quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Juan Ramón Jiménez

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Juan Ramón Jiménez :

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A Cor da Tua Alma :Enquanto eu te beijo, o seu rumor 
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro 
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro 
da árvore que é a árvore de meu amor.    

Não é fulgor, não é ardor, não é primor 
o que me dá de ti o que te adoro, 
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro, 
é o ouro feito sombra: a tua cor. 

A cor de tua alma; pois teus olhos 
vão-se tornando nela, e à medida 
que o sol troca por seus rubros seus ouros, 
e tu te fazes pálida e fundida, 
sai o ouro feito tu de teus dois olhos 
que me são paz, fé, sol: a minha vida! 

Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van" 
Tradução de José Bento
(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Keats

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To Autumn - John Keats :

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Ao Outono :

"Estação de bruma e doce abundância!
Amiga íntima do sol que amadurece,
com ele conspirando para encher de frutos
e abençoar as vinhas que se estendem pelas latadas.
Para carregar de maçãs as árvores musgosas,
e amadurecer todos os frutos até ao caroço.
Para inchar as cabaças e encher as avelãs de doce miolo,
para abrir cada vez mais ás abelhas as flores tardias
até elas pensarem que os dias quentes não acabarão,
pois o Verão já fez transbordar os seus favos viscosos.

Quem não te viu tantas vezes na tua abundância?
Por vezes, quem procura aí fora pode encontrar-te
sentado no chão de um celeiro, descuidadamente
com o cabelo levemente agitado pelo vento, 
ou adormecido num sulco já ceifado,
entorpecido pelo odor das papoilas, enquanto a tua foice
poupa o trigo próximo e as flores entrelaçadas
e, outras vezes,  como um rebusqueiro,
firmas a cabeça ao atravessar um ribeiro
ou observas com calma, junto a um lagar,
a longa passagem do tempo, horas e horas.

Onde estão as canções da Primavera? Onde estão?
Não penses nelas, tens a tua música própria!
Quando os farrapos de nuvens florescem o suave crepúsculo
e tingem de róseos matizes as planícies de restolho,
Surge então o lamentoso coro dos mosquitos,
entre os salgueiros do rio,
aumentando ou diminuindo com o soprar do vento.
E berram os cabritos já adultos, nascidos na montanha,
cantam os grilos nas sebes e, numa branda voz,
o pintaroxo canta no jardim.
Nos céus  piam bandos de andorinhas." 
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(retirado, com a devida vénia, de "Olhai os lírios do campo")

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Barão da Mata

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 Barão da Mata :

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AMO OS ANIMAIS :


Amo os animais, todos os animais
Como se fossem seres de antigo convívio
E dormissem pelo meu quarto
E me dessem lambidas de afagos,
E voltassem pro ar o ventre,
Sequiosos de meu carinho.
Amo cada animal quase como a um filho
E os olho com tanto afeto, mas tanto afeto,
Que Deus, se houver, lerá o amor dos meus olhos
E verá quão injusto é  todo esse sofrimento
Que aos inocentes bichinhos é quase sempre reservado.
(retirado, com a devida vénia, de "Recanto das Letras")

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Masefield

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John Masefield :

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Sea Fever :
I must down to the seas again, to the lonely sea and the sky.
And all I ask is a tall ship and a star to steer her by,
and the wheel's kick and the wind's song and the white sail's shaking,
And a grey mist on the sea's face, and a grey dawn breaking.

I must down to the seas again, for the call of the running tide,
Is a wild call and a clear call that may not be denied.
And all I ask is a windy day with the white clouds flying,
and the flung spray and the blown spume, and the sea-gulls crying.

I must down to the seas again, to the vagrant gypsy life,
to the gull's way and the whale's way where the wind's like a whetted knife.
And all I ask is a merry yarn from a laughing fellow-rover
and quiet sleep and a sweet dream when the long trick's over.

 John Masefield (1878-1967)
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Fiebre Marina :
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Debo volver al mar, al solitario mar y al cielo.
Y sólo pido un velero y una estrella para timonear hacia ella,
y el tirón de la rueda y el canto del viento y de las blancas velas al gualdrapear,
y en el rostro del mar una gris neblina, y el alba cerrada que empieza a clarear.

Debo volver al mar, pues el llamado de la mar al pasar,
es un llamado salvaje y claro, un reclamo que no se puede negar.
Y todo lo que pido es el viento soplando, en un día de blancas nubes,
salpicaduras de espuma que vuela y las gaviotas gritando.

Debo volver al mar, a la vida de gitano errante,
al camino de la gaviota y la ballena, dónde el viento es un cuchillo cortante.
Y sólo pido una alegre anécdota, que me cuente un sonriente camarada
y un buen dormir, y un dulce sueño al terminar la jornada
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(retirado, com a devida vénia de "cruceroslunallena")

domingo, 3 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Caio Fernando Abreu

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Caio Fernando Abreu :

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Remar :

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.
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(retirado, com a devida vénia, de "Pensador.Info")

sábado, 2 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Kalju Lepik

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Kalju Lepik :
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Praga :

Se destruíres nosso povo
Que a chuva vire pedra sobre teus campos.
Que a pedra dispare brotos de pedra.
Que pão de pedra esteja em tua mesa.
Que pétreo seja o chão em que pisas.
Que pétreo seja teu céu acima.
Que o mar vire pedra.
Vire pedra como teu coração é de pedra
Contra nossa terra e nosso povo.
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retirado, com a devida vénia, de :

./AFETIVAGEM.]

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francisco Otaviano

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Francisco Otaviano :
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Recordações :

Oh! se te amei! Toda a manhã da vida
Gastei-a em sonhos que de ti falavam!
Nas estrelas do céu via teu rosto,
Ouvia-te nas brisas que passavam:
Oh! se te amei! Do fundo de minh’alma
Imenso, eterno amor te consagrei...
Era um viver em cisma de futuro!
Mulher! oh! se te amei!
Quando um sorriso os lábios te roçava,
Meu Deus! que entusiasmo que sentia!
Láurea coroa de virente rama
Inglório bardo, a fronte me cingia;
À estrela alva, às nuvens do Ocidente,
Em meiga voz teu nome confiei.
Estrela e nuvens bem no seio o guardam;
Mulher! oh! se te amei!
Oh! se te amei! As lágrimas vertidas,
Alta noite por ti; atroz tortura
Do desespero d’alma, e além, no tempo,
Uma vida sumir-se na loucura...
Nem aragem, nem sol, nem céu, nem flores,
Nem a sombra das glórias que sonhei...
Tudo desfez-se em sonhos e quimeras...
Mulher! oh! se te amei!
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(retirado, com a devida vénia, de "Ainda Melhor")