domingo, 5 de outubro de 2014

Momento Poético

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Quando Chegar a Hora :

Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade, Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade, Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas... O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas, Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados, Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados: A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!) De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros, Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros, Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio, N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio, Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto: Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato, No dia em que nasci.
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António Nobre, in "Só"

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(Material recolhido para publicação na página Facebook da U.A.S., ao abrigo do Artº 75 do Código do Direito do Autor).
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NelitOlivas

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