quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Ojalá - Silvio Rodriguéz :
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Ojalá

Ojalá que las hojas no te toquen el cuerpo cuando caigan
para que no las puedas convertir en cristal.
Ojalá que la lluvia deje de ser milagro que baja por tu cuerpo.
Ojalá que la luna pueda salir sin tí.
Ojalá que la tierra no te bese los pasos.

Ojalá se te acabé la mirada constante,
la palabra precisa, la sonrisa perfecta.
Ojalá pase algo que te borre de pronto:
una luz cegadora, un disparo de nieve.
Ojalá por lo menos que me lleve la muerte,
para no verte tanto, para no verte siempre
en todos los segundos, en todas las visiones:
ojalá que no pueda tocarte ni en canciones

Ojalá que la aurora no dé gritos que caigan en mi espalda.
Ojalá que tu nombre se le olvide a esa voz.
Ojalá las paredes no retengan tu ruido de camino cansado.
Ojalá que el deseo se vaya tras de tí,
a tu viejo gobierno de difuntos y flores.

Tomara

Tomara que as folhas não toquem seu corpo quando caiam
Para que não as converta em cristal.
Tomara que a chuva deixe de ser um milagre que baixa pelo seu corpo
Tomara que a lua possa sair sem você.
Tomara que a terra não beije seus passos

Tomara que acabe o seu olhar constante
A palavra precisa, o sorriso perfeito.
Tomara que aconteça algo que te apague rapidamente
Uma luz que cega, um disparo de neve.
Tomara que pelo menos a morte me leve,
Para não te ver tanto, para não te ver sempre
Em todos os segundos, em todas as visões.
Tomara que eu não possa te tocar nem nas canções

Tomara que a aurora não dê gritos que caiam nas minhas costas.
Tomara que o seu nome não se esqueça dessa voz
Tomara que as paredes não retenham o ruído do caminho cansado
Tomara que o desejo se vá atrás de ti,
Para seu velho governo de defuntos e flores.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

. O Navio de Espelhos - Mário Cesariny :
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O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Camilo Pessanha - Quando voltei encontrei os meus passos  :
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Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a úmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
_ Tão rediviva! nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrimas contidas.
_ Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista _ para quê?
Se há de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...

domingo, 27 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Soneto II - Gregório de Matos :
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Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Suigni.ficados - Imansidados

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O mê vezinho Esquerdo, há qu´anos qu´ei esquerdo, mas...inté nã éi...canhoto.
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O mar dá-nos uma sensação...d´ imansidão.
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Legenda : I.mansidão = imensidão, de mansinho.
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PataNegra

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.El Amor - Felix Lope Vega :
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Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, moral, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde, animoso,

No hallar, fuera del bien, centro y reposo;
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satesfecho, ofendido, receloso,

Huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el daño;

Creer que un cielo en un infierno cabe,
dar a la vida y el alma un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Antífona - Cruz e Souza  :
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Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras
Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Nasci para ser ignorante - Sebastião da Gama :
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Nasci para ser ignorante
mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.
Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.
Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.
Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.
Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.
Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.
No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.
O pior é se um director
espreita p'la fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.
Lá se vai o ordenado
de tuta-e-meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.
Se me não lograr o fado
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,
enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Saudade - Pablo Neruda :
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Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Soneto do Amor Demais - Vinicius de Moraes  :
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Soneto do Amor Demais
Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

Não amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paixão do que se der à coisa amada

E que não sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim só quer amor - mais nada.

domingo, 20 de novembro de 2011

Uns Pensamentos por dia, nem sabe o bem que lhe faria(m)

.Frases, de Jão Guimaraes Rosa :
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Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

(Guimarães Rosa)


 
Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.

(Guimarães Rosa)


 
Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa)


 
Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

(Guimarães Rosa)


 
Quem muito se evita, se convive!

(Guimarães Rosa)


 
Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor...

(Guimarães Rosa)


 
A vida é um campo de urtigas onde a única rosa é o amor.

(Guimarães Rosa)


 
Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia

(Guimarães Rosa)


 
Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

(Guimarães Rosa)


 
Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.

(Guimarães Rosa)


 
Foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante

(Guimarães Rosa)


 
É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.

(Guimarães Rosa)


 
Infelicidade é uma questão de prefixo.

(Guimarães Rosa)


 
Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

(Guimarães Rosa)


 
Sorte é isto. Merecer e ter.

(Guimarães Rosa)


 
O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.Mas o demônio não precisa de existir para haver.

(Guimarães Rosa)


 
Felicidade se acha é em horinhas de descuido

(Guimarães Rosa)


 
Deus come escondido, e o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato.

(Guimarães Rosa)


 
Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante

(Guimarães Rosa)


 
Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela

(Guimarães Rosa)

sábado, 19 de novembro de 2011

Suigni.ficados - Presitiados

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A ´nha comadri Poeiras, há qu´ans qu´ei poêras, mas...nunca mais assentó pó...
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O mê vezinho Moinante, passou umas brutas férias no presítio...
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Legenda : Pre.sítio = sítio, do presídio
(ou, Presí.tio = presído...do Tio)
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PataNegra

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Desejos vãos, de Florbela Espanca :
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Desejos vãos

Florbela Espanca

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Ouvi-los a Todos, no Silêncio de Raúl Germano Brandão :
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Ouvi-los a Todos, no Silêncio
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Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Raul Brandão, in 'Húmus'

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Um Poeta por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Quadras do poeta António Aleixo, por Francisco Fanhais  :
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Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
os que os homens são no fundo

P´rá mentira ser segura
e atingir profundidade
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão

Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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A solidão e sua porta - Carlos Pena Filho :
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A Solidão e Sua Porta
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.No meu jardim - Miguel Torga  :
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No meu jardim

No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

MIGUEL TORGA, in DIÁRIO VIII (1959), in ANTOLOGIA POÉTICA

domingo, 13 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Poema de um funcionário cansado - António Ramos Rosa :
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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

sábado, 12 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Debaixo do Tamarindo - Augusto dos Anjos :
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No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

                                                                  Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
                                                                  Guarda, como uma caixa derradeira,
                                                                  O passado da flora brasileira
                                                                  E a paleontologia dos Carvalhos!

