quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Castro Alves

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AS DUAS ROSAS - Castro Alves :
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São duas rosas unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu...

Unidas bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas...Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Carlos Williams

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The Red Wheelbarrow - William Carlos Williams :
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O CARRINHO DE MÃO VERMELHO
tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

luzindo com água
da chuva

junto às galinhas
brancas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camillo de Jesus Lima

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Camillo de Jesus Lima  :
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Poesia de Camilo de Jesus Lima



Viola Quebrada

"Da viola pra muié
É pequena a deferença.
Ancê óia, escuta e pensa.
Eu juro, esta fala é franca:
A viola tem cabelo
Nas dez corda qui ela tem.
Tale quale uma muié,
Ela tem braço também
E tem cintura e tem anca.
A viola faz chorá
E chora a hora qui qué.
Tale quale uma muié,
Derrete toda na mão
Da pessôa qui qué bem.
Só inziste duas cousa
Qui ela tem e muié não:
É qui a viola de pinho
Tem alma e tem coração..."

domingo, 30 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto II

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 l'Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :
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CANTO I (continuação) :

13.
 
a Dama desviou a montaria
e foi-se a rédea solta pela mata,
Sem procurar a mais segura via,
Onde o arvoredo menos se dilata.
Tresloucada, a tremer, pálida, a guia
Dá ao palafrém, que a esmo as trilhas cata.
Acima e abaixo, a vasta selva inteira
Percorreu e foi ter a uma ribeira.

14.
Junto à ribeira Ferraú mostrou-se
Coberto de poeira e suor copioso.
O que da frente de batalha o trouxe
Foram ganas de água e de repouso.
Depois, a contragosto, lá ficou-se,
Porque, sobre estouvado, sequioso,
Das mãos caiu-lhe ao rio o elmo, ao beber,
E não mais o alcançava reaver.

15.
Com quantas forças tem, ergue clamor,
Posta em fuga, a donzela apavorada;
Salta o mouro, escutando tal rumor,
E a reconhece, logo na chegada.
Ainda que, por obra do temor,
Mostrasse a face pálida e turvada,
É aquela de quem vai buscando novas,
É angélica, não há querer mais provas.

16.
Cavaleiro cortês, quiçá rival
Dos primeiros no estimar igual beleza;
Se elmo lhe falta, o que inda o braço val
Logo à dama oferece por defesa.
A arma empunha e feroz corre aonde o mal
Suspeita então rinaldo tal surpresa.
Eram já os cavaleiros conhecidos
De vista e d'armas, desde tempos idos.

17.
Apeados ali, sem que lhes valha
Couraça ou malha miúda como escudo
(A espada de qualquer tão rijo talha
Quem em bigorna faria corte agudo),
Encetam crudelíssima batalha.
A dama ao palafrém manda contudo
Que aperte o pé, com quantas força tenha,
E em campos, matagais, assim se embrenha.

18.
Largo tempo forceja um por ter mão
Do outro, mas nenhum ao outro abala,
Pois ambos consumados mestres são
De perícia na espada, ao menejá-la.
Afinal o senhor de Montalvão
Dirige ao cavaleiro hispano a fala
Como alguém cujo peito se acha em fogo
Abrasador, que rompe em desafogo.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.

sábado, 29 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto I

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l' Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :
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CANTO I
 
1.
Damas e paladinas, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos, rei e imperador romano.

2.
Hei de dizer de Orlando, juntamente,
O que nunca se disse, em prosa ou rima:
Que ficou, por amor, louco fremente,
Pondo a perder de homem cordato a estima;
Isto, se aquela que me faz demente
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

3.
Dignai-vos, ó hercúlea prole Estense,
Ornamento e esplendor do tempo nosso,
Hipólito, aceitar, pois vos pertence,
A oferta do criado humilde vosso.
O que vos devo em grande parte vence
Quando co' o verbo e a pena pagar posso;
Nem por vos dar tão pouco ingrato sou,
Pois do que posso dar, tudo vos dou.

4.
Dentre os grandes heróis, se ora me ouvis,
Vereis lembrado o nome sobranceiro
Que de vossa linhagem foi raiz,
Rogério, de alta estirpe avô primeiro;
E se benignamente consentis
Em dar-me, por um pouco, ouvido inteiro,
Deixando por meu canto altos cuidados,
Seus feitos achareis aqui exaltados.

5.
De Angélica formosa enamorado
Ficara Orlando, e por amores seus
Em Tartária, Índia e Média havia deixado
Inumeráveis e imortais troféus.
Ei-lo agora retornado
Ao ocidente, ao pé dos Pirineus,
Aos arraiais de França e de Alemanha,
Convocados de Carlos à campanha,

6.
Para que os reis Marsílio e Agramante
Cara custasse a estulta confiança
Com que um de África todo o homem prestante
Trouxera armado com espada e lança,
E outro de Espanha se pusera adiante
Por oprimir o lindo chão de França.
Voltava então Orlando ao pátrio solo,
Mas logo a volta o pôs em desconsolo.

7.
Pois logo sua amada ali perdia:
Que o juízo humano tantas vezes erra!
Aquela pela qual lutado havia,
Da Eólia à Espéria, em tão renhida guerra,
Ora a perde entre amiga companhia,
Sem a espada brandir, em sua terra.
É sábio imperador quem, tendo em mira
Grave incêndio extinguir, assim lha tira.

8.
Desavença recente separara
Rinaldo e o conde Orlando, que é seu primo:
Da mesma dama, a formosura rara
Os abrasava, pela graça e o mimo.
Carlos, a quem o pleito desgostara,
Pois desss bravos lhe tolhia o arrimo,
A donzela, que aos dois indispusera,
Deu em custódia ao duque de Baviera;

9.
E em prêmio a reservou ao que se houvesse
Com mais valor naquela grã jornada,
Ao que mais infiéis ali abatesse
Pelo valor do braço e forte espada.
Mal fundada esperança, que fenece
Ao pôr-se em fuga a gente batizada.
Força é que então com outros mil se renda
O duque e, preso, deixe ao léu a tenda.

10.
Ali se achara dantes a donzela
Ao vencedor em prêmio prometida.
Durante o embate, ela subira à sela
E, sem que suspeitassem, foi partida.
Sentiu - veio um presságio esclarecê-la -
Que a Fortuna aos cristãos baldara a lida.
Assim, entrou num bosque, e num carreiro
Encontrou, vindo a pé, um cavaleiro.

11.
Vestia couraça e tinha na cabeça
O elmo; ao flanco, espada; à mão, escudo;
O bosque atravessava mais depressa
Que em prova de corrida aldeão rudo.
Tímida pastorinha não se apressa
De serpente a fugir bote sanhudo,
Como Angélica as rédeas desviou
Logo que caminhante divisou.

12.
Era esse paladim, nobre e galhardo,
Filho de Amon, senhor de Montalvão.
Tinha perdido seu corcel, Baiardo,
Pouco havia, em insólita ocasião.
Reconheceu a dama, e, como dardo,
O amor lhe trespassou o coração.
Vendo-lhe ao longe o angélico semblante
Caiu do amor nos laços nesse instante.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camilo Pessanha

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Água morrente - Camilo Pessanha :
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Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Celan

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Parla anche tu - Paul Celan  :
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Fala Também TuFala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

Paul Celan, in "De Limiar em Limiar"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno