sábado, 31 de março de 2012

REC. - Reabilitação de Edifícios

.Ao editar fotos de edifícios-históricos portugueses (para inclusão na rubrica "Imagens do Mundo") deparo, frequentemente, com belos imóveis (repletos de História e de Arte), mas em total estado de abandono e degradação.

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Mete dó, vermos perder-se muita da nossa Memória-colectiva, apenas por uma questão de incúria. É certo que herdámos uma pesada-herança de património da nossa Época-dourada, para o qual os actuais Estado e Autarquias não têm possibilidades de acorrer na totalidade : Muitos Mosteiros e Conventos, abandonados pelas Ordens-religiosas, foram adaptados a Escolas, Hospitais, Lares, Tribunais, etc.; Muitos dos Palacetes e Chalets, abandonados pela Nobreza e pela Burguesia, foram transformados em Centros-de-Dia, Bibliotecas, Museus, Centros Culturais, etc. Mas, para além das dispendiosas obras de recuperação, há toda uma série de custos de manutenção e funcionamento, que são incomportáveis para o Erário-público.

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Seria através da esfera-privada que se conseguiria a tão desejada reabilitação desses nobres Edifícios mas, com excepção de algumas adaptações a Turismo-de-Habitação, Sedes-de-Empresas ou Pousadas, pouco se vê fazer nesse sentido : A maioria dos nossos Construtores-Civis não passam de "patos-bravos", sem qualquer Cultura ou sensibilidade (para não deixarem ruir pedaços da nossa História, feitos de forma que já ninguém, hoje em dia, sabe imitar, e com materiais que não existem mais). Preferem construir mamarrachos (tipo caixote - que é tudo o que sabem fazer), a adquirirem conhecimentos na recuperação de antiguidades, pois apenas conseguem vislumbrar o Lucro-imediato.
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Competiria ao Estado dar-lhes incentivos-fiscais para que, já que só pensam em dinheiro, se tentarem a investir nessa Área (salvaguardando a traça original dos Imóveis); O último Governo ainda chegou a equacionar promover a reabilitação-urbana; Mas, com este, tudo acabou por cair em saco-roto.
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Já que andam a inventar trabalhos, para darem dinheiros-públicos a ganhar aos Empreiteiros (em arranjos urbanísticos modernaços, de mau-gosto e reduzida utilidade), mais valia que empregassem essas verbas na reabilitação do nosso Património, com o que todos ganharíamos !
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E assim se vão deixando arruinar, a pouco-e-pouco, pedaços da nossa Memória...

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Se me saísse uma grossa maquia, aplicá-la-ia na reconstrução e restauro desses Edifícios, para sua posterior cedência a Instituições-Culturais ou de Solidariedade-Social.
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Picareta Escribante

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Mon reve familier - Paul Verlaine :
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O Meu Sonho Habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 30 de março de 2012

.ESTATUTOS DO HOMEM - THIAGO DE MELLO :
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Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Canción del pirata - José de Espronceda  :
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A CANÇÃO DO PIRATA
Com doze canhões por banda,
Vento em popa, a todo pano
Voa, não corre, no oceano
Um veleiro bergantim;
Baixel pirata, que chamam
Por seus feitos "O Temido",
Em todo o mar conhecido
De Marselha a Bombaim.

Treme a lua sobre as águas;
Nos rinzes suspira o vento,
E ergue em brado movimento
Orlas de prata e de azul.
Ei-lo, o capitão pirata,
Que vai cantando na popa,
Ásia a um bordo, a outro a Europa,
E pela proa Estambul.

"Voga, meu barco, navega
"Sem temor;
"Nem forte nau na refrega,
"Nem procela, ou calmaria "
Do teu rumo te desvia,
Ou sujeita o teu valor.
"Vinte presas
"Tenho feito
"Em despeito
"Té do inglês:
"E abateram
"Pendões vários
"Cem contrários
"A meus pés.

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento, e os céus!
"Além movam feroz guerra
"Cegos reis
"Por mais um palmo de terra;
"Que eu aqui tenho por meu
"Quanto avisto em mar e céu,
"A quem nada vem dar leis.
"Nem bandeiras
"Sobranceira
"Nem bandeira
"De esplendor,
"Que não ceda
"De repente,
Ë me alente
"Meu valor.

