George Sand ( pseudônimo de AmandineAurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant ) :
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Desprezo e Receio :
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Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afecto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza. Raça detestável! Tal preceito mantém-se praticamente inalterável no que respeita ao amor. Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.
. Figos maduros : (copiado, com a devida vénia, da Revista "O Caixote")
ai de mim com essa figueira crescendo dentro sem saber direito o momento da poda ou da colheita
ai de mim que não entendo de árvores que não com preendo direito o que elas dizem o que fa zem como agem na hora do corte e depois na transcendência das figueiras
nem sei se a casca grossa no caule leitoso com o tempo terá uma fibra impermeável
ai de mim que percorro a mansidão invisível como um galo cumprindo o ofício das manhãs
Veio uma cobra beber na minha mina Num dia quente tão quente que eu estava, Por causa do calor, só de pijama.
No odor estranho à sombra larga da escura e grande alfarrobeira Desci pelos degraus com a moringa E tive de esperar esperar porque ela havia chegado antes de mim na mina.
Por uma greta ela desceu pelo flanco do barranco sombrio E arrastando a languidez cor de terra da barriga molenga até a beira da minha mina de pedra Pousou o papo no seu fundo de pedra E ali na água que caíra em gotas da bica, numa clareza mínima. Com a boca aprumada ela se pôs a beber, Lentos goles sugou além da goela esticada para dentro do corpo comprido e lânguido, Em silêncio total.
Antes de mim alguém estava na mina E eu, sendo o segundo, estava à espera.
Ela aí fez como o gado e levantou a cabeça E me olhou de um modo vago, como faz o gado bebendo, E brandido a língua bifurcada para fora da boca meditou um momento E se curvou e bebeu de novo outro gole, Sendo como era cor de terra, terrosa e áurea por sair do intestino flamejante da terra Nesse dia siciliano de julho, com o Etna fumegando.
A voz da minha educação me ditou Que eu devia matá-la, Pois na Sicília as cobras pretas só pretas são inofensivas, mas as douradas são venenosas.
E outras vozes em mim disseram que eu, se fosse homem, Devia era pegar um pau e esmaga-la e logo acabar com ela. Mas devo confessar que gostei demais dessa cobra, Fiquei alegre de a ver como um convidado que veio beber na minha mina em sossego E que partiu apaziguado e pacífico, sem nem agradecer, Para o intestino flamejante da terra.
Foi covardia, não ter ousado matá-la? Foi perversidade, ter querido conversar com ela? Foi humildade, sentir-me assim tão honrado? Eu me senti honrado mesmo.
E no entanto aquelas vozes dizendo: Se não fosse pelo medo você a teria morto.
E de fato eu tive medo, tive um medo danado, Mas mesmo assim ainda fiquei mais honrado De ela buscar minha hospitalidade provindo Da porta escura da terra enigmática.
Ela bebeu o quanto quis E sonhadora levantou a cabeça, como alguém que bebeu, E como noite bifurcada no ar brandiu a língua tão preta, Parecendo lamber os lábios, E olhou em volta como um deus, sem ver, no ar, E devagar virou um pouco a cabeça E devagar, bem devagar, como num sonho tríplice, Começou a arrastar seu tamanho lento fazendo Curvas e escalou de regresso o carcomido barranco.
Quando ela enfiou a cabeça naquele horrendo buraco, Quando lenta se deteve, para acomodar seus ombros de cobra, e entrou mais para o fundo, Uma espécie de pavor, uma espécie de protesto por seu retraimento naquele buraco negro, Sua descida deliberada às trevas, levando atrás de si o próprio corpo, Agora que ela estava de costas dominou-me.
Olhei em volta, larguei minha moringa, Peguei um pau muito sem jeito E o joguei com estardalho na mina.
Acho que o pau não bateu nela, Mas de repente a parte sua que ficara detrás convulsionou-se em pressa indigna, Torceu-se como um raio e sumiu No buraco negro, a greta que era um lábio de terra no rosto do barranco que olhei, No meio-dia ainda intenso, possuído de certo fascínio.
E logo lamentei o que fiz. Que ato vil, pensei, vulgar e reles. Desprezei a mim mesmo como as vozes da minha maldita educação humana. E pensei no albatroz E desejei que ela viesse de volta, a minha cobra.
Porque de novo ela me pareceu que era um rei, Um rei no exílio, sem coroa e sem reinado, A ponto de ser coroado outra vez.
