Nasci para ser ignorante - Sebastião da Gama :
.
.
Nasci para ser ignorante
mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.
Que remédio? Obedeci. mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.
espreita p'la fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.
de tuta-e-meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.
Sem comentários:
Enviar um comentário