quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Allen Ginsberg

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Howl   - Allen Ginsberg :

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    Uivo - [Tradução: Cláudio Willer]

    Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
    morrendo de fome, histéricos, nus,
    arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
    de uma dose violenta de qualquer coisa,
    “hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato
    celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
    que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
    sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-
    mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das
    cidades contemplando jazz,
    que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram
    anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
    das casas de cômodos,
    que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes
    alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
    entre os estudiosos da guerra,
    que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-
    carem odes obscenas nas janelas do crânio,
    que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-
    da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
    de papel, escutando o Terror através da parede,
    que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo
    com um cinturão de marijuana para Nova York,
    que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-
    tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-
    sos noite após noite
    com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-
    lhos e intermináveis orgias,
    incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão
    na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa-
    terson, iluminando completamente o mundo imóvel do
    Tempo intermediário,
    solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal
    com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-
    lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de
    neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-
    brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de
    inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a
    suave soberana luz da mente,
    que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável
    percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até
    que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,
    trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do
    cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-
    lógico,
    que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s,
    voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no
    desolado Fugazzi’s escutando o matraquear da catástrofe
    na vitrola automática de hidrogênio,
    que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao
    bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,
    batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-
    dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
    do Empire State da lua,
    tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-
    ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
    intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os
    olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-
    ga jogada na rua,
    que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-
    xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
    Cívico de Atlantic City,
    sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos
    enxaquecas da China por causa da falta da droga no
    quarto pobremente mobiliado de Newark,
    que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-
    roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-
    ções partidos,
    que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,
    vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve
    até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
    que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e
    bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
    pés em Kansas,
    que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos
    índios e visionários,
    que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu
    em êxtase sobrenatural,
    que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-
    so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena
    à meia-noite,
    que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz
    ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para
    conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e
    assim embarcaram num navio para a África,
    que desapareceram nos vulcões do México nada deixando
    além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a
    cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,
    que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e
    bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
    peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
    que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra
    o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,
    que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,
    chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
    os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam
    pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-
    land,
    que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e
    trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
    que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos
    carros de presos por não terem cometido outro crime a não
    ser sua transação pederástica e tóxica,
    que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-
    do sacudindo genitais e manuscritos,
    que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e
    urraram de prazer,
    que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os
    marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
    que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na
    grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-
    mente seu sêmem para quem quisesse vir,
    que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-
    ram choramingando atrás de um tabique de banho turco
    onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,
    que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino,
    a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão,
    que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,
    uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
    que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas
    ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-
    te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
    que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados
    à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão
    e Adonis de Denver – prazer ao lembrar de suas incontáveis
    trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos
    fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-
    ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas
    ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias
    solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip-
    sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
    natal também,
    que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados
    em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-
    ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de
    Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-
    da & cambalearam até as agências de emprego,
    que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue
    pelo cais coberto por montões de neve, esperando que
    se abrisse uma porta no East River dando num quarto
    cheio de vapor e ópio,
    que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-
    mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &
    suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,
    (…)

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