E foi assim que desperdicei minha chance com um dos pares reais Da vida. E é assim que tenho alguma coisa a pagar, Essa baixeza.
VITORINO NEMÉSIO - ARREPENDO-ME DE A METER NUM ROMANCE :
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O poema tem mais pressa que o romance,
Asa de fogo para te levar:
Assim, pois, se houver lama que te lance
Ao corpo quente algum, hei-de chorar.
Deus fez o poeta por que não descanse
No golfo do destino e amores no mar:
Vem um, de onda, cobri-la — e ela que dance!
Vem outro — e faz menção de me enfeitar.
Os outros a conspurcam, mas é minha!
Chicoteá-la vou com a própria espinha,
Estreitam-me de amor seus braços mornos,
Transformo seus gemidos em meus uivos
E torno anéis dos seus cabelos ruivos
Na raspa canelada dos meus cornos.
Hoy que el tiempo ya pasó, hoy que ya pasó la vida, hoy que me río si pienso, hoy que olvidé aquellos días, no sé por qué me despierto algunas noches vacías oyendo una voz que canta y que, tal vez, es la mía.
Quisiera morir –ahora– de amor, para que supieras cómo y cuánto te quería, quisiera morir, quisiera… de amor, para que supieras…
Algunas noches de paz, –si es que las hay todavía– pasando como sin mí por esas calles vacías, entre la sombra acechante y un triste olor de glicinas, escucho una voz que canta y que, tal vez, es la mía.
Quisiera morir –ahora– de amor, para que supieras cómo y cuánto te quería; quisiera morir, quisiera… de amor, para que supieras…
A UNIÃO LIVREMinha mulher com o cabelo de fogo de lenha
Com pensamentos de relâmpagos de calor
De talhe de ampulheta
Minha mulher com a talhe de lontra entre os dentes de tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo sobre a terra branca
Com língua de âmbar e de vidro em atritos
Minha mulher com língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de inacreditável pedra
Minha mulher com cílios de lápis de cor das crianças
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E de vapor nos vidros
Minha mulher com espáduas de champanhe
E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo
Minha mulher com pulsos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de ás de copas
De dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
De noite de São João
De ligustro e de ninho de carás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura do trigo e do moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de calafates que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’Ouro
De encontro no leito mesmo da torrente
Com seios de noite
Minha mulher com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de crisol de rubis
Com seios de espectro da rosa sob o orvalho
Minha mulher com ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de pássaro que foge vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de chalupa
Com ancas de lustre e de penas de flecha
E de caule de plumas de pavão branco
De balança insensível
Minha mulher com nádegas de arenito e de amianto
Minha mulher com nádegas de dorso de cisne
Minha mulher com nádegas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina de ouro e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo de algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha magnetizada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.
Tradução: Priscila Manhães e Carlos Eduardo Ortolan
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A presença mais pura - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA :
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Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»
Maria, assoma à janela: chegou por fim o momento! O teu sorriso empobrece os oiros do avarento… Até me fazia escravo a moirejar noite e dia, se como prémio tivesse a minha doce Maria! . Ontem, ao som das violas, a aldeia inteira bailava; só eu, sem ouvir nem ver, para ti, meu bem, voava… Fossem loiras ou morenas, nenhuma ali te vencia… Eu, então, só me queixava Não sois a minha Maria! . A quem por ti dera a vida, vais, Maria, enlouquecer? Ou rasgar-lhe o coração sem culpa de bem-querer? Se amor por amor não dás, pena tem desta agonia… Mal ficava ser cruel à minha doce Maria!
Quando já fores velha, e grisalha, e com sono, Pega neste livro: junto ao fogo, a cabecear, Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.
Muitos amaram-te horas de alegria e graça, Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza; Só um, amando-te a alma peregrina em ti, De teu rosto a mudar amou cada tristeza.
E curvando-te junto à grade incandescente, Murmura com amargura como o amor fugiu E caminhou montanha acima, a subir sempre, E o rosto em multidão de estrelas encobriu.
-Aprender nunca es vergonzoso para un maestro cuando las cosas a saber son útiles.
- Belleza: el ajuste de todas las partes proporcionalmente a fin de que no se pueda sumar, restar o modificar nada sin que ello afecte a la armonía del conjunto.
