sábado, 30 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bruno Tolentino

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Noturno - Bruno Tolentino :
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Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.


Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro. Toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.


Repousa em ti o espanto que em mim dói,
norturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.


E mordo teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim, suspenso em nada.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Anna Ahmatova

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As a White Stone... -  Anna Ahmatova :
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Como            Pedra     Branca  :
Como pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.
 
Julgo que quem olhar-me bem de perto
dentro em meus olhos logo pode vê-la.
E ficará mais triste e pensativo
que alguém que escute uma anedota obscena.
 
Eu sei que os deuses metamorfoseavam
os homens em coisas sem tirar-lhes alma.
Para que o espante da tristeza dure sempre,
em coisa da memória te mudei.
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Tradução de Jorge de Sena
 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jorge Luis Borges

.Los Justos - Jorge Luis Borges :
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Os Justos
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Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Marceline Desbordes

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 Les Séparés - Marceline Desbordes Valmore :
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N'écris pas. Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas. N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas. Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !

terça-feira, 26 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Federico Garcia Lorca

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Romance sonâmbulo - Federico Garcia Lorca :
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Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Afonso Lopes Vieira

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BARTOLOMEU MARINHEIRO - Afonso Lopes Vieira :
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Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...
e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

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domingo, 24 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Aleksandr Pushkin

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The Flower - Aleksandr Sergeevich Pushkin :
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A FLOR (Trad., André)

Vejo uma flor seca, sem ar
Cá esquecida em um caderno,
E meu espírito prosterno
Num esquisito meditar:
Floriu quando? Onde? Em que estaçāo?
E postergou-se? E é estranha
Ou amiga a māo que a apanha?
E a pôs aqui por que razāo?
Pra recordar um encontro amável
Ou uma separaçāo funesta,
Ou um passeio solitário
Num sítio, à sombra da floresta?
E ele está vivo, ela também?
E a que refúgio se retêm?
Ou eles ambos já mirraram
Como esta flor que aqui deixaram?

sábado, 23 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Ramos Rosa

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Estou vivo e escrevo sol  - António Ramos Rosa :
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Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Eugenio Montejo

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Amantes - Eugenio Montejo :
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Meu amor (Eugenio Montejo)

Em outro corpo vai meu amor por esta rua,
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo…
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.
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(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sebastião da Gama

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Pelo sonho é que vamos - Sebastião da Gama :
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Pelo sonho é que vamos,
 comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
 Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
 basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
 Basta que a alma demos,
 com a mesma alegria
 ao que desconhecemos
 e ao que é do dia-a-dia.
 Chegamos? Não chegamos?
 ─ Partimos. Vamos. Somos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paulo Leminski

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Valeu - Paulo Leminski  :
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dois namorados olhando o céu
chegam à mesma conclusão
mesmo que a Terra não passe da próxima guerra
mesmo assim, valeu

valeu encharcar esse planeta de suor
valeu esquecer as coisas que eu sei de cor
valeu encarar essa vida que podia ser melhor
valeu
valeu
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Amor Bastante - Paulo Leminski :
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quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jorge de Sena

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UMA PEQUENINA LUZ - Jorge de Sena :
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Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charles Bukowski

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Bluebird - Charles Bukowski
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há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

domingo, 17 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel da Fonseca

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Domingo - Manuel da Fonseca :
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Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.
Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste principio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores…
Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia.
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
— ao sol como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida…
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos.
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha, quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— …. no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água…
… um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?…
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

sábado, 16 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Walt Whitman

.Hojas de hierba - Walt Whitman :
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Creo que una brizna de yerba no es menos
que el camino que recorren las estrellas.
Y que la hormiga es perfecta.
Y que también lo son el grano de arena
y el huevo del zorzal.
Y que la rana es una obra maestra, digna de las más altas.
Y que la zarzamora podría adornar los salones del cielo.
Y que la menor articulación de mi mano
puede humillar a todas las máquinas.
Y que una vaca, paciendo con la cabeza baja,
supera a todas las estatuas.
Y que un ratón, es un milagro
capaz de asombrar a millones de incrédulos.

Este es un canto de amor y respeto
a la más grande de todas las maravillas, que es la vida humana.
Y yo también lo creo.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Loreena McKennitt

.Dante's Prayer - Loreena McKennitt  :
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Oração de Dante
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"Quando a escura floresta caiu perante mim
E todas a trilhas ficaram cobertas
Quando os padres do orgulho disseram que não havia outro caminho
Cultivei mágoas de pedra

Eu não acreditava porque não podia ver
Embora tu vieste a mim pela noite
Quando o amanhecer pareceu perdido para sempre
Mostraste-me o teu amor na luz das estrelas

Lance seus olhos ao oceano
Lance sua alma ao mar
Quando a noite escura parecer infinita
Por favor, lembre-se de mim

Então a montanha se elevou diante de mim
Pelo profundo poço dos desejos
Da fonte do perdão
Além do gelo e do fogo

Lance seus olhos ao oceano
Lance sua alma ao mar
Quando a noite escura parecer infinita
Por favor, lembre-se de mim

Embora partilhemos deste humilde caminho, sozinhos
Como é frágil o coração
Oh, dê a estes pés de barro - asas para voar
Para tocar a face das estrelas

Sopre vida dentro deste fraco coração
Suspenda este véu mortal de medo
Leve estas esperanças despedaçadas, marcadas com lágrimas
Nos ergueremos sobre estas preocupações mundanas

Lance seus olhos ao oceano
Lance sua alma ao mar
Quando a noite escura parecer infinita
Por favor, lembre-se de mim
Por favor, Lembre-se de mim...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charlotte Bronte

.Parting - Charlotte Bronte :
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Partida.

Es insensato lamentarse,
Aunque estemos condenados a partir:
Lo único sensato es recibir
El recuerdo de alguien en el corazón:

Se puede habitar en los pensamientos
Que nosotros mismos hemos cultivado,
Y rugir con desprecio y coraje ultrajado
Que el mundo haga su peor parte.

No dejaremos que sus locuras nos atribulen,
Como de quien viene los tomaremos;
Y al final de cada día encontraremos
Una risa alegre como hogar.

Cuando dejemos a cada amigo y hermano,
Cuando lejos estemos separados,
Pensaremos uno en el otro,
Incluso mejor de lo que fuimos.

Cada vista gloriosa encima de nosotros,
Cada vista agradable debajo,
Nos uniremos con los que nos han dejado,
Con quienes, incluso en la muerte, todavía amamos.

Al ocaso, cuando nos sentemos
en soledad cerca del fuego,
El corazón cálido y sincero
Recibirá el mismo pago.

Podemos quemar las obligaciones que nos encadenan,
Urdidas por frías manos humanas,
Allí donde nadie se atreve a desafiarnos
Podemos, en el pensamiento, encontrarnos.

Por eso el llanto es insensato,
Sostén como puedas un espíritu alegre;
Y nunca dudes que el Destino ofrece
Un futuro grato por el dolor presente.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Juan Ramón Jiménez

.El viaje definitivo - Juan Ramón Jiménez :
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Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Emily Bronte

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Death, that struck when I was most confiding - Emily Bronte :
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Morte

Morte! Que me feriste quando eu estava confiante
Na minha fé cega da alegria de ser -
Atacas novamente e cortas do Tempo os ramos ressecados
A partir da raiz fresca da eternidade!

Folhas, no ramo do Tempo cresciam intensamente,
Cheias de seiva, cheias de orvalho de prata;
Pássaros sob o seu abrigo noturno se reuniam;
De dia as abelhas selvagens rodeavam suas flores.

A tristeza passou e arrancou a flor de ouro;
Depois a culpa tirou o orgulho da folhagem;
Mas o Pai generoso que lhe tinham dado nascimento,
Fluiu para sempre a vida restaurada.

Pouco chorei pela alegria desaparecida,
Sobre o ninho morto o silencio era a canção -
A esperança estava lá e riu da tristeza,
Sussurrando: “O inverno não vai demorar”!

E eis! Com enorme bênção,
A primavera mutiplicou os seus favores;
O vento, a chuva, o calor ardente, acariciavam,
Derramando glória naquele dois de Maio!

No alto a morte alada não pode tocar;

O pecado fugiu diante do brilho de seus raios;
O amor, sua vida, tinham poder para mantê-lo
Do erro, de cada praga, porém tuas!
Cruel morte! As folhas jovens estão enfraquecidas;

O ar da noite ainda pode restaurá-las -
Não! O sol da manhã zomba da minha angústia -
O Tempo para mim não deve mais florescer!

Golpeá-la para para baixo, que outros ramos poderão florescer
Onde pereceu o broto usado para ser;
Ao menos, este corpo vai na poeira nutrir
Isso de onde surgiu – Eternity.

domingo, 10 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Thomas Moore

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À Júlia Chorando - Thomas Moore :
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Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.

Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais.
Thomas Moore
(Tradução de Ary Mesquita)

sábado, 9 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Anne Bronte

.The Bluebell - Anne Bronte
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A fine and subtle spirit dwells
In every little flower,
Each one its own sweet feeling breathes
With more or less of power.

There is a silent eloquence
In every wild bluebell
That fills my softened heart with bliss
That words could never tell.

Yet I recall not long ago
A bright and sunny day,
'Twas when I led a toilsome life
So many leagues away;

That day along a sunny road
All carelessly I strayed,
Between two banks where smiling flowers
Their varied hues displayed.

Before me rose a lofty hill,
Behind me lay the sea,
My heart was not so heavy then
As it was wont to be.

Less harassed than at other times
I saw the scene was fair,
And spoke and laughed to those around,
As if I knew no care.

But when I looked upon the bank
My wandering glances fell
Upon a little trembling flower,
A single sweet bluebell.

Whence came that rising in my throat,
That dimness in my eye?
Why did those burning drops distil -
Those bitter feelings rise?

O, that lone flower recalled to me
My happy childhood's hours
When bluebells seemed like fairy gifts
A prize among the flowers,

Those sunny days of merriment
When heart and soul were free,
And when I dwelt with kindred hearts
That loved and cared for me.

I had not then mid heartless crowds
To spend a thankless life
In seeking after others' weal
With anxious toil and strife.

'Sad wanderer, weep those blissful times
That never may return!'
The lovely floweret seemed to say,
And thus it made me mourn.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Moondog

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M I L L E N I A D - Moondog :
.
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I find the greatest freedom in the stricture of a form
that paradoxes abnormality within a norm.

The Sword of Damocles hanging over all of us.
In view of that what subject can we sensibly discuss.

My credo may be this, that ere my dirth of days is passed,
I´ll strive to live each one as if it were my first and last.

You pity me in exile? Well, then pity if you must,
but live - before your dear identity is lost in dust.

Carnivores who lived on Herbivores who lived on plants,
were all consumed by Omnivores who walked around in pants.

He who didn´t know who didn´t know he didnt know,
became the he who didn´t know who knew he didn´t know,
and he became the he who knew who didn´t know he knew,
who finally became the he who knew who knew he knew.

A glance, a smile, a chance hallo and then - a fond embrace.
The years roll back before my eyes to scenes I can´t erase.

We grope with eyes wide open t´ward the darkness of futurity,
with faith in outermost instead of innermost security.

The trombone and the sackbut stare each other down in shame.
One sees what he had been, the other sees what he became.

The Whole declared, "You´ll never know the sum of all My parts,
so stop your foolish figuring, and mend your broken hearts."

Proof that God exist is in the overtones from one
to nine, besides revealing how the Universe is run.

What I say of science here, I say without condition,
that science is the latest and the greatest superstition.

The Leaning Tower leaned a little farther south and said,
"I wouldn´t be so famous if I had a level head."

A snow-flake landed on my hand and said, as if in fear,
"I must be on my way, before I turn into a tear."

Having healthy-wealthy possibility amounts
to nothing, if you do not know that every minute counts.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Herberto Helder

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Havia um Homem que Corria pelo Orvalho Dentro - Herberto Helder :
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Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar


- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece


- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Agostinho da Silva

.Vida - Agostinho da Silva :
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Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ralph Waldo Emerson

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Pensamentos - Ralph Waldo Emerson :
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O prêmio por uma coisa bem feita é tê-la feito.
  • O que nos outros chamamos de pecado, para nós é experiência.
O silêncio que aceita o mérito como a coisa mais natural do mundo constitui o mais retumbante aplauso.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ima Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gérard de Nerval

.El Desdichado - Gérard de Nerval :
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Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,

O Senhor de Aquitânia à Torre da abulia:

Meu único Astro é morto, o meu alaúde iriado

Irradia o Sol negro da Melancolia.


Na noite Sepulcral, Tu que me hás consolado,

O Posílipo e o mar Itálico me envia,

A flor que tanto amava o meu ser desolado,

E a treliça onde a Vinha à Roseira se alia.


Sou Biron, Lusignan?... Febo ou Amor? Na fronte

Ainda o beijo da Rainha rubro me incendeia;

Eu sonhei na Caverna onde nada a Sereia...


E duas vezes cruzei vencedor o Aqueronte:

Modulando na cítara a Orfeu consagrada

Os suspiros da Santa e os arquejos da Fada.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Joseph Brodsky

.In Venice - Joseph Brodsky :
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“Muitas luas atrás, o dólar valia oitocentas e setenta liras e eu tinha trinta e dois anos. O globo, também, era mais leve dois bilhões de almas, e o bar da stazione, aonde eu tinha chegado naquela fria noite de dezembro, estava vazio. De pé, esperava que a única pessoa que eu conhecia na cidade viesse me encontrar. Ela estava bastante atrasada.
Todo viajante conhece essa situação: mistura de cansaço e apreensão. É a hora em que se olha para os mostradores do relógio e para os quadros de horário, se examina o mármore varicoso sob seus pés, se inala amônia e esse cheiro sombrio produzido, nas noites frias de inverno, pelo ferro fundido das locomotivas. Fiz isso tudo.”

domingo, 3 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Henri Michaux

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Nausée - Henri Michaux :
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Náusea Ou é a Morte Que Se Aproxima?
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Rende-te, coração.
Lutámos tempo de mais,
Que se acabe a minha vida,
Não fomos cobardes,
Fizemos o que pudemos.

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Oh! Alma minha,
Ou ficas ou vais,
Tens de te decidir,
Não me apalpes assim os órgãos,
Ora com atenção, ora com desvario,
Ou vais ou ficas,
Tens que te decidir.

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Eu, por mim, não posso mais.
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Senhores da Morte
Nem vos aplaudi, nem blasfemei contra vós.
Tende piedade de mim, viajante de tantas viagens sem
bagagem,
Sem amo, sem riqueza, sem glória,
Sois de certeza poderosos e ainda por cima engraçados,
Tende piedade deste homem transtornado que antes de
saltar a barreira já vos grita o seu nome,

Apanhem-no no ar,
E, se for possível, que se adapte aos vossos
temperamentos e costumes,
Se vos aprouver ajudá-lo, ajudai-o, peço-vos.
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trad. de ernesto sampaio

sábado, 2 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Dante Alighieri

.Poiesis - Dante Alighieri :
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Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.
Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.
Tal graça ao coração de quem na mira
Está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;
e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto Branco

.Amores Eternos - Augusto Branco :
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Eu acredito em amores eternos, daqueles que acompanham a gente pela vida inteira, como se tempo e amor se fundissem num só elemento, tornando-se imutáveis, indestrutíveis.

Eu acredito em amores eternos, daqueles que vão com você para qualquer lugar, não importando o quão distante você esteja, por que a pessoa amada reside em seu próprio coração.

Acredito em amores eternos e sublimes, capazes de reconsiderar tudo, com suavidade, ternura e perdão.Acredito, sim, em amores para toda a vida, e além da vida, pois seria um tipo de amor unido à própria alma, e sem alma a vida não tem razão...

Amores eternos existem sim, e superam qualquer coisa, mesmo quando ninguém mais acredita neles, eles continuam sempre à espreita, esperando apenas um olhar, um retorno, uma reconciliação.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Catulle Mendès

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Dans la forêt de septembre - Catulle Mendès :
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Ramure aux rumeurs amollies,
Troncs sonores que l'âge creuse,
L'antique forêt douloureuse
S'accorde à nos mélancolies.

Ô sapins agriffés au gouffre,
Nids déserts aux branches brisées,
Halliers brûlés, fleurs sans rosées,
Vous savez bien comme l'on souffre!

Et lorsque l'homme, passant blême,
Pleure dans le bois solitaire,
Des plaintes d'ombre et de mystère
L'accueillent en pleurant de même.

Bonne forêt! promesse ouverte
De l'exil que la vie implore,
Je viens d'un pas alerte encore
Dans ta profondeur encor verte.

Mais d'un fin bouleau de la sente,
Une feuille, un peu rousse, frôle
Ma tête et tremble à mon épaule;
C'est que la forêt vieillissante,

Sachante l'hiver, où tout avorte,
Déjà proche en moi comme en elle,
Me fait l'aumône fraternelle
De sa première feuille morte!