domingo, 8 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Guimarães Rosa

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JOÃO GUIMARÃES ROSA :
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GARGALHADA :

Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
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(retirado, com a devida vénia, de "Antonio Miranda")

sábado, 7 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Théophile Gautier

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Théophile Gautier :

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PRIMEIRO SORRISO DA PRIMAVERA :
Enquanto os homens, com suas obras perversas,
Ofegantes correm
Malgrado os aguaceiros,,
Março, que ri, prepara em seguida a primavera.
Para as alvas e pequenas margaridas,
Quando tudo adormecido está,
Dissimuladamente ele, mais uma vez, repassa a gola
E amarelos ranúnculos.cinzela.
No pomar e na vinha
Lá se vai, furtivo barbeiro,
Com uma borla de cisne
A amendoeira, na geada, polvilhar.
Descansa, no leito, a natureza. 
Sobre ele desce um jardim deserto
Enlaçando os botões de rosa
Em seu espartilho de veludo verde.
Tudo são solfejos
Que aos melros, à meia noite, silva
Nos prados campainhas brancas semeia
Nos bosques, violetas.
Sobre o agrião da fonte
Onde bebe o cervo, a orelha em pé,
Com a mão oculta, do lírio-do-vale
Os guizos d’ouro debulha.
Sob a erva, pra que a colha,
O morango de tom vermelho põe
E te trança um chapéu de folhas
A proteger-te do sol.
Em seguida, concluída a tarefa,
Vendo o fim de seu reinado. 
Ao limiar de Abril, voltando a cabeça
Lhe diz: “Podes vir, ò primavera”!
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(retirado, com a devida vénia, de "Entre textos")

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Anderson Herzer

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(Sandra) Anderson Herzer :

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Amordaçado em você :

Em sua beleza afago os meus desejos,
Em seu calor me vejo a delirar,
E no delírio louco do seu beijo
Perdi minha razão pra contornar.

E tanto mais que ontem 
Te devoro,por te querer,
Sem mais poder voltar.
Não posso mais voltar á fase antiga
Pois este coração quer mais te amar.

Na noite,adormeci em tua lembrança,
Tentei,não consegui te evitar.
E na manhã te tive como herança,
Desse amor que está no peito a reinar.

Queria encontrar certas palavras pra te dizer,
Que todo este querer me faz tão bem,
Mas não sei se amanhã 
Terei que me acabar pra te esquecer.

Mas hoje eu acredito
No futuro tão puro,
Deste amor a caminhar,
E sei que toda noite no escuro
Eu vou sentir saudade de te amar.

Olhar em seus olhos e vê-los sorrindo,
Beijar tua boca,
Abraçar-lhe,sentindo
Acariciar a sua face 
E todo o seu corpo.
E do meu amor sincero ir lhe cobrindo.

Deitar-lhe no solo frio,
E deixar que seu corpo todo
Toque nas regiões sombrias,
Com gosto de vida e morte,
De fogo!

Puxar você pelo braço
E deitar me ao seu lado
E mostrar-lhe que te amo,
Esquecendo o passado
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(retirado, com a devida vénia, de "Pensador.Info")

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Blanca Varela

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 Blanca Varela :

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Monsieur Monod não sabe cantar :
.(tradução de Angélica Freitas)

meu querido
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre

noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango

a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te

meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe

meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru – aquela da bolsa ou a vida –
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
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Ninguém nos diz como :
.(tradução de Angélica Freitas)

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que caminhou
em direção à sua agonia
como quem vai
a uma impostergável cerimônia
batendo orelhas
ao compasso 
do cadencioso
fôlego de sua tromba
só no reino animal
há exemplares de tal
comportamento
mudar o passo
aproximar-se
e cheirar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas
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(retirado, com a devida vénia, de "Modo de usar & Co.")

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Tudor Arghezi

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Tudor Arghezi :
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ENTARDECER :

Uma aranha, qual verruga,
Marcha longe e com rigor.
Basta vê-la e não refuga
Nem carências e nem dor.

Ela vem de seu ofício,
Não hesita na sua trilha.
Lá em cima a espera, propício,
O lar feito na vasilha.

Não me vê, nem dá por mim,
– Quem eu sou não vale a pena –.
Por que sou tão grande assim?
Por que ela tão pequena?

           Tradução de Raul Passos
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(retirado, com a devida vénia, do seu Blog)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camilo Pessanha

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Camilo Pessanha :

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Floriram por engano as rosas bravas :
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! — do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
(retirado, com a devida vénia, de "os meus Trilhos")

domingo, 1 de dezembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gabriela Mistral

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 Gabriela Mistral :

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A PROFESSORA RURAL :



A professora era pura “Os suaves hortelãos”,
dizia, “deste prédio, que é prédio de Jesus,
hão de conservar puros os olhos e as mãos,
guardar claros seus óleos, para dar clara luz

A professora era pobre. Seu reino não é humano.
(Assim no doloroso semeador de Israel).
Vestia saias pardas, não enjoiava sua mão
e todo o seu espírito era uma imensa joia!

A professora era alegre. Pobre mulher ferida!
Seu sorriso foi um modo de chorar com bondade.
Por sobre a sandália rota e avermelhada,
este sorriso, a insigne flor de sua santidade.

Doce ser! Em seu rios de méis caudaloso,
longamente dava de beber a seus tigres a dor.
Os ferros que lhe abriram o peito generoso
mais largas lhe deixaram as bacias do amor!

Oh lavrador, cujo filho de seu lábio aprendia
o hino e a prece, viste o fulgor
do luzeiro cativo que em suas carnes ardia:
passaste sem beijar seu coração em flor!

Camponesa, lembras que alguma vez prendeste
seu nome a um comentário brutal ou fútil?
Cem vezes olhaste, nenhuma vez a viste
e no solar de teu filho dela há mais do que ti!

Passou por ele sua fina, sua delicada esteva,
abrindo sulcos onde alojar perfeição.
A alvorada de virtudes de que lentamente se neva
é sua. Camponesa, não lhe pedes perdão?

Dava sombra por uma selva seu carvalho fendido
no dia em que a morte a convidou para partir.
Pensando em que sua mãe a esperava adormecida,
À dos olhos Profundos se entregou sem resistir.

E em seu Deus adormeceu, como em coxim de lua;
Travesseiro de suas fontes, uma constelação;
canta o Pai para ela suas canções de berço
e a paz chove longamente sobre seu coração!

Como um repleto vaso, trazia a alma feita
para derramar aljôfares sobre a humanidade;
essa era sua vida humana a dilatada fenda
que costuma abrir o Pai para lançar a claridade

Por isso ainda pó de seus ossos sustenta
púrpura de roseiras de violento chamejar.
E o cuidador de túmulos, como aroma, me conta,
os mapas daquele que marca seus ossos, ao passar!


(retirado, com a devida vénia, de "Versos Rascunhos")