sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - D.H. Lawrence

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Snake - D.H. Lawrence :

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Cobra: 
(Tradução de Leonardo Fróes)
Veio uma cobra beber na minha mina
Num dia quente tão quente que eu estava,
Por causa do calor, só de pijama.
No odor estranho à sombra larga da escura e grande alfarrobeira
Desci pelos degraus com a moringa
E tive de esperar esperar porque ela havia chegado
       antes de mim na mina.
Por uma greta ela desceu pelo flanco do barranco sombrio
E arrastando a languidez cor de terra da barriga molenga até a beira
        da minha mina de pedra
Pousou o papo no seu fundo de pedra
E ali na água que caíra em gotas da bica, numa clareza mínima.
Com a boca aprumada ela se pôs a beber,
Lentos goles sugou além da goela esticada para dentro do corpo
       comprido e lânguido,
Em silêncio total.
Antes de mim alguém estava na mina
E eu, sendo o segundo, estava à espera.
Ela aí fez como o gado e levantou a cabeça
E me olhou de um modo vago, como faz o gado bebendo,
E brandido a língua bifurcada para fora da boca meditou um momento
E se curvou e bebeu de novo outro gole,
Sendo como era cor de terra, terrosa e áurea por sair do intestino
        flamejante da terra
Nesse dia siciliano de julho, com o Etna fumegando.
A voz da minha educação me ditou
Que eu devia matá-la,
Pois na Sicília as cobras pretas só pretas são inofensivas, mas as douradas
      são venenosas.
E outras vozes em mim disseram que eu, se fosse homem,
Devia era pegar um pau e esmaga-la e logo acabar com ela.
Mas devo confessar que gostei demais dessa cobra,
Fiquei alegre de a ver como um convidado que veio beber na minha mina
       em sossego
E que partiu apaziguado e pacífico, sem nem agradecer,
Para o intestino flamejante da terra.
Foi covardia, não ter ousado matá-la?
Foi perversidade, ter querido conversar com ela?
Foi humildade, sentir-me assim tão honrado?
Eu me senti honrado mesmo.
E no entanto aquelas vozes dizendo:
Se não fosse pelo medo você a teria morto.
E de fato eu tive medo, tive um medo danado,
Mas mesmo assim ainda fiquei mais honrado
De ela buscar minha hospitalidade provindo
Da porta escura da terra enigmática.
Ela bebeu o quanto quis
E sonhadora levantou a cabeça, como alguém que bebeu,
E como noite bifurcada no ar brandiu a língua tão preta,
Parecendo lamber os lábios,
E olhou em volta como um deus, sem ver, no ar,
E devagar virou um pouco a cabeça
E devagar, bem devagar, como num sonho tríplice,
Começou a arrastar seu tamanho lento fazendo
Curvas e escalou de regresso o carcomido barranco.
Quando ela enfiou a cabeça naquele horrendo buraco,
Quando lenta se deteve, para acomodar seus ombros de cobra, e entrou
        mais para o fundo,
Uma espécie de pavor, uma espécie de protesto por seu retraimento
        naquele buraco negro,
Sua descida deliberada às trevas, levando atrás de si o próprio corpo,
Agora que ela estava de costas dominou-me.
Olhei em volta, larguei minha moringa,
Peguei um pau muito sem jeito
E o joguei com estardalho na mina.
Acho que o pau não bateu nela,
Mas de repente a parte sua que ficara detrás convulsionou-se
        em pressa indigna,
Torceu-se como um raio e sumiu
No buraco negro, a greta que era um lábio de terra
        no rosto do barranco que olhei,
No meio-dia ainda intenso, possuído de certo fascínio.
E logo lamentei o que fiz.
Que ato vil, pensei, vulgar e reles.
Desprezei a mim mesmo como as vozes da minha maldita
        educação humana.
E pensei no albatroz
E desejei que ela viesse de volta, a minha cobra.
Porque de novo ela me pareceu que era um rei,
Um rei no exílio, sem coroa e sem reinado,
A ponto de ser coroado outra vez.
E foi assim que desperdicei minha chance com um dos pares reais
Da vida.
E é assim que tenho alguma coisa a pagar,
Essa baixeza.


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