sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Raul Seixas

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Coração Noturno - Raul Seixas :
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Amanhece, amanhece, amanhece,
amanhece, amanhece o dia
Um leve toque de poesia
Com a certeza que a luz
que se derrama
nos traga um pouco, um pouco, um pouco de alegria !
A frieza do relógio
não compete com a quentura do meu coração
Coração que bate 4 por 4
sem lógica, sem lógica e sem nenhuma razão
Bom dia sol !!!
Bom dia, dia !
Olha a fonte, olha os montes
Horizonte
Olha a luz que enxovalha e guia
A Lua se oferece ao dia
E eu, E eu guardo cada pedacinho de mim
prá mim mesmo
Rindo louco, louco, mais louco de euforia
Bom dia sol !!!
Bom dia, dia !
Eu e o coração
Companheiros de absurdos no noturno
no soturno
No entanto, entretanto
e portanto ...
Bom dia sol !!!
Bom dia, sol !

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Dorothy Parker

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One Perfect Rose - Dorothy Parker :
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Só me deu uma flor desde que me encontrou,
Assim pura e tão fiel, orvalhada e cheirosa,
Que mensageira terna e feliz ele achou:
Uma perfeita rosa.

Da linguagem da flor descobri o segredo:
“trago o seu coração na corola mimosa”!
De há muito o amor tomou para seu amuleto
Uma perfeita rosa.

Nunca ainda ninguém pensou em me oferecer
Um perfeito automóvel... pois, teimosa,
Foi sempre sina minha apenas receber
Uma perfeita rosa.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bento Prado Jr

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Bento Prado Jr. :
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Coração de pedra
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Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
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a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
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É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
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Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Ernest Henley

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Invictus - William Ernest Henley :
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Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Invictus

Desta noite que me cobre
Negra como um poço de borda a borda
Eu Agradeço a quaisquer deuses que hajam
Por minha alma inconquistável

Na cruel garra da circunstância
Eu não recuei nem gritei
Sob os golpes da sorte
Minha cabeça está ensanguentada mas não curvada

Além deste lugar de fúria e lágrimas
Surge apenas o horror da sombra
E ainda com a ameaça dos anos
Encontra, e há de encontrar-me, sem temor

Não importa quão estreito o portão
Quão carregado de punições o pergaminho
Eu sou o mestre me meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cora Coralina

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Saber Viver - Cora Coralina :
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Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

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Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

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E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

domingo, 26 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria -

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Salvatore Quasimodo :
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BASTA UM DIA PARA
EQUILIBRAR O MUNDO
A inteligência a morte o sonho
negam a esperança. Nesta noite
em Brasov, nos Cárpatos, entre árvores
não minhas, busco no tempo
uma mulher de amor. O mormaço estala
as folhas dos álamos e eu
me digo palavras que não conheço,
derramo terras de memória.
Um jazz escuro, canções italianas
passam tombadas sobre a cor das íris.
No rangido das fontes
se perdeu tua voz:
basta um dia para equilibrar o mundo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Joaquim Pessoa

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Chamar-te meu amor - Joaquim Pessoa :
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Dizer que tudo em ti é movimento
e que há corças nas selvas em redor
do amor que às vezes faço em pensamento
ou do que eu penso quando faço amor.
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Dizer que em tudo escuto a tua voz
no mar no vento na boca das searas
o maior amor do mundo somos nós
cobrindo a solidão de pedras raras.
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Dizer tudo o que eu digo nunca basta
pois para ti não chegam as palavras
meu amor é uma expressão que já está gasta
mas tem sempre um aroma de ervas bravas.
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É por ti tudo o que faço e digo e chamo
por ti eu tudo invento e tudo esqueço
dou tudo o que há em mim quando te amo
mas nem sei meu amor se te conheço.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mahmud Darwish

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Mahmud Darwish :
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ELE É CALMO, E EU TAMBÉM