"O meu barco é meu tesouro
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, vento, e os céus!
"A voz: - "D'avante uma vela!
"É de ver
"Como tudo se acautela
"Panos cheios a escapar;
"Que eu sou déspota do mar,
"Minha fúria é de temer,
"Nós despojos
"O colhido
"Eu divido
"Por igual,
"E só guardo
"Dessa presa
"A beleza
"Sem rival.

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade o meu Deus,
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus.


"Condenado estou à morte!
"Disso rio.
"Se não me abandona a sorte
"O mesmo que me condena
"Penderá de alguma antena
"Talvez no próprio navio.
"sucumbindo
"Que é a vida?
"Já perdida
"Não a vi,
"Quando o jugo
"Vil de escravo
"Como um bravo
"Sacudi?

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade meu Deus
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus.

"São minha orquestra melhor
"Aguilhões Mas o horríssono tremor
"Desses cabos sacudidos;
"E das vagas os bramidos,
"E o rugir dos meus canhões.
"Quando o raio
"Cruza aos centos
"Eu, dos ventos
"Ao troar,
"Adormeço
"Sossegado,
"Embalado,
"Pelo mar!

"O meu barco é meu tesouro,
"A liberdade meu Deus
"É-me o pego única pátria,
"Lei a força, o vento e os céus."

(Trad. de José da Silva Mendes Leal)  

quarta-feira, 28 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.SÓLO QUIEN AMA VUELA - Miguel Hernández
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Só quem ama voa

Sobrevivem, Miguel, seus versos refugiados
Entre livros de viagens e novelas
Em português neste lado do mundo.
A voz do poeta
Que se impõe sobre a terra,
Voando já sobre este mar poderoso
E tristes praias vazias.
Eu também sou barro ainda que Javier
Me chame.

O vento move os braços
das palmeiras que te buscam.
As palmeiras que levantam
Seus olhos te buscando,
Claros de desejos,
Ardente de asas e penas.

Volto seus versos
Junto aos outros livros
Tão distantes da sua pátria...
Para que todos os olhos te leiam.
Onde faltaram plumas
Pôs valor e esqueço.

terça-feira, 27 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Besos - Gabriela Mistral :

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Há beijos que pronunciam por si mesmos
do amor a sentença peremptória,

há beijos que se dão com um olhar,
há beijos que se dão com a memória.

Há beijos silenciosos, beijos nobres,
Há beijos enigmáticos, sinceros,
Há beijos que se dão só com a alma,
Há beijos proibidos, mas verdadeiros.

Há beijos que queimam e que ferem,
Há beijos que arrebatam os sentidos,
Há beijos misteriosos que deixaram
milhares de sonhos errantes e perdidos.

Há beijos problemáticos que contém
um código que ninguém tem decifrado,
Há beijos que provocam a tragédia
que tantas rosas em botão tem arrasado.

Há beijos perfumados, beijos quentes
que palpitam em íntimos desejos
Há beijos que nos lábios deixam rastros
como um campo de sol entre dois gelos.

Há beijos que parecem açucenas
por serem sublimes, ingênuos e puros,
Há beijos traiçoeiros e covardes,
Há beijos malditos e perjuros.

Judas a Jesus beija e deixa impressa
em seu rosto de Deus a aleivosia,
enquanto Madalena com seus beijos
fortifica piedosa de Jesus a agonia.

Desde então nos beijos pulsa
o amor, a traição e as dores;
nas bocas humanas se parecem
à brisa que brinca com as flores.

Há beijos que produzem desvarios
de amorosa paixão ardente e louca,
você bem os conhece pois são meus
criados por mim para sua boca.

Beijos de fogo que no seu rastro impresso
levam sulcos de um amor vetado,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só nossos lábios tem provado.

Lembra-se do primeiro? Indescritível!
Cobriu sua face de tons vermelhos
e no impulso de uma emoção tão estranha
encheram-se de lágrimas seus olhos.

Lembra-se de que numa tarde de loucura
eu o vi ciumento imaginando ofensas;
segurei-o com meus braços, vibrou um beijo
e viu brotar sangue em meus lábios .