                                                                 Quando pararem todos os relógios
                                                                 De minha vida, e a voz dos necrológios
                                                                Gritar nos noticiários que eu morri,

                                                                Voltando à pátria da homogeneidade,
                                                                Abraçada com a própria Eternidade,
                                                                A minha sombra há de ficar aqui!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Acordai - Jose Gomes Ferreira :
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Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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            A   C U L P A

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A culpa é do pólen dos pinheiros

Dos juízes, padres e mineiros

Dos turistas que vagueiam nas ruas

Das strippers que nunca se põem nuas

Da encefalopatia espongiforme bovina

Do Júlio de Matos, do João, da Catarina

A culpa é dos frangos com HN1

E dos pobres que já não têm nenhum

A culpa é das prostitutas que não pagam impostos

Que deviam ser pagos também pelos mortos

A culpa é dos reformados e desempregados

Cambada de malandros feios, excomungados

A culpa é dos que têm uma vida sã

E da ociosa Eva que comeu a maçã

A culpa é do Eusébio que já não joga a bola

E daqueles que não batem bem da tola

A culpa é dos putos da casa Pia

Que mentem, de noite e de dia

A culpa é dos traidores que emigram

E dos patriotas que ficam e mendigam

A culpa é do Partido Social Democrata

E de todos aqueles que usam gravata

A culpa é do BE, do CDS e do PCP

E dos que não querem o TGV

A culpa até pode ser do urso que hiberna

Mas não será nunca de quem (se) Governa.
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(Autor desconhecido)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Veleiro, de Torquato Neto, por Elis Regina :
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Ê, ô, tá na hora e no tempo
Vamos lá que esse vento traz
Recado de partir

Beira de praia
Não faz mal que se deixe
Se o caminho da gente vai pro mar

Eu vou, tanta praia deixando
Sem saber até quando eu vou
Quando eu vou, quando eu vou voltar

Eu vou pra terra distante
Não tem mar que me espante
Não tem, não

Anda, vem comigo que é tempo
Vem depressa que eu tenho
Braço forte e o rumo certo

Aqui o dia está perto
E é preciso ir embora
Ah, vem comigo nesse veleiro

Tá na hora e no tempo, ê, ô
Vamos embora no vento, ê, ô

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Fado para a Lua de Lisboa - David Mourão-Ferreira :
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Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!
-
Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.
-
As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.
-
Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemuha
dos fogos da Inquisição.
-
Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...
-
Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!
-
Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Retrato, de Cecília Meireles, por Paulo Autran :
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Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

domingo, 6 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Chamo-te - Sophia de Mello Breyner Andresen :
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Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Asas Brancas - a partir de um poema de Almeida Garrett :
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ASAS BRANCAS

Quando era pequenino a desventura
Trazia-me saudoso e triste o rosto,
Assim como quem sofre algum desgosto,
Assim como quem chora de amargura.

Um anjo de asas brancas muito finas,
Sabendo-me infeliz mas inocente,
Cedeu-me as suas asas pequeninas,
Para me ver voar e ser contente.

As asas de criança, meu tesoiro,
Ao ver-me assim tão triste, iam ao céu...
Tão brancas, tão macias -- penas de oiro --
Tão leves como a aragem... como eu!

Cresci. Cresceram culpas juntamente,
Já grandes são as mágoas mais pequenas!
As asas brancas vão-se... e ficam penas!
Não mais subi ao céu, nem fui contente.

sábado, 5 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Devia morrer-se de outra maneira, de José Gomes Ferreira :
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José Gomes Ferreira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Canção do exílio, de Gonçalves Dias, por Paulo Autran :
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Canção do exílio


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Canção de uma sombra, de Teixeira de Pascoaes, por Carlos Carranca :
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TEIXEIRA DE PASCOAES - CANÇÃO DUMA SOMBRA


Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das coisas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os espectros à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro vôo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.A bela Dama sem piedade - John Keats :
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A Bela Dama Sem Piedade

John Keats
(1795--1821)

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
John KeatsSozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
John KeatsE nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
KeatsSua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
KeatsE a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
John KeatsÚmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
John KeatsRapidamente desvanescendo também.


Eu encontrei uma dama nos campos,
PoesiaTão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
PoesiaE selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
PoesiaE braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
PoesiaE suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
PoesiaE nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
PoesiaUma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
Poesiamel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse...
Poesia"Verdadeiramente eu te amo."

Ela me levou para sua caverna de fada,
PoesiaE lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
PoesiaCom quatro beijos.

Ela ela cantou docemente para que eu dormisse
PoesiaE lá eu sonhei...Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
PoesiaNesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
PoesiaPálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram..."A Bela Dama sem Piedade
PoesiaTem você escravizado!"

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
PoesiaAbertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
PoesiaNesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
PoesiaSozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
PoesiaE nenhum pássaro canta.