. VALSA DA DESPEDIDA(Farwell Waltz) - Robert Burns :
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Adeus, amor, eu vou partir Ouço ao longe um clarim Mas, onde eu for, irei sentir Os teus passos junto a mim Estando em luta, estando a sós Ouvirei a tua voz
A luz que brilha em teu olhar A certeza me deu De que ninguém pode afastar O meu coração do teu No céu, na terra, aonde for Viverá o nosso amor
. Não como o gigante bronzeado de grega fama, Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama É o relâmpago aprisionado e seu nome Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas. "Mantenham antigas terras sua pompa histórica!" grita ela Com lábios silenciosos "Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade O miserável refugo das suas costas apinhadas. Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades, Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.
Tarde caindo — Um suave lamento soa nos pios dos pássaros que convoquei.
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Muros cinzentos desmoronam. Minhas próprias mãos encontram-se novamente.
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O que amei não posso manter. O que me cerca não posso deixar.
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Tudo declina enquanto cresce a escuridão. Não me domina — deve ser o curso da vida.
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- Só esta liberdade nos concedem os Deuses - Ricardo Reis (Heterónimo de Fernando Pessoa) : .
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Só esta liberdade nos concedem Os deuses: submetermo-nos Ao seu domínio por vontade nossa. Mais vale assim fazermos Porque só na ilusão da liberdade A liberdade existe.
Nem outro jeito os deuses, sobre quem O eterno fado pesa, Usam para seu calmo e possuído Convencimento antigo De que é divina e livre a sua vida.
Nós, imitando os deuses, Tão pouco livres como eles no Olimpo, Como quem pela areia Ergue castelos para encher os olhos, Ergamos nossa vida E os deuses saberão agradecer-nos O sermos tão como eles.
Sou esse menino desagradável, sem dúvida inoportuno, de cara redonda e suja, que fica nos faróis, onde as grandes damas tão bem iluminadas, ou onde as meninas que parecem levitar, projetam o insulto de suas caras redondas e sujas.
Sou uma criança solitária, que o insulta como uma criança solitária, e o avisa: se por hipocrisia você tocar na minha cabeça, aproveitarei a chance para roubar-lhe a carteira.
Sou aquela criança de sempre, que provoca terror, por iminente lepra, iminentes pulgas, ofensas, demônios e crime iminente.
Sou aquela criança repugnante, que improvisa uma cama de papelão E espera, na certeza, que você me acompanhará.
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Monólogo del ladrón de sueños - Jacinto Benavente :
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La noche es mi reino, y en la noche las almas, al sumergirse en el profundo mar del sueño, entre sus sombras, exploran la verdad de su vida, como los submarinos al sumergirse bajo las aguas turbulentas observan más seguros la ruta de los barcos sobre ellas navegantes. Y en este reino de la noche, poblado de almas en letargo, soy el Ladrón de los Sueños, minador de luz, captador de verdades, tesoros que los hombres, más cobardes que avaros, ocultan y guardan hasta de sí mismos, sin pararse a contarlos, sin querer saber sobre ellos, aunque yo los muestre a sus ojos, más cerrados despiertos que dormidos. Como en las noches de la ciudad, de calle en calle va el farolero rasgando la oscuridad con pinchazos de luz, así yo por la ciudad de los sueños rasgo de claridad las almas que, a la luz de sus sueños, pudieran conocerse y saber de sí mismas si al despertar no fuera para ellas caer en sueño más profundo: el de no querer saber nunca la verdad de su vida. Hoy se ha entrado la ciencia por mis dominios con gran aparato investigador; mas, como siempre, antes que los hombres de ciencia supieron los poetas las verdades del misterioso abismo de mi reino. Como los cuerpos, para su descanso, se desnudan de vestiduras al acostarse, también al dormir para soñar se desnudan las almas, y si pudieran así hablar y entenderse unas con otras, nadie se engañaría en la vida. Una mujer y un hombre van a hablarse así ahora, sin saber ellos mismos que hablan ellos, desnudas sus almas en la desnuda verdad de sus deseos. Al despertar lo habrán olvidado todo; volverán al engaño, a la mentira, entre sospechas y traiciones, entre miedos y sombras. Animador de luz, captador de verdades, la noche es mi reino; soy el Ladrón de los Sueños.
Este inferno de amar – como eu amo! Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é vida – e que a vida destrói. Como é que se veio atear, Quando – ai se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez… foi um sonho. Em que a paz tão serena a dormi! Oh! Que doce era aquele olhar… Quem me veio, ai de mim! Despertar?
Só me lembra que um dia formoso Eu passei… Dava o Sol tanta luz! E os meus olhos que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? Eu que fiz? Não o sei; Mas nessa hora a viver comecei… Por instinto se revela, Eu no teu seio divino Vim cumprir o meu destino... Vim, que em ti só sei viver, Só por ti posso morrer.
