“Bem-aventurado aquele que se tornou sábio, que já não especula sobre o mundo e busca em si mesmo a Pedra da Sabedoria eterna. Somente o sapiente é digno de ser adepto – ele transmuta tudo em vida e ouro, sem precisar de elixires. A retorta sagrada nele exala – o rei presente nele está – Delfos também; e finalmente ele compreende : Conhece-te a ti mesmo.”
.
Quando a chave de toda a creatura
seja mais do que número e figura, e quando esses que beijam com os lábios, e os cantores, sejam mais que os sábios, e quando o mundo inteiro, intenso, vibre devolvido ao viver da vida livre, e quando luz e sombra, sempre unidas, celebrem núpcias íntimas, luzidas, quando em lendas e líricas canções escreverem a história das nações, então, a palavra misteriosa destruirá toda a essência mentirosa.”
.
(trad. de Mário Cesariny)
.
(extraído, com a devida vénia, do Blog "EvoraOculta")
Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença;Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-se junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que subia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
Oh, Vento Ocidental selvagem, exalas dos seres do outono o cheiro,
De tua presença invisível, as folhas mortas
Lançadas são tal como fantasmas fugindo de um mágico.
Multidões delas de peste acometidas !
Amarelas, pretas, pálidas e sanguíneas! Ó tu
Que, em carruagens, te transportas ao seu sombrio canteiro de inverno
As sementes aladas, nas quais jazem frias e miúdas
Cada qual como um cadáver na sua cova, até que
Tua azul-celeste irmã da Primavera toque
O seu clarim sobre a terra em sonhos, e encha de
Pressurosos suaves rebentos iguais a flores povoando o ar,
Nas planícies e colinas, com cores e odores vivos.
Espírito selvagem que por toda a parte se move;
Destruidor e preservador: escuta, oh, escuta!
2
Tu, em cuja corrente, em meio à íngreme convulsão do firmamento,
Onde, como folhas murchas da terra, nuvens dispersas se derramam
Galhos emaranhados do céu e oceano sacudiste,
Anjos da chuva e dos raios! Aí espraiados
Sobre a superfície azul de teu vagalhão etéreo
Qual brilhantes cabelos levantados
De alguma terrível Bacante, que vão da fina borda do
Horizonte às alturas do zênite,
As madeixas da tempestade que se avizinha. Nênias entoas
Ao ano que se despede, para o qual esta noite se acaba
Será a cúpula de um vasto sepulcro
Construído com todo o teu poder concentrado
De vapores, de cuja sólida atmosfera
Chuva negra, e fogo e granizo arrebentar-se-ão: Escuta!
3
Tu que de fato acordaste de seus sonhos de verão,
O azul Mediterrâneo, onde jazia,
Acalentado pelo azul espiralado de suas correntes cristalinas,
Junto a uma ilha de pedra-pome na baía Baiae,
Viste adormecidos vetustos palácios e torres
Agitando-se num dia mais intenso de ondas,
Invasão completa de musgos e flores azuis
Tão suaves que os sentidos não conseguem pintá-las! Tu
Por cujo caminho as forças do nível do Atlântico
Abrem-se em abismos, enquanto, bem no fundo,
As florações marinhas e as florestas lodosas, que destroem
A folhagem seca dos oceanos,
Se agitam e se anulam, conheces
Tua voz e súbito te tornas medroso: Escuta!
4
Ah, fosse eu uma folha morta que pudesses segurar,
Ah, fosse eu uma nuvem veloz para contigo:voar
Uma onda suspirando por sob teu poder e extirpar
O impulso da tua força, só que menos livre
Do que tu, ó incontrolável! Se pelo menos
Ainda estivesse na minha infância e pudesse ser
O companheiro de tuas andanças nos céus
Pois então, quando fosse para superar tua velocidade celeste
Mal pareceria uma visão, - Nunca teria eu feito tanto esforço
Quanto assim contigo em prece nas horas de dolorida necessidade.
Oh! ergue-me como se uma onda fosse, uma folha, uma nuvem!
Desmaio sobre os espinhos da vida! Eu sangro!
Um fardo enorme de horas acorrentou-me e me oprimiu
Alguém também como tu – rebelde, dinâmico e orgulhoso.
5
De mim fazes a tua lira, igual assim à floresta:
O que ocorreria se minhas folhas com as dela caíssem!
A desordem das tuas poderosas harmonias
Um profundo tom outonal retirarão de ambos,
Suave embora triste. Sê tu, Espírito selvagem,
Meu espírito! Fazes de ti o meu ser, impetuoso espírito!
