segunda-feira, 17 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bertolt Brecht

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Bertolt Brecht :

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Canção da Inocência Perdida :1

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
       Se isto não vale pra a roupa
       Também não vale pra mim.
       Que o rio lhe passe por cima
       Breve fica branca, assim.

2

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
       A roupa já estava parda,
       No rio a fui mergulhar.
       No cesto está virginal
       C'mo sem ninguém lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
       A roupa branca no rio
       Enxaguada à roda, à roda,
       Sente que as ondas a beijam:
       «Volta-me a brancura toda».

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
       Assim acontece à roupa
       E a mim acontecerá.
       A água corre depressa,
       Sujidade diz: Vem cá!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
       Com poupanças e jejuns
       Nenhuma mulher se acalma.
       Roupa guardada na arca,
       Na arca se não faz alva.

6

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
       Mete-a na água e sacode-a!
       Há sol, cloreto e vento!
       Usa-a, dá-a de presente:
       Fica fresquinha a contento.

7

Bem sei: Muito pode vir
'Té que nada por fim. fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
       E uma vez que apodreça
       Nenhum rio a embranquece.
       Leva-a consigo em farrapos.
       Um dia assim te acontece.
(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

domingo, 16 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Antero de Quental

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Antero de Quental :
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No Circo :(A João de Deus)

Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!
(retirado, com a devida vénia, de "Citador")


sábado, 15 de junho de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Antonio Tabucchi

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Antonio Tabucchi :

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A Vida não Está por Ordem Alfabética :A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas. (retirado, com a devida vénia, de "Citador")

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Valery

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Paul Valery :

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AS ROMÃS
Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro sece cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitetura
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(tradução: Augusto de Campos)
(extraído, com a devida vénia, do blog "O Poema")

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alexandre Vargas

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Alexandre Vargas :
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PALÁCIO DA PENA :

Palácio da pena de prisão
que sinto em todo o meu ser
quando a ânsia de Libertação
(apenas ma proporciona o escrever)

Abre então as portas desse cárcere
ficando embora as grades dos versos
a prender seguro aquele voo fácil
hesitante e de sopro tão incerto

Próprio de ave alta do poema
de cujas asas arranco uma
das suas coloridas plumas:

Firmo bem no papel essa pena
que me livra de todas as penas
em só verso branco ou em rima.
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(retirado, com a devida vénia, de "alexandrevargas.no.sapo.pt")

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rabindranath Tagore

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Rabindranath Tagore :

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Amor Eterno
 

   
    Te amei de tantas maneiras e de tantas formas...
    de vida em vida, de época em época, sempre...
    Meu coração enfeitiçado fez uma e outras vezes
    um colar de canções que tomas-te como um presente
    e usaste em torno de teu pescoço, do teu jeito
    e de tantas formas....
    de vida em vida, de época em época, sempre...


    Onde quer que escute as velhas histórias de amor,
    sua antiga dor e esse velho conto de estar juntos ou separados,
    me detenho e uma vez ou outra, olho o passado
    e ao final de tudo, emerge você,
    revestida com a luz de uma estrela polar
    trespassando a escuridão do tempo,
    e deste modo te convertes em uma imagem
    que recordarei para sempre.

    Tu e eu flutuamos ali, na corrente que flui
    de um coração cheio de amor, um pelo outro.
    Jogamos o amor ao lado de milhões de amantes,
    compartilhamos a tímida doçura do primeiro encontro,
    as mesmas lágrimas de angustia em cada despedida.
    O velho amor...que se renova uma ou outra vez,
    Sempre...

    Hoje este amor está a teus pés, encontrou sua morada em ti.
    Esse amor, o amor cotidiano de todos os homens,
    o amor do passado, o amor de sempre...
    o regozijo  universal, a dor universal, a mesma vida,
    a memória de todos amores,
    as canções de todos os poetas do passado e de sempre
    se fundem neste  Amor que é o nosso.
   
    Rabindranath Tagore
    de "Amor Eterno"
    Poeta Indú 1861-1941
    Prémio Nobel de Literatura

    Tradução:Joe'A
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(extraído, com a devida vénia, do blog "vidasempoesia")

terça-feira, 11 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cruzeiro Seixas

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Cruzeiro Seixas :

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A tua boca adormeceu :
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parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.
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(retirado, com a devida vénia, do blog "Antonio Miranda")