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A N O S S A C A S A
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A nossa casa, Amor, a nossa casa !
Onde está ela, Amor, que não a vejo ?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo !
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo ?
O brando ninho onde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa ?
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom !" - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
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Florbela Espanca
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S O N E T O S VI
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Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios :
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente !
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiando em sol, lábios vermelho !
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso :
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.
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António Nobre - 1889
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O POEMA ORIGINAL
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Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de se ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
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J. C. Ary dos Santos
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A U M L I V R O
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No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer !
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que sinto, sem poder dizer !
Leio-o, e folheio, assim, toda a minh´alma !
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto !...
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes !... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto !...
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Florbela Espanca
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Picareta Escribante
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S O N E T O I I I
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Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral !
Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse de um domínio igual :
Oh Castelo tão alto ! parecia
O território de um Senhor feudal !
Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco do Deserto e Spleen
Deitoi por terra, ao pó que tudo esxconde,
O meu condado, o meu condado, sim !
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...
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António Nobre
Porto, 1887
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C A R A V E L A S
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar ! Já me perdi !
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada !
Se eu sempre fui assim este Mar morto :
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonho se rasgaram !
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que deitei ao Mar !
As que eu lancei à vida, e não voltaram !...
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Florbela Espanca
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MENINO E MOÇO
Tombou da haste a flor da infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim :
Voou aos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo com torres de marfim !
Mas, hoje as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância !
Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus maus ais :
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor ! elas não voltam mais...
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António Nobre
Leça, 1885