Mecanizado e duro como sou Neste dia, E mesmo assim tu vens, tu me visitas! Tu ranges nestes ferros e palpitas Dentro de mim, Poesia!
Vão homens a meu lado distraídos Da sua condição de almas penadas; Vão outros à janela, diluídos Nas paisagens passadas... E porque hei-de ter eu nos meus sentidos As tuas formas brancas e aladas?
Os campos, imprecisos, nos meus olhos, Vão de braços abertos às montanhas; O mar protesta contra não sei quê; E eu, movido por ti, por tuas manhas, A sonhar um painel que se não vê!
Porque me tocas? Porque me destinas Este cilício vivo de cantar? Porque hei-de eu padecer e ter matinas Sem sequer acordar?
Porque há-de a tua voz chamar a estrela Onde descansa e dorme a minha lira? Que razão te dei eu Para que a um gesto teu A harmonia me fira?
Poeta sou e a ti me escravizei, Incapaz de fugir ao meu destino. Mas, se todo me dei, Porque não há-de haver na tua lei O lugar do menino Que a fazer versos e a crescer fiquei?
Tanto me apetecia agora ser Alguém que não cantasse nem sentisse! Alguém que visse padecer, E não visse...
Alguém que fosse pelo dia fora Neutro como um rapaz Que come e bebe a cada hora Sem saber o que faz...
Alguém que não tivesse sentimentos, Pressentimentos, E coisas de escrever e de exprimir... Alguém que se deitasse No banco mais comprido que vagasse, E pudesse dormir...
Mas eu sei que não posso. Sei que sou todo vosso, Ritmos, imagens, emoções! Sei que serve quem ama, E que eu jurei amor à minha dama, À mágica senhora das paixões.
Musa bela, terrível e sagrada, Imaculada Deusa do condão: Aqui vou de longada; Mas aqui estou, e aqui serás louvada, Se aqui mesmo me obriga a tua mão!
A Moleirinha : Pela estrada plana, toque, toque, toque, Guia o jumentinho uma velhinha errante. Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes que anoiteça, toque, toque, toque, A velhinha atrás, o jumentito adiante!...
Toque, toque, a velha vai para o moinho, Tem oitenta anos, bem bonito rol!... E contudo alegre como um passarinho, Toque, toque, e fresca como o branco linho, De manhã nas relvas a corar ao sol.
Vai sem cabeçada, em liberdade franca, O jerico ruço duma linda cor; Nunca foi ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, toque, toque, a moleirinha branca Com o galho verde duma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, Toque, toque, toque, que recordação! Minha avó ceguinha se me representa... Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta, Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
Toque, toque, toque, lindo burriquito, Para as minhas filhas quem mo dera a mim! Nada mais gracioso, nada mais bonito! Quando a virgem pura foi para o Egipto, Com certeza ia num burrico assim.
Toque, toque, é tarde, moleirinha santa! Nascem as estrelas, vivas, em cardume... Toque, toque, toque, e quando o galo canta, Logo a moleirinha, toque, se levanta, P’ra vestir os netos, p’ra acender o lume...
Toque, toque, toque, como se espaneja, Lindo o jumentinho pela estrada chã! Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade de o levar à igreja, Baptizar-lhe a alma, p’ra a fazer cristã!
Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga, Toda, toda branca, vai numa frescata... Foi enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros com luar de prata!...
Toque, toque, como o burriquito avança! Que prazer d’outrora para os olhos meus! Minha avó contou-me quando fui criança, Que era assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou nas palhas o menino Deus...
Toque, toque, é noite... ouvem-se ao longe os sinos, Moleirinha branca, branca de luar!... Toque, toque, e os astros abrem diamantinos, Como estremunhados querubins divinos, Os olhitos meigos para a ver passar...
Toque, toque, e vendo sideral tesoiro, Entre os milhões d’astros o luar sem véu, O burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem será que mói estas farinhas d’oiro Com a mó de jaspe que anda além no Céu!