- Debemos tomar de la naturaleza lo que pintamos y siempre elegir las más bellas cosas.
- Cuando investigo y descubro que la fuerza de los cielos y los planetas está dentro de nosotros mismos, entonces sinceramente siento estar viviendo entre los dioses.
- Llegar a conocer a la naturaleza es empresa sumamente difícil e intrincada.
- (...) El artista en este contexto social no debe ser un simple artesano, sino un intelectual preparado en todas las disciplinas y en todos los terrenos.
- Un hombre puede hacer cualquier cosa, siempre que su voluntad lo acompañe.
- La muerte es el final inevitable, nunca inútil para los que vivieron mal y nunca nociva para los que vivieron bien.
- Yo voy a considerar arquitecto a aquel que con método y procedimiento seguro y perfecto sepa proyectar racionalmente y realizar en la práctica, mediante el desplazamiento de las cargas y la acumulación y conjunción de los cuerpos, obras que se acomoden perfectamente a las más importantes necesidades humanas. A tal fin, requiere el conocimiento y dominio de las mejores y mas altas disciplinas. Así deberá ser el arquitecto.
- Ayer es pasado, mañana no hay certezas. Vive hoy.
Fue en un pueblo con mar un verano después de un concierto tú reinabas detrás de la barra del único bar que vimos abierto, cántame una canción al oído y te pongo un cubata con una condición, que me dejes abierto el balcón de tus ojos de gata. Loco por conocer los secretos de tu dormitorio esa noche canté al piano del amanecer todo mi repertorio. Los clientes del bar, uno a uno, se fueron marchando tú saliste a cerrar, yo me dije, cuidado chavalte estás enamorando. Luego todo pasó de repente, tu dedo en mi espalda dibujó un corazón y mi mano le correspondió debajo de la falda. Caminito al hostal nos besamos en cada farola era un pueblo con mar, yo quería dormir contigo y tú no querías dormir sola.
Y nos dieron las diez y las once, las doce y la una, y las dos y las tres y desnudos al anochecer nos encontró la luna,
Nos dijimos adiós, ojalá que volvamos a vernos, el verano acabó, el otoño duró lo que tarda envolver el invierno. Y a tu pueblo el azar, otra vez, el verano siguiente me llevó y al final del concierto me puse a buscar tu cara entre la gente y no hallé quien de ti me dijera ni media palabra parecía como si me quisiera el destino gastar una broma macabra. No había nadie detrás de la barra del otro verano y en lugar de tu bar, me encontré una sucursal del banco hispanoamericano, tu memoria vengué, a pedradas contra los cristales, sé que no lo soñé, protestaba mientras me esposaban los municipales en mi declaración alegué que llevaba tres copas y empecé esta canción en le cuarto donde aquella vez te quitaba la ropa.
Estirar os braços Ao sol nalgum lugar, E até que morra o dia Dançar, pular, cantar! Depois sob uma árvore, Quando já entardeceu, Enquanto a noite vem - Negra como eu - Descansar... É o que quero!
Estirar os braços Ao sol nalgum lugar, Cantar, pular, dançar Até que a tarde caia! E dormir sob uma árvore - Este o desejo meu - Quando a noite baixar Negra como eu.
Espreitava em seus olhos uma lágrima, e em meus lábios uma frase a perdoar; falou o orgulho, o seu pranto secou, senti nos lábios essa frase expirar. Eu vou por um caminho, ela por outro; mas, ao pensar no amor que nos prendeu, digo ainda: porque me calei aquele dia? E ela dirá: porque não chorei eu?
Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse. Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria. Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse. Já. Não já. E já. Já. Exatamente como como reis. Tão totalmente tanto. Exatidão como reis. Para te suplicar tanto quanto. Exatamente ou como reis. Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado. Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque. Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal. Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal. Juízo o juiz. Como uma semelhança a ele. Quem vem primeiro. Napoleão primeiro. Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual. Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data. Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro. Presentemente. Exatamente eles vão bem. Primeiro exatamente. Exatamente eles vão bem também. Primeiro exatamente. E primeiro exatamente. Exatamente eles vão bem. E primeiro exatamente e exatamente. E eles vão bem. E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem. O primeiro exatamente. E eles vão bem. O primeiro exatamente. De primeiro exatamente. Primeiro como exatamente. De primeiro como exatamente. Presentemente. Como presentemente. Como como presentemente. Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se. Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis. Como presentemente. Como exatidão. Como trens. Tomo trens. Tomo trens. Como trens. Como trens. Presentemente. Proporções. Presentemente. Como proporções como presentemente. Pais e pois. Era rei ou rês. Pois e vez. Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez. Vez e em vez. E assim se fez. Um. Eu aterro. Dois. Aterro. Três. A terra. Três. A terra. Três. A terra. Dois. Aterro. Um. Eu aterro. Dois. Eu te erro. Como um tão. Eles não vão. Uma nota. Eles não notam. Uma bota. Eles não anotam. Eles dotam. Eles não dão. Eles como denotam. Milagres dão-se. Dão-se bem. Dão-se muito bem. Um bem. Tão bem. Como ou como presentemente. Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.
