domingo, 30 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto II

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 l'Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :
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CANTO I (continuação) :

13.
 
a Dama desviou a montaria
e foi-se a rédea solta pela mata,
Sem procurar a mais segura via,
Onde o arvoredo menos se dilata.
Tresloucada, a tremer, pálida, a guia
Dá ao palafrém, que a esmo as trilhas cata.
Acima e abaixo, a vasta selva inteira
Percorreu e foi ter a uma ribeira.

14.
Junto à ribeira Ferraú mostrou-se
Coberto de poeira e suor copioso.
O que da frente de batalha o trouxe
Foram ganas de água e de repouso.
Depois, a contragosto, lá ficou-se,
Porque, sobre estouvado, sequioso,
Das mãos caiu-lhe ao rio o elmo, ao beber,
E não mais o alcançava reaver.

15.
Com quantas forças tem, ergue clamor,
Posta em fuga, a donzela apavorada;
Salta o mouro, escutando tal rumor,
E a reconhece, logo na chegada.
Ainda que, por obra do temor,
Mostrasse a face pálida e turvada,
É aquela de quem vai buscando novas,
É angélica, não há querer mais provas.

16.
Cavaleiro cortês, quiçá rival
Dos primeiros no estimar igual beleza;
Se elmo lhe falta, o que inda o braço val
Logo à dama oferece por defesa.
A arma empunha e feroz corre aonde o mal
Suspeita então rinaldo tal surpresa.
Eram já os cavaleiros conhecidos
De vista e d'armas, desde tempos idos.

17.
Apeados ali, sem que lhes valha
Couraça ou malha miúda como escudo
(A espada de qualquer tão rijo talha
Quem em bigorna faria corte agudo),
Encetam crudelíssima batalha.
A dama ao palafrém manda contudo
Que aperte o pé, com quantas força tenha,
E em campos, matagais, assim se embrenha.

18.
Largo tempo forceja um por ter mão
Do outro, mas nenhum ao outro abala,
Pois ambos consumados mestres são
De perícia na espada, ao menejá-la.
Afinal o senhor de Montalvão
Dirige ao cavaleiro hispano a fala
Como alguém cujo peito se acha em fogo
Abrasador, que rompe em desafogo.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.

sábado, 29 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto I

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l' Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :
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CANTO I
 
1.
Damas e paladinas, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos, rei e imperador romano.

2.
Hei de dizer de Orlando, juntamente,
O que nunca se disse, em prosa ou rima:
Que ficou, por amor, louco fremente,
Pondo a perder de homem cordato a estima;
Isto, se aquela que me faz demente
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

3.
Dignai-vos, ó hercúlea prole Estense,
Ornamento e esplendor do tempo nosso,
Hipólito, aceitar, pois vos pertence,
A oferta do criado humilde vosso.
O que vos devo em grande parte vence
Quando co' o verbo e a pena pagar posso;
Nem por vos dar tão pouco ingrato sou,
Pois do que posso dar, tudo vos dou.

4.
Dentre os grandes heróis, se ora me ouvis,
Vereis lembrado o nome sobranceiro
Que de vossa linhagem foi raiz,
Rogério, de alta estirpe avô primeiro;
E se benignamente consentis
Em dar-me, por um pouco, ouvido inteiro,
Deixando por meu canto altos cuidados,
Seus feitos achareis aqui exaltados.

5.
De Angélica formosa enamorado
Ficara Orlando, e por amores seus
Em Tartária, Índia e Média havia deixado
Inumeráveis e imortais troféus.
Ei-lo agora retornado
Ao ocidente, ao pé dos Pirineus,
Aos arraiais de França e de Alemanha,
Convocados de Carlos à campanha,

6.
Para que os reis Marsílio e Agramante
Cara custasse a estulta confiança
Com que um de África todo o homem prestante
Trouxera armado com espada e lança,
E outro de Espanha se pusera adiante
Por oprimir o lindo chão de França.
Voltava então Orlando ao pátrio solo,
Mas logo a volta o pôs em desconsolo.

7.
Pois logo sua amada ali perdia:
Que o juízo humano tantas vezes erra!
Aquela pela qual lutado havia,
Da Eólia à Espéria, em tão renhida guerra,
Ora a perde entre amiga companhia,
Sem a espada brandir, em sua terra.
É sábio imperador quem, tendo em mira
Grave incêndio extinguir, assim lha tira.

