lui devant.

Sa voiture allait poursuivant sa belle petite queue sauvage.
C'est alors qu'il était content, eux derrière et lui devant.

Mais un jour, dans le mauvais temps, un jour qu'il était si sage,
Il est mort par un éclair blanc, tous derrière et lui devant.

Il est mort sans voir le beau temps, qu'il avait donc du courage !
Il est mort sans voir le printemps ni derrière ni devant.

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Mísia - "Canção de Alcipe" :
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Às Musas
 
Co'a frauta agreste os beiços compremindo,
Desde que alva a manhã se despertava,
Ante Febo submissa me prostrava,
O sublime furor ao Deus pedindo.
 
Iam-se os Céus co'a clara luz abrindo,
Morfeu ao mundo alegre costas dava,
E Délio, sem mostrar que m'escutava
A rápida carreira prosseguindo.
 
Sobre a tripode em vão triste me sento,
Corro os três tetracordes sobre a lira,
Nenhum iguala a voz do meu tormento.
 
Musas cruéis, se aquele que delira
Mil vezes em vós acha acolhimento,
Porque não confortais a quem suspira?
.
Marquesa de Alorna (Alcipe)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Cantilena - Sebastiao da Gama :
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Cortaram as asas ao rouxinol !
Rouxinol sem asas não pode voar. 
  Quebraram-te o bico, rouxinol !
Rouxinol sem bico não pode cantar.
Que ao menos a Noite ninguém, rouxinol !
ta queira roubar.
 Rouxinol sem Noite não pode viver...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Canto do nosso amor sem fronteira - José Craveirinha :
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Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Thanksgiving Prayer - William S Burroughs :
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dia de ação de graças (28 de novembro de 1986)
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agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.
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(tradução de leo gonçalves)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Le chat et l'oiseau - Jacques Prévert  :
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O Gato e o Pássaro
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Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poema no romance "A PORTRAIT OF A ARTIST AS A YOUNG MAN" - JAMES JOYCE :
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poema de James Joyce


Não te cansaste do ardor trilhado,
Fulgor do decaído serafim?
Não lembre os dias encantados!

Teu olhar tem meu coração queimado
E tens até sua vontade enfim.
Não te cansaste do ardor trilhado?

Acima das chamas louvores elevados
Ao longo dos oceanos assim.
Não lembre os dias encantados!

Nosso rompido pranto angustiado
Sobe tal um hino – sem fim.
Não te cansaste do ardor trilhado?

Quando em sacrifícios mãos elevadas
O cálice transborda sobre mim.
Não lembre os dias encantados.

E ainda fixamente tens olhado
Com gestos lânguidos para mim!
Não te cansaste do ardor trilhado?
Não lembre os dias encantados.


Trad.by leonardo de magalhaens
Are you not weary of ardent ways,
lure of the fallen seraphim?
Tell no more of enchanted days.

Your eyes have set man's heart ablaze
And you have had your will of him.
Are you not weary of ardent ways?

Above the flame the smoke of praise
Goes up from ocean rim to rim.
Tell no more of enchanted days.

Our broken cries and mournful lays
Rise in one eucharistic hymn.
Are you not weary of ardent ways?

While sacrificing hands upraise
The chalice flowing to the brim,
Tell no more of enchanted days.

And still you hold our longing gaze
With languorous look and lavish limb!
Are you not weary of ardent ways?
Tell no more of enchanted days.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Chamar A Música - Rosa Lobato Faria :
.
.
Esta noite vou ficar assim
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim
Vou chamar a música
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só p'ra nós

Esta noite vou beber licor
Como um filtro redentor
De amor, amor, amor
Vou chamar a música
Vou pegar na tua mão
Vou compor uma canção

Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música

Esta noite não quero a TV
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê
Vou chamar a música
Murmurar um madrigal
Inventar um ritual

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim

Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Pedro Só - Fernando Assis Pacheco :
.
.
Passaram anos e anos
sobre esta roda da vida,
farinha que foi moída,
vai-se a ver, são desenganos

Atou-me a sorte este nó,
cobriu-me com estes panos.
Ao peso dos meus enganos
sai a farinha da mó.

Na palma da mão estendida
leio um caminho de pó
lembranças do homem só
São as andanças da vida

Foram dias, foram anos,
foi uma sorte moída,
vida que tenho vivida,
(vai-se a ver são desenganos)

Foram dias, foram anos,
for a sorte apodrecida.
Dentro da roda da vida
sinto roer os fusanos

Lembranças da minha vida
perdem-se em nuvens de pó.
Bem me chamam Pedro Só.
(nome de roda partida)