Conduze meus pensamentos mortos através do universo,
À semelhança da folhas murchas, a fim de um novo nascimento apressar;
E, pela magia destes versos,
Difundir, como se viessem de uma lareira sempre ardente,
Cinzas e centelhas, minhas palavras à humanidade
Através de minha boca para uma terra adormecida
Sê tu, ó vento, a trombeta de uma profecia!
Com o retorno do inverno, não poderia a primavera logo sucedê-lo?
. No meu país não acontece nada à terra vai-se pela estrada em frente Novembro é quanta cor o céu consente às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal que o mais zeloso varredor municipal Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul? A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada A boca é pra comer e pra trazer fechada o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada o corpo curva ao peso de uma alma que não sente Todos temos janela para o mar voltada o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa a saudade e o transístor sob o céu azul A indústria prospera e fazem-se ao abrigo da velha lei mental pastilhas de mentol
O português paga calado cada prestação Para banhos de sol nem casa se precisa E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa e o colégio do ódio é a patriótica organização
Morre-se a ocidente como o sol à tarde Cai a sirene sob o sol a pino Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem a vida não contém contentamento E a nação faz um apelo à mãe atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer é o pescador cuspido à praia à luz do dia pois a areia cresceu e o povo em vão requer curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada que põe a pedra entre o homem e a mulher O homem vende a vida e verga sob a enxada O meu país é o que o mar não quer .
Cortaram lenha do bosque. Acenderam a pira. Sobre ela colocaram o morto.
Depois começaram as corridas de cavalos, para prestarem honras
ao digno lutador e à sua beleza. Depois da meia-noite,
os homens, extenuados das lutas, não puderam chorar.
Apenas o cavalo de Antíloco, todo negro,
todo reluzente à luz das chamas, apoiando-se
nas patas traseiras, saltou por sobre a fogueira e perdeu-se na noite.
Pelo acampamento ficou aquele cansaço maravilhoso, supremo,
como um esquecimento, como uma serenidade, — o último orgulho de um homem.
Quanto ao cavalo de Antíloco, ninguém mais o procurou.
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem.
.
Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento;como o vento confia no ar;como o ar confia no campo azul do céu.
.
Fica decretado que, a partir deste instante,haverá girassóis em todas as janelas,que os girassóis terão direitoa abrir-se dentro da sombra;e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,abertas para o verde onde cresce a esperança.
.
O homem, confiará no homemcomo um menino confia em outro menino.
.
Decreta-se que nada será obrigadonem proibido,tudo será permitido,inclusive brincar com os rinocerontese caminhar pelas tardescom uma imensa begónia na lapela.
"Lying In A Hammock At William Duffys Farm" - James Wright :
.
.
ACOSTADO EN UNA HAMACA EN LA FINCA DE WILLIAM DUFFY EN PINE ISLAND, MINNESOTA -
Sobre mi cabeza, veo la mariposa de bronce dormida sobre el negro tronco, revoloteando como una hoja en la sombra verde. Por el barranco, detrás de la casa vacía, los cencerros de las vacas van uno tras otro hacia las distancias de la tarde. A mi derecha, en un campo lleno de luz entre dos pinos, lo que vertieron los caballos el año pasado se enciende y se torna piedras doradas. Yo me arrecuesto, mientras cae y se oscurece la tarde. Un polluelo de halcón pasa volando, buscando casa. He desperdiciado mi vida.
Vinda do oceano revolto, a multidão, chegou suave a mim uma gota,
Sussurrando, eu te amo, antes que um dia eu morra, Fiz uma longa viagem, para meramente te ver, te tocar, Pois eu não podia morrer até eu te ver uma vez, Pois eu temia poder depois te perder.
2
(Agora nos conhecemos, nos vimos, estamos seguros;
Retorne em paz ao oceano, meu amor;
Sou também parte deste oceano, meu amor – nós não estamos tão separados;
Contemple a grande curvatura – a coesão de tudo, como é perfeita!
Mas, quanto a mim, a você, o irresistível mar irá nos separar,
A hora nos carrega, distintos – mas não pode nos carregar assim para sempre;
Não seja impaciente – por um pequeno espaço – Eu te conheço, eu saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todo dia, no ocaso, por você, meu amor.)
.
Out of the Rolling Ocean, the Crowd :
1
Out of the rolling ocean, the crowd, came a drop gently to me, Whispering, I love you, before long I die,
I have travel’d a long way, merely to look on you, to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you. 2
(Now we have met, we have look’d, we are safe; Return in peace to the ocean, my love; I too am part of that ocean, my love—we are not so much separated; Behold the great rondure—the cohesion of all, how perfect! But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us, As for an hour, carrying us diverse—yet cannot carry us diverse for ever; Be not impatient—a little space—Know you, I salute the air, the ocean and the land, Every day, at sundown, for your dear sake, my love.)