Eu o ensinei a beijar: os beijos frios
são de impassível coração de rocha,
Eu o ensinei a beijar com meus beijos
inventados por mim para a sua boca.
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Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Volverán las oscuras golondrinas - Gustavo Adolfo Becquer :

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Voltarão as escuras andorinhas
em teu balcão seus ninhos a pendurar,
e outra vez com a asa em seus cristais
brincando chamarão;

Mas aquelas que o vôo refreavam
tua formosura e minha felicidade ao contemplar,
aquelas que aprenderam nossos nomes...
Essas... não voltarão!
Voltarão as densas madressilvas
de teu jardim os muros a escalar,
e outra vez na tarde, ainda mais formosas,
suas flores se abrirão;
porém aquelas, coalhadas de orvalho
cujas gotas olhávamos tremer
e cair, como lágrimas do dia...
Essas... não voltarão!
Voltarão do amor em teus ouvidos
as palavras ardentes a soar;
teu coração de seu profundo sono
talvez despertará;
porém mudo e absorto e de joelhos,
como se adora a Deus ante seu altar,
como eu te quis... desengana-te.
Assim não te quererão!

Tradução: Zélia Tellaroli N. Zamora

domingo, 25 de março de 2012

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Antonio Tabucchi - Citações :
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"Os artistas são os bombeiros dos incêndios da democracia"
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"A literatura é uma forma de conhecimento. O que saberíamos do amor se não tivéssemos lido o Otelo, de Shakespeare, Ana Karenina, Madame Bovary?        
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"O livro é uma memória mais longa - tem vantagem sobre um jornal diário porque, no dia seguinte, este serve para embrulhar a salada na mercearia"

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.MEDITAÇÃO - Ruy Cinatti :
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Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.
É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua;
Nave de outros tempos se insinua
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa

sábado, 24 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Oriental - José Zorrilla :
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Corriendo van por la vega
a las puertas de Granada
hasta cuarenta gomeles
y el capitán que los manda.
Al entrar en la ciudad,
parando su yegua blanca,
le dijo éste a una mujer
que entre sus brazos lloraba:
«Enjuga el llanto, cristiana
no me atormentes así,
que tengo yo, mi sultana,
un nuevo Edén para ti.
Tengo un palacio en Granada,
tengo jardines y flores,
tengo una fuente dorada
con más de cien surtidores,
y en la vega del Genil
tengo parda fortaleza,
que será reina entre mil
cuando encierre tu belleza.
Y sobre toda una orilla
extiendo mi señorío;
ni en Córdoba ni en Sevilla
hay un parque como el mio.
Allí la altiva palmera
y el encendido granado,
junto a la frondosa higuera,
cubren el valle y collado.
Allí el robusto nogal,
allí el nópalo amarillo,
allí el sombrío moral
crecen al pie del castillo.
Y olmos tengo en mi alameda
que hasta el cielo se levantan
y en redes de plata y seda
tengo pájaros que cantan.
Y tú mi sultana eres,
que desiertos mis salones
están, mi harén sin mujeres,
mis oídos sin canciones.
Yo te daré terciopelos
y perfumes orientales;
de Grecia te traeré velos
y de Cachemira chales.
Y te dará blancas plumas
para que adornes tu frente,
más blanca que las espumas
de nuestros mares de Oriente.
Y perlas para el cabello,
y baños para el calor,
y collares para el cuello;
para los labios... ¡amor!»
«¿Qué me valen tus riquezas
-respondióle la cristiana-,
si me quitas a mi padre,
mis amigos y mis damas?
Vuélveme, vuélveme, moro
a mi padre y a mi patria,
que mis torres de León
valen más que tu Granada.»
Escuchóla en paz el moro,
y manoseando su barba,
dijo como quien medita,
en la mejilla una lágrima:
«Si tus castillos mejores
que nuestros jardines son,
y son más bellas tus flores,
por ser tuyas, en León,
y tú diste tus amores
a alguno de tus guerreros,
hurí del Edén, no llores;
vete con tus caballeros.»
Y dándole su caballo
y la mitad de su guardia,
el capitán de los moros
volvió en silencio la espalda.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.The Cataract Of Lodore - Robert Southey :
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1.. - De que modo desce
A água de Lodore?
Perguntou-me, certa vez, meu filhinho
Querendo que lhe mostrasse tudo
E o fizesse em forma de versos rimados
Logo logo, ouvindo isso
Primeiro surgiu a irmã
Depois, outra, para repetir e reforçar
O pedido do irmãozinho:
Saber de que modo a água
De Lodore despencava
Com seu ímpeto e seu rugido,
Tal como tantas vezes a viram antes.
Dessa maneira, lhes narrei em rimas
Pois de rimas entendo do riscado.
Isso com talento dominava
Para seu regozijo a mim
Cabia cantar-lhes
Já que para elas Laureado era
Tanto quanto era rei.