Ele é calmo,
E eu também.
Ele bebe chá de limão,
e eu bebo café.
(esta é a única coisa diferente entre nós)
Ele, como eu, usa uma camisa folgada básica
E eu olho, como ele, para uma revista mensal.
Ele não me vê enquanto eu o olho discretamente;
Eu não o vejo enquanto ele me olha discretamente.
Ele é calmo,
E eu também.
Ele pede algo ao garçom;
Eu peço algo ao garçom.
Um gato preto passa entre nós,
E eu toco sua noite de pêlos;
Ele toca sua noite de pêlos.
Eu não digo a ele: o céu está claro hoje,
mais azul;
Ele não me diz: o céu está claro hoje.
Ele é o visto e o que vê;
Eu sou o visto e o que vê.
Eu movo minha perna esquerda;
Ele move sua perna direita;
Eu balbucio a melodia de uma canção;
Ele balbucia a melodia de uma canção.
Eu penso: Ele é o espelho onde eu me vejo?
Então eu olho direto em seus olhos, e eu não o vejo.
Eu deixo o Café com pressa,
Eu penso: talvez ele seja um assassino,
ou talvez ele é apenas um homem passando
e eu sou um assassino.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Blanca Varela

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Blanca Varela  :
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Ninguém nos diz como...

Ninguém nos diz como
virar a cara para a parede
e
morrermos singelamente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que caminhou em prol de sua agonia
como quem vai
a uma impostergável cerimônia
batendo orelhas
ao compasso
do cadencioso resfôlego
de sua tromba
só lá no reino animal
há exemplares de tal
comportamento
mudar o passo
aproximar-se
e farejar o já vivido
e dar a volta
singelamente
dar a volta

Tradução Adriandos Delima

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Garcia Lorca

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LA CASADA INFIEL - GARCIA LORCA :
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A Casada Infiel
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Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampiões se apagaram
e acenderam-se os grilos.
Nas derradeiras esquinas
toquei seus peitos dormidos
e pra mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava no meu ouvido,
como uma peça de seda
lacerada por dez facas.
Sem luz de prata nas copas
as árvores têm crescido,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinheiros,
por debaixo da folhagem
fiz um fojo sobre o limo.
Minha gravata tirei.
Tirou ela seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais ao luar
resplandecem com tal brilho.
Suas coxas me fugiam
como peixes surpreendidos,
metade cheia de lume,
metade cheia de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Dizer não quero, homem sendo,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
trouxe-a comigo do rio.
A aragem travava luta
com as espadas dos lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Uma cesta de costura
dei-lhe de raso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo ela marido
me disse que era donzela
quando a levava eu ao rio.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rabindranath Tagore

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Amor Pacifico e Fecundo - Rabindranath Tagore :
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Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.

Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.

Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rosario Castellanos

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Amanhecer - Rosario Castellanos :
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Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?

Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.

Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
De homem de outra margem.

Porque o que sucede não é verdade.
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Trad. José Bento

domingo, 19 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Percy Bysshe Shelley

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Love's Philosophy - Percy Bysshe Shelley :
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A FILOSOFIA DO AMOR

Correm as fontes ao rio
os rios correm ao mar
num enlace fugidio
prendem-se as brisas no ar…
Nada no mundo é sozinho:
por sublime lei do Céu,
tudo frui outro carinho…
Não hei-de alcançá-lo eu?

Olha os montes adorando
o vasto azul, olha as vagas
uma a outra se osculando
todas abraçando as fragas…
Vivos, rútilos desejos,
no sol ardente os verás:
-Que me fazem tantos beijos,
se tu a mim mos não dás?

Trad. : Luiz Cardim

sábado, 18 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Bandeira

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Desencanto - MANUEL BANDEIRA :
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Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Lezama Lima

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Ah, que tú escapes - José Lezama Lima :
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Ah! Que tu escapes
Ah, minha amiga, que tu que escapes no instante
em que hajas atingido a tua melhor definição.
Ah, minha amiga, que tu não queiras crer
nas perguntas que nesta estrela recém-cortada,
que vai molhando suas pontas em outra estrela inimiga.

