terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

." Mar" - Miguel Torga :
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Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Mateando  - Jaime Caetano Braun :
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Meu patrício
Aí foi o mate
Vá chupando despacito
Que é triste matear solito
Quando a velhice nos bate
Por isso, neste arremate
Que chegou no arrepio
Meu velho peito vazio
Que já teve tanta dona
Ressonga que nem cordeona
Nos bailes de rancherio
Não é que me falte fibra
Nem firmeza no garrão
Pois meu velho coração
Bem com passado ainda vibra
Quem gastou libra por libra
Da sorte fazendo alarde
Não cala por ser covarde
Nem chora por ser manheiro
Lamenta el sol verdadeiro
Que vai borcando na tarde
É a saudade
Essa punilha
Que vai nos roendo canal
Esse caruncho infernal
Que fura até curunilha
É a derradeira tropilha
Da vida martironiada
Que chegando ao fim da estrada
Se dá conta num segundo
Que veio e vai deste mundo
Sofrendo a troco de nada
É triste matear sozinho
De tarde ou de madrugada
Amargando a paleteada
De algum passado carinho
Como dói lembrar o ninho
Que o tempo levou na enchente
Mas porém deixou semente
De tristeza e de amargura
Pra reviver a ternura
De alguém que já foi da gente
É por isso meu Patrício
Que não mateio solito
Embora o verde bendito
Pra mim seja mais que vício
É o meu último munício
Que não despenso, nem largo
E peço a Deus
Sem embargo
Da xucreza do meu canto
Que no céu
Me guarde um santo
Parceiro pra um mate amargo

domingo, 29 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.The Road Not Taken - Robert Frost :
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Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia...
Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.
E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
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Tradução de Renato Suttana

sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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A SEGUNDA VINDA  - William Butler Yeats

A girar e a girar, num amplo círculo,

O falcão já não ouve o falcoeiro:

As coisas desmoronam, sem um centro;

Mera anarquia alastra-se no mundo;

Cresce uma onda de sangue, e em toda parte

Se afoga a cerimônia da inocência;

Hesitam os melhores, e os piores

Estão cheios de acesa intensidade.


Por certo é próximo um desvelamento;

Por certo é próxima a Segunda Vinda.

Segunda Vinda! Ah, mal o pronuncio,

E vasta imagem do Spiritus Mundi

Turva meu olho: algures, no deserto,

Uma forma de leão com rosto de homem –

Olhar vazio e duro como o sol –

As lentas coxas move, enquanto em volta

Pairam sombras de pássaros irados.

Desce a treva outra vez; mas sei agora

Que vinte séculos de um sono pétreo

Levou ao pesadelo um simples berço;

E, chegada a ocasião, que rude fera

Se arrasta até Belém para nascer?
.
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Quando estiveres velha e grisalha, e cabeceares
De sono à beira da lareira, pega este livro,
e lentamente lê, e sonha com a aparência suave
Que tinham outrora teus olhos, e suas sombras densas;

Muitos amaram teus momentos de alegre graça,
e tua beleza, com falso ou vero amor,
Mas um homem amou a alma peregrina em ti,
E as mágoas de teu rosto sempre a mudar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.UM POEMA DE LEWIS CARROLL :
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ACERTE OU ERRE
(Pares de premissas em busca de conclusões)
Nenhum careca necessita pente;
Nenhum lagarto tem cabelo.

Alfinetes não são ambiciosos;
Agulhas não são alfinetes.

Algumas ostras estão caladas;
Pessoas caladas não são divertidas.

Rãs não escrevem livros;
Algumas pessoas usam tinta para escrever livros.

Certas montanhas são intransponíveis;
Todos os estilos podem ser transponíveis.

Nenhuma lagosta é insensata;
Nenhuma pessoa sensata espera impossibilidades.

Nenhum fóssil pode ser em amor cruzado;
Uma ostra pode ser em amor cruzada.

Um homem prudente evita hienas;
Nenhum banqueiro é imprudente.

Nenhum sovina é altruísta;
Só os sovinas guardam cascas de ovo.

Nenhum militar escreve poesia;
Nenhum general é civil.

Todas as corujas são satisfatórias;
Certas desculpas são insatisfatórias.

Tradução: José Lino Grünewald

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.To a Mouse - Robert Burns :
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Wee, sleekit, cowran, tim'rous beastie,
O, what a panic's in thy breastie!
Thou need na start awa sae hasty,
Wi' bickering brattle!
I wad be laith to rin an' chase thee,
Wi' murd'ring pattle!
I'm truly sorry Man's dominion
Has broken Nature's social union,
An' justifies that ill opinion,
Which makes thee startle,
At me, thy poor, earth-born companion,
An' fellow-mortal!
I doubt na, whyles, but thou may thieve;
What then? poor beastie, thou maun live!
A daimen-icker in a thrave 'S a sma' request:
I'll get a blessin wi' the lave,
An' never miss't!
Thy wee-bit housie, too, in ruin!
It's silly wa's the win's are strewin!
An' naething, now, to big a new ane,
O' foggage green!
An' bleak December's winds ensuin,
Baith snell an' keen!
Thou saw the fields laid bare an' wast,
An' weary Winter comin fast,
An' cozie here, beneath the blast,
Thou thought to dwell,
Till crash! the cruel coulter past
Out thro' thy cell.
That wee-bit heap o' leaves an' stibble,
Has cost thee monie a weary nibble!
Now thou's turn'd out, for a' thy trouble,
But house or hald.
To thole the Winter's sleety dribble,
An' cranreuch cauld!
But Mousie, thou are no thy-lane,
In proving foresight may be vain:
The best laid schemes o' Mice an' Men,
Gang aft agley,
An' lea'e us nought but grief an' pain,
For promis'd joy!
Still, thou art blest, compar'd wi' me!
The present only toucheth thee:
But Och! I backward cast my e'e,
On prospects drear!
An' forward, tho' I canna see,
I guess an' fear!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Pequeno Poema - Sandro Penna :
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"Poeta exclusivo do amor"
me chamaram. E era talvez certo.
Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores
da cidade longínqua
não são eles também amor?
Sob nuvens quentes
não são ainda o som
de um amor que arde
e não mais se afasta?
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Sandro Penna - tradução de David Mourão Ferreira

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.- Antes que seja tarde - Manuel da Fonseca :
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Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Há nas matas cerradas um prazer
Há nas encostas solitárias um arrebatamento
Há sociedade, onde ninguém pode intrometer
Pelo mar profundo, e música em seu lamento :
Eu não amo menos ao Homem, mas à Natureza mais
Dessas nossas entrevistas, nas quais capturo
De tudo o que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás
Para me misturar ao Universo, e sentir puro
O que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder.
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Lord Byron

sábado, 21 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Urgentemente - Eugénio de Andrade
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É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Vaso Grego - Alberto de Oliveira  :
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Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que o suspendia
Então, e, ora repleta, ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Tôda de roxas pétalas colmada.

Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de olhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fôsse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fôsse.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poética do Eremita - Fiama Hasse Paes de Brandão :
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No deserto,
Estão secas,
As pedras.
Que no mar se molhavam,
A semelhança confunde
O eremita
Que solitário demais
passou o tempo
entregando-se à solitária memória

Aqui, a pedra seca
para o eremita,
não perdeu
A qualidade úmida
de poder
ter estado ao pé do mar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Meu Amor, Meu Amor - Ary dos Santos :
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Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.No meu jardim - Miguel Torga :
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No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Dia de anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quarta feira
Cinquenta e… , que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!
Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.
Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!
João de Deus

domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Flor da mocidade - Machado de Assis :

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Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.


Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.


Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Peço a Paz - Casimiro de Brito :
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Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Por Todos os Caminhos do Mundo - Fernando Namora
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A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

Não sei caminhos de cor.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.O Amor - Vladimir Maiakovski :
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Talvez, quem sabe, um dia
por uma alameda do zoológico
ela também chegará
ela que também amava os animais
entrará sorridente assim como está
na foto sobre a mesa
ela é tão bonita
ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
o século trinta vencerá
o coração destroçado já
pelas mesquinharias
agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar
na vida
com o estrelar das noites inumeráveis

ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro

ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
ressuscita-me por isso

ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida, para que não mais existam amores servis

ressuscita-me
para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco

ressuscita-me
para que a partir de hoje a partir de hoje
a família se transforme
e o pai seja pelo menos o Universo
e a mãe
seja no mínimo a Terra
a Terra
a Terra

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Há-de flutuar uma cidade no crepusculo da vida - Al Berto
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Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Dame la Mano  - GABRIELA MISTRAL :
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DA-ME TUA MÃO
Da-me tua mão, e dançaremos;
da-me tua mão e me amarás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flora, e nada mais.
O mesmo verso cantaremos,
no mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.
Chamas-te Rosa e eu Esperança;
Porém teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina, e nada mais.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Soneto ao Inverno - Vinicius de Moraes :
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Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

domingo, 8 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Cai a Chuva AbandonadaCai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal - Sophia de Mello Breyner Andresen :
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Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.E tudo era possível - Ruy Belo :
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Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio e era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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The Hollow Men -  T.S. Eliot :
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Os Homens Ocos


I Eu
We are the hollow men Nós somos os homens ocos
We are the stuffed men Nós somos os homens empalhados
Leaning together Inclinando-se juntos
Headpiece filled with straw . Capacete cheio de palha . Alas! Ai de mim!
Our dried voices, when Nossas vozes secas, quando
5 5
We whisper together Nós sussurro juntos
Are quiet and meaningless São silenciosos e sem sentido
As wind in dry grass Como o vento na grama seca
Or rats' feet over broken glass Ou ratos pés sobre vidro quebrado
10 10
In our dry cellar Em nossa adega seca
Shape without form, shade without colour, Forma sem forma, sombra sem cor,
Paralysed force, gesture without motion; Paralysed força, gesto sem movimento;
Those who have crossed Aqueles que atravessaram
With direct eyes, to death's other Kingdom Com os olhos diretos, ao Reino de outros da morte
Remember us - if at all - not as lost Lembre-se de nós - se em tudo - não como perdido
15 15
Violent souls, but only Almas violentas, mas apenas
As the hollow men Como os homens ocos
The stuffed men. Os homens empalhados.
II II
Eyes I dare not meet in dreams Olhos não me atrevo a reunir-se em sonhos
In death's dream kingdom No reino de sonho da morte
20 20
These do not appear: Estes não aparecem:
There, the eyes are Lá, os olhos são
Sunlight on a broken column Luz solar em uma coluna quebrada
There, is a tree swinging Lá, é uma árvore balançando
And voices are E as vozes são
25 25
In the wind's singing No canto do vento
More distant and more solemn Mais distantes e mais solene
Than a fading star. Do que uma estrela desvanecendo-se.
Let me be no nearer Deixe-me ser não mais perto
In death's dream kingdom No reino de sonho da morte
30 30
Let me also wear Permitam-me também o desgaste
Such deliberate disguises Tais disfarces deliberada
Rat's coat, crowskin, crossed staves Casaco de rato, crowskin, cruzou aduelas
In a field Em um campo
Behaving as the wind behaves Comportando-se como o vento se comporta
35 35
No nearer - Sem mais perto -
Not that final meeting Não encontro, que finais
In the twilight kingdom No reino crepuscular
III III
This is the dead land Esta é a terra morta
This is cactus land Esta é a terra do cacto
40 40
Here the stone images Aqui as imagens de pedra
Are raised, here they receive São levantadas, aqui eles recebem
The supplication of a dead man's hand A súplica da mão de um homem morto
Under the twinkle of a fading star. Sob o brilho de uma estrela desvanecendo-se.
Is it like this É assim
45 45
In death's other kingdom Em outro reino da morte
Waking alone Acordar sozinho
At the hour when we are Na hora em que estamos
Trembling with tenderness Tremendo de ternura
Lips that would kiss Lábios que beijo
50 50
Form prayers to broken stone . Formulário de orações a pedra quebrada .
IV IV
The eyes are not here Os olhos não estão aqui
There are no eyes here Não há olhos aqui
In this valley of dying stars Neste vale de estrelas moribundas
In this hollow valley Neste vale oco
55 55
This broken jaw of our lost kingdoms Esta mandíbula quebrada de nossos reinos perdidos
In this last of meeting places Neste último dos pontos de encontro
We grope together Nós grope juntos
And avoid speech E evitar o discurso
Gathered on this beach of the tumid river Reunidos na praia do rio intumescido
60 60
Sightless, unless Cegos, a menos
The eyes reappear O reaparecer olhos
As the perpetual star Como a estrela perpétua
Multifoliate rose Multifoliate rosa
Of death's twilight kingdom Da morte do crepúsculo reino
65 65
The hope only A única esperança
Of empty men. De homens vazios.
V V
Here we go round the prickly pear Aqui vamos nós ao redor do pera espinhosa
Prickly pear prickly pear Pera pera espinhosa
Here we go round the prickly pear Aqui vamos nós ao redor do pera espinhosa
70 70
At five o'clock in the morning . Às cinco horas da manhã .
Between the idea Entre a idéia
And the reality E a realidade
Between the motion Entre o movimento
And the act Eo ato
75 75
Falls the Shadow Cai a Sombra
For Thine is the Kingdom Pois Teu é o Reino
Between the conception Entre a concepção
And the creation Ea criação
Between the emotion Entre a emoção
80 80
And the response Ea resposta
Falls the Shadow Cai a Sombra
Life is very long A vida é muito longa
Between the desire Entre o desejo
And the spasm E o espasmo
85 85
Between the potency Entre a potência
And the existence Ea existência
Between the essence Entre a essência
And the descent Ea descida
Falls the Shadow Cai a Sombra
90 90
For Thine is the Kingdom Pois Teu é o Reino
For Thine is Pois Teu é
Life is A vida é
For Thine is the Pois Teu é o
This is the way the world ends Esta é a maneira como o mundo termina
95 95
This is the way the world ends Esta é a maneira como o mundo termina
This is the way the world ends Esta é a maneira como o mundo termina
Not with a bang but a whimper. Não com um estrondo, mas um gemido.