2. Desde suas origens
Que bem vinham dar no lagozinho montanhoso;
De suas nascentes
Nas montanhas,
De seus canais e córregos,
Através de musgos e matagais
Correm suas águas , que se arrastam
Por um momento até adormecerem
No próprio lagozinho.
Daí pra frente, dando partida
Passam elas pelos juncos
E, na distância, se perdem
Pelos prados e clareiras
Sob sol, sob sombras,
Sob o abrigo das florestas,
No meio dos despenhadeiros em sua agitação,
Confusamente,
Precipitadamente.
Neste ponto vêm cintilando,
Mais adiante, jazem se escondendo;
Agora esfumaçando, espumando
Tumultudas, raivosas
Até que, nesta célere corrida,
Formando uma curva,
Alcançam o lugar
Na sua íngreme queda.

3. A portentosa queda’água
Lança-se das alturas,
Batendo, se enfurecendo,
Como se combatendo em guerra estivesse
Entre cavernas e rochas,
Erguendo-se, saltando,
Afundando-se, se arrastando,
Inchando, varrendo,
Inundando, pulando,
Voando, se arremetendo,
Contorcendo-se, retinindo,
Redemoinhando, espanando,
Esguichando, cabriolando,
Volteando, torcendo
Incessantemente,
Com um reboar sem fim;
Golpeando, lutando,
Numa visão bela nunca antes vista;
Desconcertante, ensurdecedora.

4.. Reunindo, projetando,
Retardando, se apressando,
Chocando-se, sacudindo,
Dardejando, dividin do,
Enfileirando, espalhando,
Zunindo, sibilando,
Gotejando, saltando,
Batendo, rachando,
Brilhando, juntando,
Ribombando, pelejando,
Sacudindo, estremecendo,
Ondulando, enfurecendo,
Agitando-se, cruzando,
Fluindo, se removendo,
Correndo, assustando,
Espumando, vagando,
Atroando, enovelando,
Caindo, saltando,
Esforçando-se, arrancando,
Borbulhando, grunhindo.

5,. Reluzindo, se fragmentando,
Reunindo, flutuando,
Alvejando, brilhando,
Agitando-se, se despedaçando,
Apressando-se, levemente correndo
Trovejando, se esponjando,


6. Reluzindo, se fragmentando, flutuando,
Caindo, brigando, se expandindo,
Empuxando, rasgando, se esforçando,
Salpicando, cintilando, se encrespando,
Reboando, ricocheteando, se multiplicando,
Trovejando, troando, desabando,
Estalejando, bombardeando, se esfacelando.

7. Retorcendo, batendo, encontrando-se, se cobrindo,
Retardando, se perdendo, brincando,
Avançando, empinando, reluzindo, dançando,
Rechaçando, tumultuando, mourejando, fervendo
Vislumbrando, fluindo, evaporando, irradiando,
Precipitando-se, borbotando, esbarrando, esguichando,
Agitando, golpeando, estrondando, esbofeteando,
Espiralando, rodopiando, remoinhando, girando,
Golpeando surdamente, baqueando, colidindo,pulando,
Salpicando, flamejando, esparramando, estrepitando,
Incessantemente, sempre, porém, em queda,
Para todo sempre misturando-se sons e movimentos,
Num só jato, num todo indiviso,
Assim saltam as águas de Ladore.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