Ah, se pudesse ser verdade que na hora do banho,
quando numa mesma água discursiva
banha-se a imóvel paisagem e os animais mais finos:
antílopes, cobras de passos breves, de passos evaporados
parecem entre sonhos, sem ânsias levantar
os mais extensos cabelos e água mais lembrada.
Ah, minha amiga, se o puro mármore dos adeuses
houvesses deixado a estátua que pudéssemos acompanhar,
pois, o vento, o vento gracioso
se estende como um gato para deixar-se definir

 



 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Lorenzo Varela

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A Rui Xordo - Lorenzo Varela :
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Aramos sobre os mortos nesta terra
i o noso pan ten un sabor de ósos
familiares, irmáns. O monte berra
baixo do arado, e chámannos os nosos,

desde a morte con voces conocidas:
«Nin marqueses, nin cregos, nin doutores
fixeron as ribeiras verdecidas,
nin o guerreiro coiro dos tambores.

Os condados do polvo son dos mortos
e quen queira ser dono desta terra
que veña navegando aos nosos portos.

Os que pidan o fruto sin labores,
si non morren de seu, morran de guerra,
e desta terra, así, serán señores».

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Pedro Chagas Freitas

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Pedro Chagas Freitas :
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Espasmos d’Alma
Excerto:
e quero a fome se deixares de comer,
o negro se deixares de ver –
preferir nada se deixar de te ter.
no dia em que nos fomos nós,
nem a voz conseguiu falar,
nem a mão conseguiu apertar –
e até os gatos se esqueceram de miar.
no dia em que nos fomos nós,
nunca mais se desprenderam os nós,
nunca mais nos deixamos a sós –
e fomos do nosso mar vendaval e foz.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alfred Tennyson

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Lágrimas, Indolentes Lágrimas - Alfred Tennyson :
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Lágrimas, inúteis lágrimas,
Não sei o que significam,
Lágrimas vindas do fundo
De alguma aflição sublime
Emergem no coração,
E chegam até os olhos,
Vendo os alegres campos outonais
E pensando nos dias que não mais existem.

Novas qual primeiro raio
Cintilando numa vela,
Que traz aqui para cima
Os amigos do submundo,
Tristes como as derradeiras
Que fazem corar alguém
Que afunda com tudo o que amamos sob a borda;
Tão tristes, estranhos dias que não mais existem.

Tristes e estranhas como em
Sombria alba de verão
Primeiro pio de aves semilúcidas
Para ouvidos moribundos,
Quando pra olhos decadentes
Lentamente a janela desenvolve
Um quadrado de luz tênue;
Tristes, estranhos dias que não mais existem.

Diletas tal qual os beijos
Na memória após a morte,
E suaves como aqueles
Que em afeto sem fé fingem
Nos lábios que são para outros;
Profunda como é o amor,
Como é primeiro amor, e insano com toda a pena;
Ó Morte em Vida, os dias que não mais existem!

Lágrimas, inúteis lágrimas,
Não sei o que significam,
Lágrimas vindas do fundo
De alguma aflição sublime
Emergem no coração,
E chegam até os olhos,
Vendo os alegres campos outonais
E pensando nos dias que não mais existem.

Novas qual primeiro raio
Cintilando numa vela,
Que traz aqui para cima
Os amigos do submundo,
Tristes como as derradeiras
Que fazem corar alguém
Que afunda com tudo o que amamos sob a borda;
Tão tristes, estranhos dias que não mais existem.

Tristes e estranhas como em
Sombria alba de verão
Primeiro pio de aves semilúcidas
Para ouvidos moribundos,
Quando pra olhos decadentes
Lentamente a janela desenvolve
Um quadrado de luz tênue;
Tristes, estranhos dias que não mais existem.

Diletas tal qual os beijos
Na memória após a morte,
E suaves como aqueles
Que em afeto sem fé fingem
Nos lábios que são para outros;
Profunda como é o amor,
Como é primeiro amor, e insano com toda a pena;

Ó Morte em Vida, os dias que não mais existem!



Lágrimas, inúteis lágrimas,
Não sei o que significam,
Lágrimas vindas do fundo
De alguma aflição sublime
Emergem no coração,
E chegam até os olhos,
Vendo os alegres campos outonais
E pensando nos dias que não mais existem.