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Elegia ao Companheiro Morto - Mário Dionísio :
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Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa risonha da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã Agora que sabia olhar os homens com força e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite meu companheiro ficou deitado para sempre e com a boca cerrada para sempre e com os olhos fechados para sempre e com as mãos cruzadas para sempre imóvel e calado para sempre
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Eu fui para a floresta porque queria viver deliberadamente! Eu queria viver profundamente e sugar toda a essência da vida. Queria acabar com tudo que não fosse vida Para que quando chegasse a minha morte, Eu não descobrisse que não vivi ...
Eu triste sou calada Eu brava sou estúpida Eu lúcida sou chata Eu gata sou esperta Eu cega sou vidente Eu carente sou insana Eu malandra sou fresca Eu seca sou vazia Eu fria sou distante Eu quente sou oleosa Eu prosa sou tantas Eu santa sou gelada Eu salgada sou crua Eu pura sou tentada Eu sentada sou alta Eu jovem sou donzela Eu bela sou fútil Eu útil sou boa Eu à toa sou tua.
Lua cheia que me enfeitiça Me deixa a flor da pele Me ouriça, me atiça Me queima por dentro e a pele fere. Deixa-me cheia Repleta Deixa-me outra Que não fica quieta. Acorda minha cigana Desperta minha fera Me tira da cama Floresce minha primavera. Lua cheia sagrada Cheia lua, safada Me põe amada Me deixa faminta Me faz alucinada E quer que eu minta. Por quatro luas resisti Prendi minhas feras Respirei fundo Me omiti. Nessa lua soltei a mim Soltei os cabelos Soltei o vestido Soltei o riso Saltei do céu Desfrutei o paraíso Arranquei o véu. Me atirei aos leões Às sensações Tirei do peito desejos profundos De minh’alma inquieta De outros mundos De outros eus. Ah, lua intensa Qual é minha sentença Por simplesmente ser assim Fiel a minha natureza?
Com mãos se faz a paz se faz a guerra. Com mãos tudo se faz e se desfaz. Com mãos se faz o poema – e são de terra. Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra. Não são de pedras estas casas, mas de mãos. E estão no fruto e na palavra as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas as mãos que vês nas coisas transformadas. Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas: nas tuas mãos começa a liberdade.
Eu amo as flores Que mudamente Paixões explicam Que o peito sente. Amo a saudade, O amor-perfeito; Mas o suspiro Trago no peito. A forma esbelta Termina em ponta, Como lança Que ao céu remonta. Assim, minha alma, Suspiros geras, Que ferir podem As mesmas feras. É sempre triste, Ensanguentado, Quer seco morra, Quer brilhe em prado. Tais meus suspiros... Mas não prossigas, Ninguém se move, Por mais que digas.
Dezembro, noite, canta o galo... Rouco na treva canta o galo... Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo, Miséria negra, vai chamá-lo!... – Oh, dor! oh, dor! – Bate-lhe à porta, é teu vassalo, Que traga a enxada, é teu vassalo, Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrela d'alvorada... Vem morta a estrela d'alvorada – Montanhas nuas sob a geada!... Hirtas, de bronze, sob a geada!... – Oh, dor! oh, dor! – Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada, Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia... Cavou, cavou... Bateu meio-dia... De pé na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, – Oh, dor! oh, dor! – Largando a enxada, «Ave-Maria!...» Reza em silêncio... «Ave-Maria!...» Fantasma negro, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo? Gerou seis bocas... que é do trigo? Bateu a Fome ao seu postigo... Bateu a Morte ao seu postigo... – Oh, dor! oh, dor! – «Que a paz de Deus seja comigo!... Que a paz de Deus seja comigo!...» Disse, expirando, o cavador!
. É da torre mais alta do meu pranto que eu
canto este meu sangue este meu povo. Dessa torre maior em que apenas sou
grande por me cantar de novo.
Cantar como quem despe a ganga da
tristeza e põe a nu a espádua da saudade chama que nasce e cresce e morre
acesa em plena liberdade.
É da voz do meu povo uma criança seminua
nas docas de Lisboa que eu ganho a minha voz caldo verde sem
esperança laranja de humildade amarga lança até que a voz me
doa.
Mas nunca se dói só quem a cantar magoa dói-me o Tejo vazio
dói-me a miséria apunhalada na garganta. Dói-me o sangue vencido a nódoa
negra punhada no meu canto.
Mãe... São três letras apenas As desse nome bendito: Também o Céu tem três letras E nelas cabe o infinito. Para louvar nossa mãe, Todo o bem que se disser Nunca há de ser tão grande Como o bem que ela nos quer. Palavra tão pequenina, Bem sabem os lábios meus Que és do tamanho do Céu E apenas menor que Deus!
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"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."
Barquito de papel, sin nombre, sin patrón y sin bandera, navegando sin timón donde la corriente quiera.
Aventurero audaz, jinete de papel cuadriculado, que mi mano sin pasado sentó a lomos de un canal.
Cuando el canal era un río, cuando el estanque era el mar, y navegar era jugar con el viento, era una sonrisa a tiempo, fugándose feliz de país en país, entre la escuela y mi casa, después el tiempo pasa y te olvidas de aquel barquito de papel.
Barquito de papel, en qué extraño arenal han varado tu sonrisa y mi pasado, vestidos de colegial.
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de frangância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água."