."Teia" - Lau Siqueira :
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teia

então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas

como uma sombra entre sombras

sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano
apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma



perdi o que
não era essência



e agora
pleno de mim
não sei nem sou

quarta-feira, 21 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Outra Margem - Maria Rosa Colaço :
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E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p'rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p'rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p'rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

terça-feira, 20 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Braços - Cruz e Sousa :
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Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
Dos teus abraços de letais flexuras,
Produzem sensações de agres torturas,
Dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
Que prendem, tetanizam como os herpes,
Dos delírios na trêmula coorte…

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
Braços de estranhas correções marmóreas,
Abertos para o Amor e para a Morte!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.O teu retrato - António Nobre :
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Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha noite, eu fiz a claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

sábado, 17 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Poema Destinado a Haver Domingo - Natália Correia :
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Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Muerte sin fin - José Gorostiza :
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Morte sem Fim (trechos)
A CASA DO SILÊNCIO

Ergue-se numa dobra da montanha,
Com o capuz de telhas carcomido.
E parece tão dócil
que se comove com o ruído
de uma árvore vizinha, onde sonha
o amoroso conclave de um ninho.


Ninguém talvez a tenha habitado
Nem querido,
e lá nunca vivessem homens;
mas o seu lento coração palpita
com profundo pulsar de resignado
quando o rumor a fere
e sangra pelo trêmulo costado.


Imagino, na casa do silêncio,
um pátio luminoso, decorado
pela erva que rói os canais
e um muro despintado
ao cair das chuvas torrenciais.

E nas noites azuis,
penso-a conturbada se pressente
um balbucio de luz nos escabelos,
e ouço-a verter com um ruído
quase imperceptível já, contido,
seu choro paternal de três mil anos.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Les Illes - Vicent Andrés  Estellés:
.
.
Teuladins de la plaça de Santa Eulari

adéu, adéu, adéu

me'n vaig i no sé quan podré tornar a l'illa.



He estimat molt una illa

ella volia ser lliure i no es volia casar

alegre i graciosa com una palmera.



El moribund us prega encara amb un fil de veu

parleu-me de les illes

És de debò que Eivissa s'ha casat?



Totes les illes de la mar

s'agafen de la mà i canten i ballen

ara que ets lliure, oh! Cuba.



Illes de cap al tard...

com un enyoro llimes i taronges

volaven les parres.



Menorca la bella

damunt Maó la lluna

i el sol dorm a Ciutadella.

Anit vaig somiar

que em naixia una illa

uns homes la trossejaven

ai! Dragonera petita.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.AS DUAS ROSAS - Castro Alves :
.
.
I
São duas rosas unidas,
São duas flores nascidas
Talvez no mesmo arrebol.
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
II
Vivendo... bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho no céu.
Como um casal de rolinhas
como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
III
Vivendo, bem como os prantos
Que em parelhas descem tantos
Das profundezas do olhar.
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
IV
Vivendo... ai, quem pudera,
Numa eterna primavera,
Viver qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Meus Olhos que por alguem - Antonio Botto :

.
Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim
Já não choram por ninguém
- Basta que chorem por mim
Arrependidos e olhando
A vida como ela é,
Meus olhos vão conquistando
Mais fadiga e menos fé.
Mas se as coisas são assim,
Chorar alguém - que loucura!
- Basta que eu chore por mim.

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.MADRIGAL - Torquato Tasso :
.
.
Qual orvalho, ou qual pranto,
que lágrimas aquelas
que correrem do noturno manto
e do luzente rosto das estrelas?
E por que semeou a branca lua
nuvens negras de gotas cristalinas
à relva das colinas?
Por que na noite escura
se ouviram, como gritos, mundo afora
caçar o vento a aurora?
Foram sinais, talvez, de que partiste
e eu, mudo, fiquei triste?

segunda-feira, 12 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.- Guacira -Joracy Camargo :

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Adeus guacira
Meu pedacinho de terra!
Meu pé-de-serra
Que nem deus sabe onde está

Adeus guacira
Onde a lua pequenina
Não encontra na colina
Nenhum lago prá se olhar!

