sábado, 8 de setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Luís Peixoto

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Quando ficamos como assim - José Luís Peixoto :
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Quando ficamos assim, a ouvirmo-nos e

a falarmo-nos, somos capazes de descobrir muito

mais do que todos eles, obedientes e assustados.

Como aqui, assim, estas palavras a levarem esta

voz fazem-nos saber que estamos juntos, mesmo

quando não há uma sala com estas paredes e só

conseguimos duvidar e duvidar desta verdade.

Estamos juntos, mesmo quando nos separamos

pelas ruas e, dentro de nós, somos um exército

de segredos, mesmo quando nos escondemos do

mundo que desejámos e que desejamos indescon-

troladamente, desincomparavelmente, como um

silêncio que mente e mente e não mente.

Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz

carregada por estas palavras, apesar das formas todas

dos nossos corpos e dos desenhos que somos capazes

de fazer com o olhar. As nossas mãos, procuram-se

à noite, dentro das luzes apagadas. As nossas mãos,

nossas, encontram-se agora e são invisíveis. Sabemos

que os nossos dedos tocaram outros dedos, tocaram

nomes e cordas de guitarra. Sabemos quem somos.

Somos muitos e sabemo-nos reconhecer. Assim,

como aqui, esperamos a madrugada, sabendo que

fomos nós, juntos, que a construímos. Esperamos

muito mais que a madrugada. Temos a

força de sempre, aprendemos a renúncia de

nunca mais. A disciplina está enterrada naquilo

que não é medo, é força, e que nos protege, que

nos protegemos a nós próprios. Esta voz, se eles

conseguirem entender esta voz, mudaremos de

língua. Esta voz é esta sala. Esta voz são os caminhos

que fizemos à margem de cidades e de argumentos

razoáveis. As palavras são pedras. As certezas

perseguiram-nos e abrandámos para que nos

alcançassem. Agora, controlamos pontes e

quotidianos. Agora, esta voz dirige-se ao teu rosto.

Nada nos é impossível. Explicamo-nos uns aos outros e,

sem que ninguém nos perturbe, encontramo-nos

sempre como agora, aqui, assim, como agora,

aqui, assim.

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