8.
Desavença recente separara
Rinaldo e o conde Orlando, que é seu primo:
Da mesma dama, a formosura rara
Os abrasava, pela graça e o mimo.
Carlos, a quem o pleito desgostara,
Pois desss bravos lhe tolhia o arrimo,
A donzela, que aos dois indispusera,
Deu em custódia ao duque de Baviera;

9.
E em prêmio a reservou ao que se houvesse
Com mais valor naquela grã jornada,
Ao que mais infiéis ali abatesse
Pelo valor do braço e forte espada.
Mal fundada esperança, que fenece
Ao pôr-se em fuga a gente batizada.
Força é que então com outros mil se renda
O duque e, preso, deixe ao léu a tenda.

10.
Ali se achara dantes a donzela
Ao vencedor em prêmio prometida.
Durante o embate, ela subira à sela
E, sem que suspeitassem, foi partida.
Sentiu - veio um presságio esclarecê-la -
Que a Fortuna aos cristãos baldara a lida.
Assim, entrou num bosque, e num carreiro
Encontrou, vindo a pé, um cavaleiro.

11.
Vestia couraça e tinha na cabeça
O elmo; ao flanco, espada; à mão, escudo;
O bosque atravessava mais depressa
Que em prova de corrida aldeão rudo.
Tímida pastorinha não se apressa
De serpente a fugir bote sanhudo,
Como Angélica as rédeas desviou
Logo que caminhante divisou.

12.
Era esse paladim, nobre e galhardo,
Filho de Amon, senhor de Montalvão.
Tinha perdido seu corcel, Baiardo,
Pouco havia, em insólita ocasião.
Reconheceu a dama, e, como dardo,
O amor lhe trespassou o coração.
Vendo-lhe ao longe o angélico semblante
Caiu do amor nos laços nesse instante.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camilo Pessanha

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Água morrente - Camilo Pessanha :
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Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Celan

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Parla anche tu - Paul Celan  :
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Fala Também TuFala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

Paul Celan, in "De Limiar em Limiar"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sully Prudhomme

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Le vase brisé - Sully PRUD'HOMME :
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O VASO PARTIDO

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutiu, roçou-o apenas
Pois nem um ruído revelou.
Mas a fenda persistente,
Mordendo-o sempre sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia,
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor,
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal, fino e profundo,
Já se quebrou: não toquem, não.

Sully Prudhomme
Trad. Guilherme de Almeida

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francisco Quevedo

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SONETO AMOROSO DEFENDENDO O AMOR - FRANCISCO QUEVEDO :
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    É gelo abrasador, fogo gelado,
é ferida que dói e não se sente,
é um sonhado bem, um mal presente,
é um breve descanso fatigado;

    é um sossego que nos dá cuidado,
um cobarde com nome de valente,
solitário andar por entre gente,
um amar nada mais que ser amado;

    é uma liberdade encarcerada,
que dura até ao último momento;
doença que piora se é tratada.

    Este o menino Amor, o seu tormento.
Vede a amizade que terá com nada
o que em tudo vai contra o seu intento!

Francisco Quevedo, in 'Antologia Poética'
Tradução de José Bento

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - E. E. Cummings

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I Carry Your Heart With Me - E.E. Cummings :
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Eu carrego o seu coração comigo
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Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde quer que vá, você vai minha querida
E o que quer que eu faça sozinho
foi você, minha querida
Não temo o meu destino

Porque você é o meu destino, meu doce
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade
Este é o maior dos segredos que ninguém sabe

Você é a raiz da raiz
O botão do botão
E o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais alto do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o milagre
Que mantém as estrelas à distância
Eu carrego o seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração.

domingo, 23 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gonçalves Dias

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Como eu te amo ! - Gonçalves Dias :
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Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá no extremo do horizonte aponta;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite a mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vai e vem a nau flutua;

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
O manso vento que nos bosques rondeia,
O sussurro da fonte que passeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncios e cores, perfumes e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus.

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-te os lábio meus, - mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em tí. - Por tudo quanto sofro,
Por quando já sofri, por quanto ainda
Me resta sofrer, por tudo eu te amo!

sábado, 22 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ugo Foscolo

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Alla sera - Ugo Foscolo :
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À Tarde

Talvez por seres, para mim, a imagem
da quietude fatal, vem, sê bem-vinda.
Ó Tarde! E - quando te corteja a aragem
e os cirros estivais e quando, ainda,

trazes do ar nebuloso trevas que agem
sobre o mundo, ao tremor de luz que finda,
e me acolhes, na mais secreta viagem
da alma - eu te sinto, assim tão suave e linda.

Conduzes minha mente, numa prece,
ao eterno vazio; e o tempo ruim
foge e leva consigo e faz que cesse

a ânsia que me envolvia. A paz, enfim!
E, enquanto a paz me deixas, adormece
o espírito feroz que há dentro em mim.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Tomás António Gonzaga

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Tomás António Gonzaga :
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Lira III


Tu não verás, Marília, cem cativos

tirarem o cascalho e a rica terra,

ou dos cercos dos rios caudalosos,

ou da minada serra.



Não verás separar ao hábil negro

do pesado esmeril a grossa areia,

e já brilharem os granetes de oiro

no fundo da bateia.



Não verás derrubar os virgens matos,

queimar as capoeiras inda novas,

servir de adubo à terra a fértil cinza,

lançar os grãos nas covas.



Não verás enrolar negros pacotes

das secas folhas do cheiroso fumo;

nem espremer entre as dentadas rodas

da doce cana o sumo.



Verás em cima da espaçosa mesa

altos volumes de enredados feitos;

ver-me-ás folhear os grandes livros,

e decidir os pleitos.



Enquanto revolver os meus consultos,

tu me farás gostosa companhia,

lendo os fastos da sábia, mestra História,

e os cantos da poesia.



Lerás em alta voz, a imagem bela;

eu, vendo que lhe dás o justo apreço,

gostoso tornarei a ler de novo

o cansado processo.



Se encontrares louvada uma beleza,

Marília, não lhe invejes a ventura,

que tens quem leve à mais remota idade

a tua formosura.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Franz Kafka

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Franz Kafka :
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Renúncia!
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Era muito cedo, pela manhã, as ruas estavam limpas e vazias, eu ia à estação. Ao verificar a hora em meu relógio com a do relógio de uma torre, vi que era muito mais tarde do que eu acreditara, tinha que apressar-me bastante; o susto que me produziu esta descoberta me fêz perder a tranquilidade, não me orientava ainda muito bem naquela cidade. Felizmente havia um policial nas proximidades, fui até ele e perguntei-lhe, sem fôlego, qual era o caminho. Sorriu e disse: -Por mim queres conhecer o caminho? -Sim - disse -, já que não posso encontrá-lo por mim mesmo. -Renuncia, renuncia - disse e voltou-se com grande ímpeto, como as pessoas que querem ficar a sós com o seu riso.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Raul de Carvalho

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Serenidade és minha - Raul de Carvalho :
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Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.

Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.
Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!
E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade,
para que se não fale
nem da paz nem da guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.
Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais úmida que a pele marítima do cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem, serenidade,
para perto de mim e para nunca.
.......................................................
De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu te peço como quem pede amor:
Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à policia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade,
Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem, serenidade,
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.
Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exata
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espetros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome.
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ferreira Gullar

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Traduzir-se - Ferreira Gullar :
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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Southey

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Robert Southey :
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Thalaba, el Destructor.Thalaba, the Destroyer. Robert Southey (1774-1843)

¡Un ocaso de tinieblas y tormenta!
Dentro de la cripta
Thalaba depositó al anciano,
para protegerle de la lluvia.
¡Una noche de tormenta! El viento
azotaba el cielo sin luna,
y gemía entre los sepulcros;
y en las pausas de su azote
oían el caer de la densa lluvia
sobre el monumento.
En silencio, sobre la tumba de Oneiza
su padre y su esposo se hastiaban.
El almacín desde el minarete
cantó la medianoche.
¡Ahora, ahora!, gritó Thalaba;
y sobre la cripta de la tumba
creció un pálido resplandor,
como los reflejos de un fuego áureo;
y en esta espantosa luz
Oneiza se apareció. Era ella,
Las mismas facciones alteradas por la muerte,
lívidas mejillas, labios azulados;
pero en sus ojos aparecía
un brillo más terrible
que todo el espanto de la muerte.
¿Vives aún, infeliz?,
preguntó con trémula voz a Thalaba;
¿y debo abandonar cada noche mi tumba
para decirte, en vano,
que Dios te ha abandonado?
-¡No es ella! -exclamó el anciano-,
¡es un espectro, sólo un espectro!
Y dirigiéndose al joven que empuñaba la lanza:
-¡Arrójasela tú mismo!
-¡Arrójala! -, gritó Thalaba,
y, desprovisto de toda fuerza,
clavó sus ojos en la terrible forma.
-¡Sí, arrójala! -, gritó una voz cuyo tono
inundó su alma con tanto alivio
como la lluvia sobre el desierto
de la muerte.
Pero, obediente a esa voz familiar,
fijó sus ojos en aquello,
cuando Moath, de firme corazón,
efectuó el lanzamiento: a través del cadáver del vampiro
voló la lanza, cayó,
y gimiendo por el dolor de la herida
su diabólico morador huyó.
Una azulada luz cayó sobre ellos,
e inundados de gloria, ante sus ojos
el espíritu de Oneiza descansó.

domingo, 16 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Antonio José da Silva (O Judeu)


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De Mim Já Se Não Lembra - Antonio José da Silva (O Judeu) :
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'' De mim já se não lembra
Disse a quem amei
Só me resta a chorar
O tempo em que adorei ''
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(...)
Para rir, e passar alegre uma hora,
Não para corrigir seus ruins costumes,
O teatro procuram: nós lhe damos
Envolto em mel um salutar remédio;
Com seu seus próprios defeitos e seus erros
Excitamos o riso; e outras vezes
Com o quadro da desgraça e da virtude
N’alma nobres paixões lhes acendemos.


'' De mim já se não lembra
Disse a quem amei
Só me resta a chorar
O tempo em que adorei ''
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sábado, 15 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bertold Brecht

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"AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS" - BERTOLT BRECHT :
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Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós
Com um pouco de compreensão.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gonçalves de Magalhães

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A flor suspiro - Gonçalves de Magalhães :
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Eu amo as flores
Que mudamente
Paixões explicam
Que o peito sente.
Amo a saudade,
O amor-perfeito;
Mas o suspiro
Trago no peito.

A forma esbelta
Termina em ponta,
Como uma lança
Que ao céu remonta.
Assim, minha alma,
Suspiros geras,
Que ferir podem
As mesmas feras.

É sempre triste,
Ensangüentado,
Quer seco morra,
Quer brilhe em prado.
Tais meus suspiros...
Mas não prossigas,
Ninguém se move,
Por mais que digas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mathias Claudius


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 "Der Tod und das Mädchen" de Mathias Claudius, por Schubert :
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A Morte e a Donzela
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Donzela:
Vá embora, ah vá embora,

selvagem esqueleto humano!

Ainda sou jovem, vá e é melhor

que não me toques, que não me toques.



A Morte:

Dê-me sua mão ó bela e delicada figura,

Sou amigo, e não venho para punir.

Tenha bom ânimo! Eu não sou feroz,

Tranquilamente você dormirá em meus braços!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Sousa Freitas

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ACHO INÚTEIS AS PALAVRAS - António Sousa Freitas :
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Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior
Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior

Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor
Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor

Acho inúteis os sorrisos
Quando a noite nos procura
Inúteis são minhas penas
P'ra te falar de ternura

Acho inúteis nossas bocas
Quando voltar o pecado
Acho inúteis nossas bocas
Quando voltar o pecado

Inúteis são os meus olhos
P'ra te falar do passado
Inúteis são os meus olhos
P'ra te falar do passado

Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza
Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza

Inúteis são minhas mãos
Nessa hora de pureza
Inúteis são minhas mãos
Nessa hora de pureza

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Blake

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The Human Abstract - William Blake :
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A Piedade Jamais iria além
Se Pobre não fizéssemos alguem

Nem da Mercê se correria empós,
Fossem todos felizes como nós.

Quem Traz a Paz é o Medo mútuo apenas
Quando Ainda as invejas são pequenas

Depois a Crueldade lança um laço armado
E espalha as suas iscas com cuiado.

Ela se assenta com temores santos
E rega o chão com prantos;

Então deita a Humildade sua raiz
Debaixo de seus pés.

Logo esta com a horrível sombra
Do Mistério a cabeça lhe recobre;

E a mosca, assim como a lagarta,
No Mistério se farta.

Nasce o fruto do Engano de sua flor,
Vermelho e doce no sabor;

E o corvo na sua sombra mais escura
O ninho seu pendura.

Os Deuses que governam terra e mar
Tentaram aquela árvore encontrar,

Mas foi vã sua busca pelos anos.....
Uma cresce nos cérebros humanos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Julio Cortázar

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Te amo por ceja - Julio Cortázar :
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Amo-te por sobrancelhas

Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

domingo, 9 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cesare Pavese

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La notte - Cesare Pavese :
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A NoiteMas a noite ventosa, a noite límpida
que a lembrança somente aflorava, está longe,
é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais distante que as recordações apenas resta
um vago recordar.

As vezes volta à luz do dia,
na imóvel luz dos dias de Verão,
aquele espanto remoto.

Pela janela vazia
o menino olhava a noite nas colinas
frescas e negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas:
vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem
que sussurrava na escuridão, apareciam as colinas
onde todas as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era outra, de vento, de céu,
e de folhas e de coisa nenhuma.

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite

sábado, 8 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Luís Peixoto

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Quando ficamos como assim - José Luís Peixoto :
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Quando ficamos assim, a ouvirmo-nos e

a falarmo-nos, somos capazes de descobrir muito

mais do que todos eles, obedientes e assustados.

Como aqui, assim, estas palavras a levarem esta

voz fazem-nos saber que estamos juntos, mesmo

quando não há uma sala com estas paredes e só

conseguimos duvidar e duvidar desta verdade.

Estamos juntos, mesmo quando nos separamos

pelas ruas e, dentro de nós, somos um exército

de segredos, mesmo quando nos escondemos do

mundo que desejámos e que desejamos indescon-

troladamente, desincomparavelmente, como um

silêncio que mente e mente e não mente.

Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz

carregada por estas palavras, apesar das formas todas

dos nossos corpos e dos desenhos que somos capazes

de fazer com o olhar. As nossas mãos, procuram-se

à noite, dentro das luzes apagadas. As nossas mãos,

nossas, encontram-se agora e são invisíveis. Sabemos

que os nossos dedos tocaram outros dedos, tocaram

nomes e cordas de guitarra. Sabemos quem somos.

Somos muitos e sabemo-nos reconhecer. Assim,

como aqui, esperamos a madrugada, sabendo que

fomos nós, juntos, que a construímos. Esperamos

muito mais que a madrugada. Temos a

força de sempre, aprendemos a renúncia de

nunca mais. A disciplina está enterrada naquilo

que não é medo, é força, e que nos protege, que

nos protegemos a nós próprios. Esta voz, se eles

conseguirem entender esta voz, mudaremos de

língua. Esta voz é esta sala. Esta voz são os caminhos

que fizemos à margem de cidades e de argumentos

razoáveis. As palavras são pedras. As certezas

perseguiram-nos e abrandámos para que nos

alcançassem. Agora, controlamos pontes e

quotidianos. Agora, esta voz dirige-se ao teu rosto.

Nada nos é impossível. Explicamo-nos uns aos outros e,

sem que ninguém nos perturbe, encontramo-nos

sempre como agora, aqui, assim, como agora,

aqui, assim.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charles Baudelaire

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A Beleza  - Charles Baudelaire :
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De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor' de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p'ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!

Tradução Delfim Guimarães

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Jacinto

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"Monangamba" - António Jacinto :
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NAQUELA ROÇA GRANDE NÃO TEM CHUVA
É O SUOR DO MEU ROSTO QUE REGA AS PLANTAÇÕES
NAQUELA ROCA GRANDE TEM CAFÉ MADURO
E AQUELE VERMELHO-CEREJA
SÃO GOTAS DO MEU SANGUE FEITAS SEIVA.

O CAFÉ VAI SER TORRADO
PISADO, TORTURADO,
VAI FICAR NEGRO, NEGRO DA COR DO CONTRATADO.
NEGRO DA COR DO CONTRATADO!
PERGUNTEM ÀS AVES QUE CANTAM,
AOS REGATOS DE ALEGRE SERPENTEAR
E AO VENTO FORTE DO SERTÃO:

QUEM SE LEVANTA CEDO? QUEM VAI À TONGA?
QUEM TRAZ PELA ESTRADA LONGA
A TIPÓIA OU O CACHO DE DENDÉM?
QUEM CAPINA E EM PAGA RECEBE DESDÉM

FUBÁ PODRE, PEIXE PODRE,
PANOS RUINS, CINQUENTA ANGOLARES
"PORRADA SE REFILARES"?

QUEM?
QUEM FAZ O MILHO CRESCER
E OS LARANJAIS FLORESCER
- QUEM?

QUEM DÁ DINHEIRO PARA O PATRÃO COMPRAR
MAQUINAS, CARROS, SENHORAS
E CABEÇAS DE PRETOS PARA OS MOTORES?
QUEM FAZ O BRANCO PROSPERAR,
TER BARRIGA GRANDE - TER DINHEIRO?
- QUEM?

E AS AVES QUE CANTAM,
OS REGATOS DE ALEGRE SERPENTEAR
E O VENTO FORTE DO SERTÃO
RESPONDERÃO:

- "MONANGAMBÉÉÉ..."

AH! DEIXEM-ME AO MENOS SUBIR ÀS PALMEIRAS
DEIXEM-ME BEBER MARUVO, MARUVO
E ESQUECER DILUÍDO NAS MINHAS BEBEDEIRAS

- "MONANGAMBÉÉÉ..."

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - G. K. Chesterton

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G. K. Chesterton :
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UMA PRECE NAS TREVAS
(de G.K. Chesterton)

respeitosamente dedicado a Michelson Borges

Basta, ó Céu – gerar ou sonhar pudesse,
Sem me polpar; que o mundo se alimente,
Sim, se louco eu me mate realmente,
Vê que a erva sobre o meu sepulcro cresce.

Se rosno entre este sol e solo meus
Queixa e rogo, acenda e eu tenha na mão,
Ante sol, chuva e fruto da estação,
A mudez fúlgea do desdém de Deus.

Por Deus, astros me estão além da força;
Se me viesse a dor em noite de ira,
Nenhuma mariposa se ferira,
E o imprecar não faz com que a flor se torça.

Que se apagara o sol, cada um dizia:
Mas, no Calvário, a mente ainda fulgura:
Ele, penso em madeiro de tortura,
Ao ouvir grilos em canto, ali sorria.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jorge Luis Borges

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La Lluvia - Jorge Luis Borges :
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A CHUVA

A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo freqüentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.
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(Tradução de Renato Suttana)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Betjeman

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Diary of a Church Mouse - John Betjeman :
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Diario de un Ratón de Iglesia
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Aquí entre casullas largo tiempo abandonadas,
bancos podridos y escabeles a medio quebrar,
aquí donde el vicario nunca mira
yo mastico entre viejos misales.
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Acuclillado y solo paso mis días
detrás de este paño de la Iglesia de Inglaterra.
Comparto mi oscura y olvidada pieza
con dos lámparas de aceite y media escoba.
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El que limpia nunca me molesta
así que aquí, frugal, me tomo el té.
Mi pan es aserrín mezclado con paja;
mi mermelada es limpiador de piso.
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Pascua y Navidad podrán ser un festín
para curas y congregaciones
y quizá también Pentecostés. Todos lo mismo,
ninguno me llena mi flaca estampa.
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Para mí el único festín en realidad
es el Festival de la Cosecha, en otoño
en que puedo satisfacerme a voluntad
con jarras de trigo alrededor de la pila.
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Escalo la cabeza de bronce del águila
para cavar a través de una hogaza de pan.
Me trepo por la escalera del púlpito
y mordisqueo las médulas que cuelgan de ahí.
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Es agradable disfrutar
estos artículos antes de que se vayan al tacho,
pero qué molesto cuando uno se encuentra
con que otros ratones de mentes paganas
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se meten a la iglesia para compartir mi comida
cuando no tienen nada que hacer acá.
Dos ratones de campo con ningún deseo
de ser bautizados invaden el coro.
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Una rata enorme y realmente poco amistosa
viene a ver en qué andamos.
Dice pensar que Dios no existe
pero igual viene... es muy extraño.
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Este año se robó un manojo de trigo
(frente al sitial de nuestro predicador)
y prósperos ratones de campos lejanos
vienen a escuchar tocar el órgano
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y ocultos bajo sus notas
comen a través del fardo de avena del altar.
Un ratón de Baja Iglesia[1], que cree que yo
soy demasiado papista, y Alta,
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sin embargo no cree erróneo
masticar sonoramente durante la Oración de la Tarde
mientras yo, que paso hambre todo el año,
tengo que compartir mi comida con roedores
.que excepto en esta época
ni se aparecen por la iglesia.
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Yo sé que dentro del mundo humano
eso no podría ser,
porque los seres humanos sólo hacen
lo que su religión les dice.
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Leen la Biblia todos los días
y rezan siempre, mañana y noche
e igual que yo, el buen ratón de iglesia
adoran al Señor en su Casa,
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pero de todos modos me extraña
cuán llena puede estar la iglesia
con gente que nunca veo,
excepto para el Festival de la Cosecha.