Eu vou-me embora
Mas eu volto qualquer dia
Virgem maria tudo há de permitir
E se ela não quiser
Eu vou morrer cheio de fé
Pensando em ti

sábado, 10 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.A valsa - Casimiro de Abreu :
.
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em 06/10/2007 21:40:00 (12915 leituras)
Casimiro de Abreu
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...


Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...


Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!


Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...


Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!


Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!


Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!


Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!


 

sexta-feira, 9 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Santos Vega - Rafael Obligado :
.
.
Santos Vega, el payador, aquél de la larga fama, murió cantando su amor como el pájaro en la rama - Cantar popular -
Cuando la tarde se inclina
sollozando al occidente,
corre una sombra doliente
sobre la pampa argentina.
Y cuando el sol ilumina
con luz brillante y serena
del ancho campo la escena,
la melancólica sombra
huye besando su alfombra
con el afán de la pena.

Cuentan los criollos del suelo
que, en tibia noche de luna,
en solitaria laguna
para la sombra su vuelo;
que allí se ensancha, y un velo
va sobre el agua formando,
mientras se goza escuchando
por singular beneficio,
el incesante bullicio
que hacen las olas rodando.

Dicen que, en noche nublada,
si su guitarra algún mozo
en el crucero del pozo
deja de intento colgada,
llega la sombra callada
y, al envolverla en su manto,
suena el preludio de un canto
entre las cuerdas dormidas,
cuerdas que vibran heridas
como por gotas de llanto.

Cuentan que en noche de aquellas
en que la Pampa se abisma
en la extensión de sí misma
sin su corona de estrellas,
sobre las lomas más bellas,
donde hay más trébol risueño,
luce una antorcha sin dueño
entre una niebla indecisa,
para que temple la brisa
las blandas alas del sueño.

Mas, si trocado el desmayo
en tempestad de su seno,
estalla el cóncavo trueno,
que es la palabra del rayo,
hiere al ombú de soslayo
rojiza sierpe de llamas,
que, calcinando sus ramas,
serpea, corre y asciende,
y en la alta copa desprende
brillante lluvia de escamas.

Cuando, en las siestas de estío,
las brillazones remedan
vastos oleajes que ruedan
sobre fantástico río,
mudo, abismado y sombrío,
baja un jinete la falda
tinta de bella esmeralda,
llega a las márgenes solas...
¡y hunde su potro en las olas,
con la guitarra a la espalda!

Si entonces cruza a lo lejos,
galopando sobre el llano
solitario, algún paisano,
viendo al otro en los reflejos
de aquel abismo de espejos,
siente indecibles quebrantos,
y, alzando en vez de sus cantos
una oración de ternura,
al persignarse murmura:
"-¡El alma del viejo Santos!"

Yo, que en la tierra he nacido
donde ese genio ha cantado,
y el pampero he respirado
que al payador ha nutrido,
beso este suelo querido
que a mis caricias se entrega,
mientras de orgullo me anega
la convicción de que es mía
¡la patria de Echeverría,
la tierra de Santos Vega!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma Poesia por dia nem sabe o bem que lhe faria

.Amo-te - Elizabeth Barrett Browning :
.
.
Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade
.
(Tradução: Manuel Bandeira)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.A minha oração - Mario Rainho :
.
.
Não foi menino de coro,
Nunca aprendi a rezar;
Mas apreendi este choro
que a vida me soube dar.

Esta mágoa na garganta,
Com que canto os meus refezes;
Diz o povo que quem canta
Reza sempre duas vezes.

Cada verso, uma oração,
Um Padre Nosso rezado;
E na minha confissão
Vão as rimas do meu fado

Nunca apreendi a rezar,
A erguer as mãos aos ceus;
Mas eu sinto que ao cantar
Estou a conversar com Deus.

terça-feira, 6 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Havemos de ir a Viana  - Pedro Homem de Mello :
.
.
Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Dois Anos de Facebook

. Mais um Ano se passou, participando diariamente no Face.

Devido a terem surgido outros compromissos, relacionados com uma Universidade Sénior, já não me é possível "facebookiar" com a mesma intensidade, pelo que o número de postagens (e de likes/comentários/partilhas) baixou significativamente. Mesmo assim, é frequente ultrapassar as 200 aprovações.