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Guerra Junqueiro (Os Simples)
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
Se adivinhasse onde moras ¾ Em frente da tua porta, Olhando a tua janela, Veria passar as horas,
As minhas últimas horas. Sem ti a vida que importa? A vida, nem penso nela... Veria passar as horas,
As minhas últimas horas, Em frente da tua porta, Olhando a tua janela...
Onde moras? Onde moras?
É num castelo roqueiro?
Se é num castelo roqueiro, Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto À beira-mar sobranceiro, Com a minha fantasia
Irei tomá-lo de assalto, Esse castelo roqueiro, Erguido na penedia,
Sobre o rochedo mais alto, À beira-mar sobranceiro...
É nos abismos do mar?
Se é nos abismos do mar, Sob a múrmura corrente, No teu leito de amaranto
Irei também descansar, Ficando perpetuamente Naquele perpétuo encanto Do Rei Hárald Horfagar... No teu leito de amaranto Irei também descansar, Naquele perpétuo encanto Do Rei Hárald Horfagar.
É numa estrela, ilha de ouro?
Se é numa estrela, ilha de ouro, ¾A Via-láctea é uma ponte, Subirei por ela ao céu...
Para achar o meu tesouro
Não há remoto horizonte,
Nem Sagitário ou Perseu...
Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras
¾ Em frente da tua porta, Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas. Sem ti a vida que importa? A vida, nem penso nela... Veria passar as horas,
As minhas últimas horas, Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela Numa extasiada emoção. Dize-me pois onde moras, Se porventura não moras Dentro do meu coração...
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António Feijó
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
As actividades da nossa Academia são essencialmente de carácter cultural e recreativo.
Desde o Teatro às festas de cariz social, a Academia promove de tudo um pouco. Teatro Infantil, Danças de Salão, Espectáculos de Variedades, Concursos de Pesca, Torneios de Futsal, Rally Paper, Noites de Fados e Karaokes, são alguns exemplos, entre muitas outras situações.
Anualmente levamos a cabo também, o nosso grande Arraial dos Santos Populares. Desde sempre a ASA festejou os Santos Populares mantendo viva uma tradição da cidade e do bairro. Para conseguir fundos para a nova Sede que só seria inaugurada em Fevereiro de 1956, no mês de Junho de 1955 a direcção da Academia promoveu a realização dos Arraiais no Alto de Santo Amaro. Desde que a CML, no mês de Junho, promove as Festas da Cidade com a realização das Marchas e dos Arraiais pelos Bairros de Lisboa, o Arraial do bairro de Santo Amaro realiza-se na nossa Academia e, em 2009 foi inclusivamente considerado, o Arraial com mais qualidade da cidade de Lisboa.
Todos os anos, não deixamos também passar em claro o nosso aniversário, e como manda a tradição, Março, o mês de aniversário é comomerado condignamente. O hastear da nossa bandeira, que assim ficará durante todo o mês, a missa pelos associados presentes e por alma dos ausentes e respectivas famílias e ainda, as mais diversas actividades culturais e desportivas, finalizando com o almoço de aniversário dos associados com convite a outras colectividades, Juntas de Freguesia e aos amigos que nos ajudam e por fim um evento festivo de índole cultural.
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
Quem me dera ter-te aqui
Passar toda a minha vida
Contigo ao pé de mim
Dizem que a saudade espera
A ausência p’ra chegar
Eu tenho saudades tuas
‘Inda antes de te deixar
Vejo os teus olhos divinos
Que enchem de sonho o meu ser
Pensando já na tristeza
Que te não vendo, os vou ter
Ainda que o teu amor
Seja apenas falsidade
Abençoada mentira
Nunca me fales verdade
Fico às vezes a cismar
Neste mistério de amor
És o bem da minha vida
Sendo tu a minha dor
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Augusto Gil