Novas qual primeiro raio
Cintilando numa vela,
Que traz aqui para cima
Os amigos do submundo,
Tristes como as derradeiras
Que fazem corar alguém
Que afunda com tudo o que amamos sob a borda;
Tão tristes, estranhos dias que não mais existem.

Tristes e estranhas como em
Sombria alba de verão
Primeiro pio de aves semilúcidas
Para ouvidos moribundos,
Quando pra olhos decadentes
Lentamente a janela desenvolve
Um quadrado de luz tênue;
Tristes, estranhos dias que não mais existem.

Diletas tal qual os beijos
Na memória após a morte,
E suaves como aqueles
Que em afeto sem fé fingem
Nos lábios que são para outros;
Profunda como é o amor,
Como é primeiro amor, e insano com toda a pena;

Ó Morte em Vida, os dias que não mais existem!


 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Maria Teresa Horta

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Poema sobre a recusa  - Maria Teresa Horta :
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Poema sobre a recusa ( desencontro)
.   
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago

sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva. Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda

domingo, 12 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Carl Sandburg

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- Dunes - Carl Sandburg :
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Dunas

Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
que os soldados se lancem para a frente e percam
a vida à luz do sol: que será, Bill?

sábado, 11 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mário Quintana

.O Tempo - Mário Quintana :
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A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o em que lhe faria - Samuel Taylor Coleridge

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Love - Samuel Taylor Coleridge :
.
.
Amor :
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Todos os pensamentos, todas as paixões todos os prazeres
O que quer que excite esta moldura mortal
Todos são apenas instrumentos do Amor,
E alimentam sua sagrada chama.
.
Com frequência em meus sonhos acordados
Eu revivo aquele momento feliz,
Em que me sentava na encosta do monte,
Ao lado da torre em ruínas.
.
O Luar, insinuando-se sobre o cenário,
Fundira-se às luzes da tarde;
E ela lá estava, minha esperança, minha alegria,
Minha querida Geneviéve !
.
Recostava-se ao homem de armadura,
À estátua do Cavaleiro de armadura;
Quieta escutava minha balada,
Em meio à luz fugidia...
.
Envolveu-me levemente em seus braços,
Apertou-me com um abraço frágil;
E, reclinando a cabeça, abriu os olhos
E fitou-me o rosto.
.
Era parte amor, parte medo,
E, em parte, pintura acanhada,
E eu mais sentia do que via
O bater emocionado do seu coração.
.
Acalmei-lhe os medos e ela se tranquilizou,
E falou de seu amor com orgulho virginal;
E assim ganhei Geneviéve,
Bela noiva radiante e minha.









quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mário Castrim

.Mário Castrim :
.
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Janela para o Mar :
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Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que dá para o mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrelas
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Léo Ferré

.Avec le temps (Com o tempo...) - Léo Ferré :
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Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur quand ça bat plus s'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin faut laisser faire et c'est très bien

Com o tempo
Com o tempo tudo parte

Esquecemos a cara e esquecemos a voz

Quando o coração já não bate já não vale a pena ir

Procurar mais longe é preciso deixar e é muito bom


Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
L'autre qu'on adorait qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit

Com o tempo
Com o tempo tudo parte

O outro que adorávamos que procurávamos à chuva

O outro que adivinhávamos na sombra de um olhar
Entre as palavras entre as linhas e no cansaço

De um sermão maquilhado que vai fazer a sua noite

Com o tempo tudo desvanece


Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
Même les plus chouettes souvenirs ça t'as une de ces gueules
A la Galerie Farfouille dans les rayons de la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule

Com o tempo
Com o tempo tudo parte

Mesmo as melhores recordações tens uma destas caras

No centro comercial confusão no linear da morte

Sábado à noite quando a ternura se vai embora sozinha


Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on se traînait comme traînent les chiens
Avec le temps va tout va bien

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
O outro em que acreditávamos por uma constipação por um nada
O outro a quem dávamos o vento e jóias
Por quem teríamos vendido a alma para alguns tostões
À frente de quem rastejávamos como rastejam os cães
Com o tempo tudo se resolve

Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard surtout ne prends pas froid

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
Esquecemos as paixões e esquecemos as vozes
Que nos diziam muito baixo as palavras das pobres pessoas
Não voltes muito tarde sobretudo não apanhes frio

Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
E sentimo-nos brancos com um cavalo cansado
E sentimo-nos gelados numa cama de ocasião
E sentimo-nos sós talvez mas tranquilos
E sentimo-nos roubados dos anos perdidos

Alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus...

