quinta-feira, 30 de maio de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Luís Carlos Patraquim

.

Elegia do Nilo - Luís Carlos Patraquim :

.

.

 Azul e branco e o deus crocodilo na margem
 Diante das ruínas de Karnak,
 como sobes, visto daqui, das águas obscuras 
 Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
 O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
 De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
 Dos deuses.

 Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
 Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
 E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
 que ainda sustém a geometria do eterno
 emergindo da tua indiferença;Tu, que escondes os gatos
 imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
 vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-se junto aos
 Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
 Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
 Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera 
 Dos esponsais da Carne;

 Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
 Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
 No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
 E a salvação dos mortos; 
 O que subia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
 De que eras a substância! 

 Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
 Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
 Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
 Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
 E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
 Até ao mar.

Sem comentários:

Enviar um comentário