domingo, 7 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Faulkner

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William Faulkner  :
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Uma Árvore
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Porque tremes tu aí
Entre o rio branco e a estrada?
Não tens frio,
Com a luz do sol sonhando contigo;
Ainda assim tu ergues teus braços suplicantes como que
De forma a alcançar nuvens do céu pra esconder tua magreza.

Tu és uma jovem menina
Tremendo em espasmos de uma modéstia em êxtase,
Uma branca menina existente
Cujas roupas foram arrancadas à força.

sábado, 6 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Cabral

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"Leonor" - António Cabral :
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LEONOR

A Leonor continua descalça,
o que sempre lhe deu certa graça.

Pelo menos não cheira a chulé
e tem nuvem de pó sobre ò pé.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor

Um filhito ranhoso na mão,
uma ideia já podre no pão.

Meia dúzia de sonhos partidos,
a seus pés, como cacos de vidros.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.

- António Cabral, Antologia dos Poemas Durienses, Chaves, Edições Tartaruga, 1999.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Pablo de Rokha

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Fuego Negro (fragmento ) - Pablo de Rokha :

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FRAGMENTO
Lá dentro de um arco de pranto, que nenhum ser humano jamais mirará, eu, apagado, de cócoras, com a língua queimada pelo ancestral do mundo, e o grito inútil, adentrado no couro universal, seguirei te chamando: velho, ruinoso, morto, sem cabeça, sem coração, sem pupilas, fundido no infinito do infinito, e no poço tremendamente fundo do irreparável, que circunda a grande solidão catastrófica com que tua atitude desfeita vai me saudar quando me deite, cansado de estar cansado do cansaço, por todo o longo e largo de tuas ribeiras irremediáveis, despedaçado na memória dos séculos, contigo e os filhos e as filhas e os netos e as netas e os pais e as mães, continuarei te chamando; caídos os vestígios e desaparecido, fundido e perdido definitivamente nas trevas da matéria que unicamente, algidamente, pavorosamente ilumina quando engendra, como um eco, um indivíduo, naquele instante imemorável em que não hei de ser nem mesmo uma sombra, e seguirei te chamando pelos séculos dos séculos, desde a eternidade vazia, seguirei te chamando... aprendi a escrever adorando-te, e agora lanço pedaços do mundo em pedaços, tua memória, truncado e desde abaixo, de um montão de escombros, de uma sociedade que se desmorona, agonizando, e os pequenos chacais famintos, que uivam no grande crepúsculo, no qual tudo está destruído, tudo destruído, e por cujo abismo se levantam as a achas e as forcas, entre as chamas amargas, desaforadas das últimas catástrofes, com um enorme cinturão de terremotos e cataclismo; agora a aurora não mais voltará a assomar; e os mundos obscuros, entrechocando-se, rolarão, comigo dentro, à enfurecida solidão.
Degolo minha linguagem a teus pés e me lanço como um touro escuro e desnudo contra o nada.
De FUEGO NEGRO (1963)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - D.H. Lawrence

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"The Ship of Death" - D.H. Lawrence :
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A Barca da Morte

(D.H. Lawrence - Tradução de Rui Rosado)

I


Agora é o Outono, o cair dos frutos

e a longa viagem para o esquecimento.


As maçãs que caem como grandes gotas de orvalho

Conseguem ferir uma saída de si próprias.

5 É tempo de ir, do adeus

ao próprio eu, de encontrar uma saída

do eu caído.


II


Já construiste a tua barca da morte, a tua?.

Constrói a tua barca da morte, vais precisar dela.

10 Não tarda a geada impiedosa, e cairão as maçãs

pesadas, quase retumbantes, na terra ressequida.


E, no ar, a morte como um cheiro de cinzas!

Não a sentes?


E no corpo ferido, a alma assustada
15 fica encolhida, contraíndo-se do frio

que sopra sobre ela pelos orifícios.


III


E consegue um homem a sua quietude

com um punhal nu?


Com adagas, punhais, balas, um homem consegue
20 uma fenda ou ferida para sair a vida;

mas é isso a quietude, diz-me, a quietude?


Claro que não! como pode um crime, mesmo contra si

criar quietude?


IV


Falemos de quietudes que conhecemos,
25 das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes

num coração forte e em paz!


Como tornar, isto em quietude nossa?


V


Constrói, pois, a barca da morte, que vais partir

na mais longa viagem, para o esquecimento.

30 E morre a morte, a longa e dolorida morte

que fica entre o velho e o novo eu.