. tradução de Augusto de Campos
Deito fora as imagens. Sem ti, para que me servem as imagens?
Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento, que está em qualquer parte e cuja direcção é igualmente passageira e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos numa casa deserta, ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis, à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens. As imagens não dão felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.
Por que vergas-me a fronte sobre a terra? Diz a flor da colina ao manso vento,
. Se apenas às manhãs o doce orvalho Hei gozado um momento?
Tímida ainda, nas folhagens verdes Abro a corola à quietação das noites,
. Ergo-me bela, me rebaixas triste Com teus feros açoites!
Oh! deixa-me crescer, lançar perfumes, Vicejar das estrelas à magia,
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Que minha vida pálida se encerra No espaço de um só dia!
Mas o vento agitava sem piedade A fronte virgem da cheirosa flor, Que pouco a pouco se tingia, triste, De mórbido palor.
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Não vês, oh brisa? lacerada, murcha, Tão cedo ainda vou pendendo ao chão, E em breve tempo esfolharei já morta Sem chegar ao verão?
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Tem piedade de mim! deixa-me ao menos Desfrutar um momento de prazer, Pois que é meu fado despontar na aurora E ao crepúsc’ulo morrer!...
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Brutal amante não lhe ouviu as queixas, Nem às suas dores atenção prestou, E a flor mimosa, retraindo as pétalas, Na tige se inclinou. Surgiu na aurora, não chegou à tarde, Teve um momento de existência só! A noite veio, procurou por ela, Mas a encontrou no pó.
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Ouviste, oh virgem, a legenda triste Da flor do outeiro e seu funesto fim? Irmã das flores à mulher, às vezes Também sucede assim.
Só tenho a ti Mas tão distante Que não me ouves Chamo e pergunto Se ainda me queres Mas o teu grito de assentimento Chega cansado a meu ouvido E assim cansado Desaparece Como um lamento
Ó minha amada Bem eu quisera Que esta vontade Que se avoluma No meu pensamento Se fosse embora Se fosse embora
AS FOLHAS MORTAS .
Oh ! gostaria tanto que te lembrasses Dos dias felizes da nossa amizade, Nesse tempo, a vida era mais bela E sol mais brilhante do que hoje. As folhas mortas à pá se recolhem, Bem vês que eu não esqueci. As folhas mortas à pá se recolhem, Assim como as lembranças e as mágoas, E leva-as o vento norte Na noite fria do esquecimento. Bem vês que eu não esqueci Aquela canção que me cantavas… É uma canção connosco parecida, Tu, que me amavas, eu que te amava. Os dois juntos vivíamos Tu que me amavas, eu que te amava. Mas a vida separa aqueles que se amam, Muito devagarinho, silenciosamente E o mar apaga na areia Os passos dos amantes separados. Os dois juntos vivíamos, Tu que me amavas, eu que te amava. Mas a vida separa aqueles que se amam, Muito devagarinho, silenciosamente. E o mar apaga na areia Os passos dos amantes separados…
Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus amigos, Sepultado em minha cidade, Saudade..Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paissandu deixem meu sexo, Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam..No Pátio do Colégio afundem O meu coração paulistano: Um coração vivo e um defunto Bem juntos..Escondam no Correio o ouvido Direito, o esquerdo nos Telégrafos, Quero saber da vida alheia Sereia..O nariz guardem nos rosais, A língua no alto do Ipiranga Para cantar a liberdade. Saudade….Os olhos lá no Jaraguá Assistirão ao que há de vir, O joelho na Universidade, Saudade….As mãos atirem por aí, Que desvivam como viveram, As tripas atirem pro Diabo, Que o espírito será de Deus. Adeus.