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O LADRÃO DO PÃO :
Eu já não sou marujo.
do mar fujo.
§
O mar é um grande ladrão.
O mar não vem comer à mão.
§
Adentro-me pelos campos.
Levo um remo.
Ainda tremo do re-
mar.
§
Dou costas às searas,
que me fazem marear.
§
O ladrão não rima com pão.
O ladrão não rema.
Quem remava era a minha mão.
§
Até que enfim que o rosmaninho
é uma flor.
§
Remo ao ombro,
deito sombra no
chão.
§
'– Marujinho às amoras,
foi o mar que te ralhou?'
Ainda falam do ladrão.
Ainda sabem quem sou.
§
Um coelho
no tojo.
Zás zar-
pa.
Ainda falo as palavras do ladrão.
§
Nestes quatro caminhos
alguém naufragou.
'Aqui viu contados seus dias
Joaquim Inácio, dito O Manaças,
morto à traição numa espera
que para ele não era.
Ó tu que passas,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria
por sua intenção.'
Credo!
Eu e o remo
fazemos sombra de cruz
no chão.
§
Pergunto ao do tractor:
'– Amigo, aonde leva este caminho?
– Pra lá dos montes, marujinho.'
Ó ladrão
vou-te afogar em vinho.
§
À porta da taberna,
o ramo de louro.
Na soleira,
uma cadela prenha.
§
À terceira rodada
já querem saber
donde é que eu sou,
que venho ali fazer.
Respondo:
'– Esquecer.'
§
'– Tenho lá fora um remo.
É o que me resta do mar,
mais uma grande vontade
de o afogar.'
§
'– Marujinho, a terra é madrasta
pra quem está do lado do suor.
– E o mar é um grande ladrão.
Não troca o suor em pão.'
§
Galgo a soleira,
pego no remo.
Estirada, a cadela
parece um peixe
na minha esteira.
§
Agora abre-se
o guarda-chuva da noite.
Nos montes, em derredor,
piscam luzeiros,
alteiam-se fogachos.
Trinco a cebola,
mordo o casqueiro.
Largo a pensar.
§
Dois luzeiros descem do monte.
Desaparecem. Aparecem.
Dois faróis encandeiam-me.
Tac-tac de motor.
'– Suba.
É a última da carreira.'
§
Tran! A porta fechou-se.
Olho em redor.
Sou o único passageiro.
§
Nas curvas, ouço o remo
rolar no tejadilho.
Começo a não perceber.
Começo a sentir frio.
§
Ninguém me cobra bilhete.
A camionete vai
desarvorada.
§
Ninguém me pergunta
donde? praonde?
A camionete pá-
ra.
§
'– É aqui. Desça.'
Salto.
Atiram-me o remo
para a estrada.
§
Então o grande olho
acusador,
fogo santelmo na roda da candeia,
crava-se em mim: '– Aqui é a fronteira.
Algo a declarar?
– Só este lenho
que eu trouxe por trazer.
– Nada a fazer.
Tem de voltar prò mar.'
§
Ao sol
não canta o rouxinol.
Na alta manhã
uma voz clareia.
Lá estão os montes
de antes de eu os sonhar.
§
'– Acorda, padeirinho
que o pão não cozeste.
Deixaste sair o dia.
Onde foi que te perdeste?
Trouxeste a pá contigo,
à procura de forno?
Escusavas de ir tão longe,
que o meu ainda está morno.
Vem cozer o teu pão,
padeirinho jeitoso.
Eu amasso a farinha.
Tu aqueces o forno.
E depois, quando o pão
estiver a tufar,
galhofeiros, riremos
de o ouvir estalar.'
§
'– Quem disse que fui marinheiro?
Aqui declaro a pura verdade:
esta pá é pá de padeiro
(padeiro de muito enfornar)
e se não fora o ladrão do pão
até gostava de ir conhecer
o mar!'
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Alexandre O'Neill, 'De Ombro na Ombreira', Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1969; in 'Poesias Completas', Lisboa, Assírio & Alvim, 6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar), Junho de 2012
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

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