sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Momento Poético

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O LADRÃO DO PÃO :

Eu já não sou marujo.
do mar fujo.

§

O mar é um grande ladrão.
O mar não vem comer à mão.

§

Adentro-me pelos campos.
Levo um remo.
Ainda tremo do re-
mar.

§

Dou costas às searas,
que me fazem marear.

§

O ladrão não rima com pão.
O ladrão não rema.
Quem remava era a minha mão.

§

Até que enfim que o rosmaninho
é uma flor.

§

Remo ao ombro,
deito sombra no
chão.

§

'– Marujinho às amoras,
foi o mar que te ralhou?'

Ainda falam do ladrão.
Ainda sabem quem sou.

§

Um coelho
no tojo.

Zás zar-
pa.

Ainda falo as palavras do ladrão.

§

Nestes quatro caminhos
alguém naufragou.

'Aqui viu contados seus dias
Joaquim Inácio, dito O Manaças,
morto à traição numa espera
que para ele não era.
Ó tu que passas,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria
por sua intenção.'

Credo!
Eu e o remo
fazemos sombra de cruz
no chão.

§

Pergunto ao do tractor:

'– Amigo, aonde leva este caminho?
– Pra lá dos montes, marujinho.'

Ó ladrão
vou-te afogar em vinho.

§

À porta da taberna,
o ramo de louro.

Na soleira,
uma cadela prenha.

§

À terceira rodada
já querem saber
donde é que eu sou,
que venho ali fazer.

Respondo:

'– Esquecer.'

§

'– Tenho lá fora um remo.
É o que me resta do mar,
mais uma grande vontade
de o afogar.'

§

'– Marujinho, a terra é madrasta
pra quem está do lado do suor.

– E o mar é um grande ladrão.
Não troca o suor em pão.'

§

Galgo a soleira,
pego no remo.

Estirada, a cadela
parece um peixe
na minha esteira.

§

Agora abre-se
o guarda-chuva da noite.

Nos montes, em derredor,
piscam luzeiros,
alteiam-se fogachos.

Trinco a cebola,
mordo o casqueiro.

Largo a pensar.

§

Dois luzeiros descem do monte.
Desaparecem. Aparecem.

Dois faróis encandeiam-me.
Tac-tac de motor.

'– Suba.
É a última da carreira.'

§

Tran! A porta fechou-se.

Olho em redor.
Sou o único passageiro.

§

Nas curvas, ouço o remo
rolar no tejadilho.

Começo a não perceber.
Começo a sentir frio.

§

Ninguém me cobra bilhete.

A camionete vai
desarvorada.

§

Ninguém me pergunta
donde? praonde?

A camionete pá-
ra.

§

'– É aqui. Desça.'

Salto.
Atiram-me o remo
para a estrada.

§

Então o grande olho
acusador,
fogo santelmo na roda da candeia,
crava-se em mim: '– Aqui é a fronteira.
Algo a declarar?

– Só este lenho
que eu trouxe por trazer.

– Nada a fazer.
Tem de voltar prò mar.'

§

Ao sol
não canta o rouxinol.

Na alta manhã
uma voz clareia.

Lá estão os montes
de antes de eu os sonhar.

§

'– Acorda, padeirinho
que o pão não cozeste.
Deixaste sair o dia.
Onde foi que te perdeste?

Trouxeste a pá contigo,
à procura de forno?
Escusavas de ir tão longe,
que o meu ainda está morno.

Vem cozer o teu pão,
padeirinho jeitoso.
Eu amasso a farinha.
Tu aqueces o forno.

E depois, quando o pão
estiver a tufar,
galhofeiros, riremos
de o ouvir estalar.'

§

'– Quem disse que fui marinheiro?
Aqui declaro a pura verdade:
esta pá é pá de padeiro
(padeiro de muito enfornar)
e se não fora o ladrão do pão
até gostava de ir conhecer
o mar!'
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Alexandre O'Neill, 'De Ombro na Ombreira', Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1969; in 'Poesias Completas', Lisboa, Assírio & Alvim, 6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar), Junho de 2012
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Momento Poético

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Evolução :
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Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
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Antero de Quental, in "Sonetos"
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Momento Poético

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Menino do Bairro Negro :
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Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
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José Afonso
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Momento Poético

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Todas as Cartas de Amor são Ridículas :
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Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
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Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Momento Poético

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As Palavras Interditas :

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa” 
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

domingo, 17 de agosto de 2014

Momento Poético

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Chamar a Música :

Esta noite vou ficar assim
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim
Vou chamar a música
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só p'ra nós
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Esta noite vou beber licor
Como um filtro redentor
De amor, amor, amor
Vou chamar a música
Vou pegar na tua mão
Vou compor uma canção
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Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música
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Esta noite não quero a TV
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê
Vou chamar a música
Murmurar um madrigal
Inventar um ritual
.
Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim
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Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música
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Rosa Lobato Faria
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NelitOlivas

sábado, 16 de agosto de 2014

Momento Poético

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A Procissão :

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Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior vai aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.
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António Lopes Ribeiro

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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas