Quando ficamos como assim - José Luís Peixoto :
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Quando ficamos
assim, a ouvirmo-nos e
a falarmo-nos,
somos capazes de descobrir muito
mais do que todos
eles, obedientes e assustados.
Como aqui, assim,
estas palavras a levarem esta
voz fazem-nos saber
que estamos juntos, mesmo
quando não há uma
sala com estas paredes e só
conseguimos duvidar
e duvidar desta verdade.
Estamos juntos,
mesmo quando nos separamos
pelas ruas e,
dentro de nós, somos um exército
de segredos, mesmo
quando nos escondemos do
mundo que desejámos
e que desejamos indescon-
troladamente,
desincomparavelmente, como um
silêncio que mente
e mente e não mente.
Estamos juntos no
silêncio, apesar desta voz
carregada por estas
palavras, apesar das formas todas
dos nossos corpos e
dos desenhos que somos capazes
de fazer com o
olhar. As nossas mãos, procuram-se
à noite, dentro das
luzes apagadas. As nossas mãos,
nossas,
encontram-se agora e são invisíveis. Sabemos
que os nossos dedos
tocaram outros dedos, tocaram
nomes e cordas de
guitarra. Sabemos quem somos.
Somos muitos e
sabemo-nos reconhecer. Assim,
como aqui,
esperamos a madrugada, sabendo que
fomos nós, juntos,
que a construímos. Esperamos
muito mais que a
madrugada. Temos a
força de sempre,
aprendemos a renúncia de
nunca mais. A
disciplina está enterrada naquilo
que não é medo, é
força, e que nos protege, que
nos protegemos a
nós próprios. Esta voz, se eles
conseguirem
entender esta voz, mudaremos de
língua. Esta voz é
esta sala. Esta voz são os caminhos
que fizemos à
margem de cidades e de argumentos
razoáveis. As
palavras são pedras. As certezas
perseguiram-nos e
abrandámos para que nos
alcançassem. Agora,
controlamos pontes e
quotidianos. Agora,
esta voz dirige-se ao teu rosto.
Nada nos é
impossível. Explicamo-nos uns aos outros e,
sem que ninguém nos
perturbe, encontramo-nos
sempre como agora,
aqui, assim, como agora,
aqui, assim.
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