quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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F I L T R O


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Meu amor não é nada : sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah ! olhos que não choram ! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante !

Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão-de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante !

Para que corpos vis te não desejem,
Hei-de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Para que bocas impuras te não beijem !

Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão-de prender-te todo num só voo...

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Florbela Espanca
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

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Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores : há ideias apenas
Há só cada um de nós, como uma cave
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora
E um sonho que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.
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Alberto Caeiro
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Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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M I R A D O I R O

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Não sei se vês, como eu vejo,
Pacificado,
Cair da tarde
Serena
Sobre o vale,
Sobre o rio,
Sobre os montes
E sobre a quietação
Espraiada da cidade.
Nos teus olhos não há serenidade
Que o deixe entender,
Vibram na lassidão da claridade,
E o lírico poema que me acontecer
Virá toldado de melancolia,
Porque daqui a pouco toda a poesia
Vai anoitecer.

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Miguel Torga
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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      M I R A D O I R O

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Não sei se vês, como eu vejo,
Pacificado,
Cair da tarde
Serena
Sobre o vale,
Sobre o rio,
Sobre os montes
E sobre a quietação
Espraiada da cidade.
Nos teus olhos não há serenidade
Que o deixe entender,
Vibram na lassidão da claridade,
E o lírico poema que me acontecer
Virá toldado de melancolia,
Porque daqui a pouco toda a poesia
Vai anoitecer.

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Miguel Torga
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Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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O Sol ás casas, como aos montes
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.

Como a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quando é tarde
Tudo quanto foi

Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi
Em cinza e ouro rememoro
E nunca o vi.

Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar

Sussurro sen que se ouça, palma
Da Isenção
Ó tarde, fica noite,
E alma tenha perdão.

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Fernando Pessoa
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terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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          M  O  N  S  A  R  A  Z

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Inverno, manhã cedo. A luz que banha
A paisagem, é gélida e cinzenta;
A vaga pompa do cenário ostenta,
Ao largo, as serras húmidas de Espanha.

Hortas, vinhedos e a carcaça estranha
De Monsaraz, numa ascenção violenta;
A erva tenrinha os gados apascenta,
Que em tons de bronze a terra desentranha.

E eu olho essa paisagem dolorida,
Testemunha que foi da minha vida,
Povoada agora de visões errantes...

Eu olho-a e dentro da minha alma afago-a,
Que os seus olhos longínquos, rasos de água,
São hoje os mesmos que me olhavam dantes.

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António de Macedo Papança
    (Conde de Monsaraz)
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Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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A L E N T E J O
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A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha !
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar !
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar !...

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Miguel Torga
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