Face à manifesta falta de tempo, tive que deixar de actualizar os meus Grupos (também, porque o Face lhes introduziu alterações), desligar-me dos Grupos a que me continuavam adicionando, e não corresponder às constantes solicitações para Convites, Jogos e Aplicações (pelo facto, as minhas desculpas aos seus promotores e utilizadores).

Conto, presentemente, com 872 Amigos (21 dos quais subscrevem em permanência as minhas actualizações).

Mantenho, às 8 horas, a rubrica "Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria", (saída do blog "Sapoência"), seguida de uma pequena laracha, intitulada "Hoje acordi...".

Das 19 até cerca das 20h30, é a vez das Efemérides-artísticas; a título de "intervalo", entre os Falecimentos e os Nascimentos, publico "Imagens do Mundo" (saídas do blog "Bocas Foleiras"); e, entre os Nascimentos e os Acontecimentos, é a vez dos "Suigni.ficados" (saídos do blog "Vais aonde").

Das 20h30 às 21h30 tenho editado, ultimamente, uma rubrica-humorística, dedicada aos mês Pimos, e a outros cão.cidadãos.

Procuro, assim, deixar uma marca de boa-disposição, para ajudar a animar o Serão (e servir de cão.traponto, ao churrilho-de-desgraças, dos Telejornais).

Recentemente, por imposição do Face, tive que mudar o meu pseudónimo, de "Picareta Escribante" para "Nélito Olivas"; mas continuarei, sempre, a ser o mesmo Picas...miolos.

O meu Bem-haja a todos, pelo apoio que têm feito o favor de manifestar-me !
.

.
NelitOlivas

domingo, 4 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.
 Epilogue - Robert Lowell :
.

Epílogo

Essas veneráveis estruturas, o enredo e a rima,
por que me são tão inúteis agora
que quero fazer
uma coisa imaginada, e não recordada?
Ouço o ruído da minha própria voz:
A visão do pintor não é uma lente,
treme ao acariciar a luz.
Mas às vezes tudo o que escrevo
com a arte gasta dos meus olhos
parece um instantâneo,
chocante, apressado, berrante, estreito,
elevado face à vida
mas paralisado pelos factos.
Tudo é desconforme.
Mas porque não dizer o que aconteceu?
Pede a graça da exactidão
que Vermeer deu à iluminação do sol
espraiado como uma maré num mapa
sobre a sua rapariga concreta e ansiosa.
Somos pobres factos passageiros
e isso avisa-nos para que demos
a cada figura nas fotografias
o seu nome vivo.

sábado, 3 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Sonho de poeta - Alice Ruiz :
.
.
quem dera fosse meu
o poema de amor
definitivo.

se amar fosse o bastante,
poder eu poderia,
pudera,
às vezes, parece ser
esse, meu único destino

mas vem o vento e leva
as palavras que digo,
minha canção de amigo.

um sonho de poeta,
não vale o instante
vivo.

pode que muita gente
veja no que escrevo
tudo que sente
e vibre
e chore
e ria,
como eu, antigamente,
quando não sabia
que não há um verso,
amor,
que te contente.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Quando voltei encontrei os meus passos - Camilo Pessanha :
.
.
Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a úmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
_ Tão rediviva! nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrimas contidas.
_ Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista _ para quê?
Se há de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.Love - George Herbert :
.
.
O Amor me acolheu, mas a alma minha se acovardou
culpada de pó e pecado.
Mas clarividente, o Amor, vendo-me hesitar
desde o meu primeiro passo,
aproximou-se de mim com doçura, perguntando-me
se algo me faltava.
“Um convidado”, respondi, “digno de estar aqui”.
O Amor disse: “Tu o serás”.
“Eu, o mau, o ingrato? Ah, meu dileto,
não posso olhar-te”.
O Amor me tomou pela mão, sorrindo respondeu:
“Quem fez esses olhos, senão eu?”
“É verdade Senhor, mas os sujei;
que vá a minha vergonha para onde merece”.
“E não sabes tu?, disse o Amor, “quem tomou a condenação sobre si?”
“Meu dileto, então servirei”.
“É preciso que tu te sentes”, disse o Amor, “que tu proves meu alimento”.
Assim me sentei e comi”.