terça-feira, 7 de outubro de 2014

Momento Poético

.
Estátua :
.
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha, in Clepsidra
.
.
.
(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
.
NelitOlivas

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Momento Poético

.
As Fontes :
.
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944
.
.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
.
NelitOlivas

domingo, 5 de outubro de 2014

Momento Poético

.

Quando Chegar a Hora :

Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade, Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade, Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas... O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas, Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados, Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados: A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!) De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros, Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros, Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio, N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio, Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto: Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato, No dia em que nasci.
.

António Nobre, in "Só"

.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor).
.
NelitOlivas

sábado, 4 de outubro de 2014

Momento Poético

.
Magro, de Olhos azuis, Carão Moreno :
.
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage, in 'Rimas'
.
.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor).
.
NelitOlivas

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Momento Poético

.
                               
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
.
.
.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
.
NelitOlivas

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Momento Poético

.
Aos Amigos :
.
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. 
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
 .
Herberto Helder, Ofício Cantantein POESIA COMPLETA
.
.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
.
NelitOlivas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Momento Poético

.
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho :
.
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.
.
Camilo Pessanha
Clepsidra e outros poemas
Colecção Poesia -Edições Ática
.
.

(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor)
.
NelitOlivas