Caíram-nos já, feridos, rasgados, os corpos,

esvaem-se-nos já as almas pela saída

dessa cruel ferida.

35 O oceano sombrio, infindável, do fim

espraia-se já pelas nossas rebentadas chagas,

abate-se já sobre nós o dilúvio.


Constrói a tua barca da morte, a tua pequena arca

abastece-a com comida biscoitos e vinho,
40 para o obscuro voo no esquecimento.


VI


Pouco a pouco o corpo morre, e a alma tímida

vê o suporte levado no erguer do negro dilúvio.


Morrendo, estamos morrendo, estamos todos morrendo

e nada deterá o dilúvio de morte que cresce em nós
45 e não tarda a erguer-se sobre o mundo, sobre o mundo exterior.


Morrendo, estamos morrendo, pouco a pouco morrendo

e abandona-nos o ânimo,

e abriga-se a alma nua na chuva negra sobre o dilúvio

abrigando-se nos últimos ramos da árvore da nossa vida.


VII

50 Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta

aceitar a morte, e construir a barca

da morte que nos leve a alma na mais longa viagem.


Uma pequena barca, com remos e comida

e pequenos pratos, e todo o apetrechamento
55 pronto e necessário à alma de partida.


Agora, lança à água a pequena barca, agora, que o corpo morre

e a vida parte, lança a alma frágil

na frágil barca da coragem, na arca da fé,

com os mantimentos, as pequenas caçarolas
60 e as mudas de roupa;

no negro deserto do dilúvio

nas águas do fim

no mar da morte, onde navegamos ainda,

às escuras, porque não temos leme nem existe porto.

65 Não há porto, nenhum sítio para onde ir

apenas o negrume que se aprofunda e escurece mais,

mais negro sobre o dilúvio silencioso e inagitado

escuridão após escuridão, para cima e para baixo

e pelos lados absoluta escuridão, já não pode haver direção.
70 E a pequena barca está lá, e contudo partiu.

Não pode ser vista, porque nada o permite.

Desapareceu! partiu! e contudo está

em algum lado.

Em lado algum!


VIII

75 E tudo partiu, o corpo partiu

submerso, desaparecido, inteiramente desaparecido.

A escuridão de cima é tão densa como a de baixo,

por entre elas a pequena barca

partiu
80 desapareceu.


É o fim, é o esquecimento.


IX


E, contudo, da eternidade separa-se

um filamento sobre o negrume,

um filamento horizontal
85 que se eleva palidamente sobre o escuro.


Será ilusão ou eleva-se essa palidez

um pouco mais alto?

Mas espera, espera, porque há a madrugada,

a madrugada cruel do regresso à vida
90 após o esquecimento.


Espera, espera, a pequena barca

à deriva, debaixo do cinzento mortal das cinzas

duma madrugada de dilúvio.


Espera, espera! mesmo assim uma réstea de amarelo
95 e, por estranho, alma cansada e fria, uma réstea de rosa.


Uma réstea de rosa, e tudo isto recomeça.


X


Desde o dilúvio, e o corpo, como uma concha polida

emerge extraordinário e belo.

E a pequena barca torna a casa, deslizando, trêmula,
100 sobre as águas do dilúvio róseo,

e a frágil alma desembarca, volta a casa

enchendo de paz o coração.


O coração renovado embala-se na paz,

mesmo na do próprio esquecimento .

105 Constrói a tua barca da morte, a tua!

vais precisar dela.

Espera-te a viagem do esquecimento.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Castro Alves

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AS DUAS ROSAS - Castro Alves :
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São duas rosas unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu...

Unidas bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas...Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Carlos Williams

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The Red Wheelbarrow - William Carlos Williams :
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O CARRINHO DE MÃO VERMELHO
tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

luzindo com água
da chuva

junto às galinhas
brancas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camillo de Jesus Lima

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Camillo de Jesus Lima  :
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Poesia de Camilo de Jesus Lima



Viola Quebrada

"Da viola pra muié
É pequena a deferença.
Ancê óia, escuta e pensa.
Eu juro, esta fala é franca:
A viola tem cabelo
Nas dez corda qui ela tem.
Tale quale uma muié,
Ela tem braço também
E tem cintura e tem anca.
A viola faz chorá
E chora a hora qui qué.
Tale quale uma muié,
Derrete toda na mão
Da pessôa qui qué bem.
Só inziste duas cousa
Qui ela tem e muié não:
É qui a viola de pinho
Tem alma e tem coração..."