Então verdadeiramente
Com o tempo já não amamos

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gabriel García Marquez

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13 Líneas para Vivir - Gabriel García Marquez :
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13 Linhas Para Viver

1. Gosto de você não por quem você é, mas por quem sou quando estou contigo.
2. Ninguém merece tuas lágrimas, e quem as merece não te fará chorar.
3. Só porque alguém não te ama como você quer, não significa que este alguém não te ame com todo o seu ser.
4. Um verdadeiro amigo é quem te pega pela mão e te toca o coração.
5. A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca vai poder tê-lo.
6. Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiver triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso.
7. Pode ser que você seja somente uma pessoa para o mundo, mas para uma pessoa você seja o mundo.
8. Não passe o tempo com alguém que não esteja disposto a passar o tempo contigo.
9. Quem sabe Deus queira que você conheça muita gente errada antes que conheças a pessoa certa, para que quando afinal conheça esta pessoa saibas estar agradecido.
10. Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.
11. Sempre haverá gente que te machuque, assim que o que você tem que fazer é seguir confiando e só ser mais cuidadoso em quem você confia duas vezes.
12. Converta-se em uma pessoa melhor e tenha certeza de saber quem você é antes de conhecer alguém e esperar que essa pessoa saiba quem você é.
13. Não se esforce tanto, as melhores coisas acontecem quando menos esperamos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Políbio Gomes dos Santos

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Poema da voz que escuta  - Políbio Gomes dos Santos  :
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Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não poderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não poderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

domingo, 5 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Hilda Hilst

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Hilda Hilst :
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De tanto te pensar
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.

sábado, 4 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Tristan Corbière

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Tristan Corbière :
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AVENTURA GALANTE E FORTUNA

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz- um pouco- é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida...

Um belo dia- triste ofício! -eu assim,-
Ofício!...- velejava. Ela passou por mim.
-Ela quem? -A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco,toquei-a...-porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E...estendeu a mão,
e...me deu uns tostões.

(Trad.: Antônio Siscar)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francesco Petrarca

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Poema 7 - Francesco Petrarca :
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A gula, o sono e os ócios indevidos
varreram as virtudes deste mundo:
fizeram que engolisse o Orco fundo
o que era lume em nós, há tempos idos;
estão opacos olhos já luzidos,
iluminados do que foi profundo;
é exceção, notai se me confundo,
ter hoje versos bons, não versos 'lindos'.
Pra que poetas neste nosso tempo?
Sob esta treva em que já tarda o dia,
o máximo é de vinho se molhar.
Comigo poucos vejo em outra via:
por isso sopra mui de leve o vento
que leva as naves para o largo mar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Patxi Andion

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20º Aniversário Palabras - Patxi Andion :
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PALAVRAS


Há vinte anos que estamos juntos
Esta tarde se hão cumprido,
Para ti flores, perfumes,
Para mim?...Alguns livros!

Não te disse grandes coisas
Porque não me hão saido
Já sabes coisas de velhos
Que tristeza por não haver sido!

Faz tempo que intentamos
Abonar o nosso destino
Tu baixavas a persiana,
E eu apurava o meu último vinho.

Hoje...E nesta noite tão fria
Como que ignorando o sabor
Da solidão compartida
Quiz fazer-te uma canção
Para cantar-te num bocadito
Como quando se adormece os meninos,

E como vez, só palavras sobre notas
Me hão saído!
Que iguais a tu e eu
não se importam nem se estorvam
Se suportam amistosas,
Mas não são uma canção!

Que gelada,que está esta casa
Será que está perto o rio?
Ou é que entrámos no inverno,
E que estão chegando...
Estão chegando os frios!.