quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - John Milton

.
On His Blindness - John Milton :
.
.
Sobre a sua Cegueira :
.
Quando medito em minha luz perdida,
Nesta tão vasta e mais sombria terra,
E que esse dom que só a Morte cerra
Inútil mora em mim, embora a vida

N´alma me seja ao Criador rendida
E a mais prestar-lhe a conta que não erra,
«A quem, negada a luz, a treva encerra,
Calcula Deus a quotidiana lida?»

Pergunto ansiosamente. E a Paciência
O murmurar me cala: «El´ não precisa
Dos dons de um só em cada humana esfera.

Se El´ convoca os seus fiéis, e com ardência
Que milhar´s correm para onde Ele pisa.
Também O serve aquel´ que fica e espera.»

On His Blindness - tradução de Jorge de Senain blog de José Maria Alves

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Júlio Diniz

.
«A Esmola do Pobre» - Júlio Diniz :
.
.
Nos toscos degraus da porta
Da igreja rústica e antiga,
Velha, trémula era a mendiga,
Que implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la, enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam
Á distãncia, na alameda;
Uma trajava de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas louras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.

A rica ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga, e ao regaço
Uma esmola lhe lançou;
Ela recebeu-a, e a criança
Que a socorre compassiva
Em prece fervente e viva
Aos anjos a encomendou.

Dum ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
-O prazer de dar esmolas
-A ti e aos teus não é dado
-Pobre como és,c oitado!
-Aos pobres o que hás-de dar?

Então a criança pobre,
Sem mais sombra de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E depois, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se , ajoelha
E a magra mão lhe beijou.

A mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção.
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola,
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Georges Brassens

.
La mauvaise réputation - Georges Brassens :
.
.
A má reputação
.
Nesta aldeia sem pretensão
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do rebanho.
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.
pretensão
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do rebanho.
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.
Eu tenho má reputação.
Maltrapilho ou engravatado
acham que sou mal comportado.
Porém eu não faço nem mal nem bem
nesta minha vida de zé-ninguém
Mas que vida mais triste tenho
querendo viver fora do
Sou insultado por toda a gente,
menos p'los mudos - é evidente.

Quando há festa nacional
fico na cama, isso é fatal.
Porque a música militar
nunca me fará levantar
Porém não me sinto nada culpado
por não gostar de me ver fardado.
Mas os outros não gostam que eu
siga um caminho sem ser o seu.
De dedo em riste todos me acusam
salvo os manetas - porque o não usam.

Quando vejo um ladrão sem sorte
fugir dum chui que é bem mais forte,
meto o pé e com uma rasteira
lá vai o chui pela ribanceira.
Nenhum mal eu faço a quem bem come
deixando escapar um ladrão com fome.
Mas na Guarda Nacional,
não acham isto natural.
Todos correm atrás de mim
menos os-coxos - seria o fim.

Nunca na vida fui profeta
mas sei o fim que se projecta.
Vão-me atar a corda ao pescoço
P'ra me lançarem a um poço.
Porque me fecham nesta redoma?
por o meu caminho não ir dar a Roma.
Mas que vida mais triste tenho
só por viver fora do rebanho.
Todos verão o meu funeral
menos os cegos - é natural.












segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nei Duclós

.
Quero Um Sorriso - Nei Duclós :
.
.
Quero um sorriso
que dure uma quadra
e dobre a esquina
a iluminar-me

uma lágrima
sem consolo
que traga um soluço
de dez minutos

um corpo que aperte
com fogo de inferno
uma dor que desperte
um ruído que abra

Qualquer coisa forte
que rasgue

domingo, 25 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Friedrich Schiller

.
Hino à alegría - Friedrich Schiller :
.
.

Ode à Alegria
.
Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus!
.
Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.
.
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto dos Anjos

.
Versos Íntimos - Augusto dos Anjos :
.
.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Louis Stevenson

.
Where Go the Boats - Robert Louis Stevenson :
.
.
PARA ONDE VÃO OS BARCOS?
Escuro é o rio, dourada a areia.
Ele fui sempre e para sempre.
Barcos meus navegando: onde será a sua casa?
O rio corre deixando o moinho para trás.
 Rio abaixo, a cem milhas ou mais,
outras crianças hão-de ancorar os meus barcos.
.
( Excerto de um poema de Robert Louis Stevenson)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nuno Júdice

.
Um amor - Nuno Júdice :
.
.
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rainer Maria Rilke

.
"The Panther" - Rainer Maria Rilke :
.
.
A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad.
José Paulo Paes)
(No Jardin des Plantes, Paris)
Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.
.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Carlos Drummond de Andrade

.
Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade :
.
.
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Arthur Rimbaud

.
A Eternidade - Arthur Rimbaud :
.
.
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado        
Ao sol.
.
Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.
.
Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...
.
— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.
.
Que venha a manhã,
Com brasas de satã,           
O dever           
É vosso ardor.
.
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado       
Ao sol.
.
(tradução de Claudio Daniel)

domingo, 18 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francisco de Quevedo

.
Definiendo el amor- Francisco de Quevedo :
.
.
SONETO AMOROSO DEFENDENDO O AMOR :

É gelo abrasador, fogo gelado,
é ferida que dói e não se sente,
é um sonhado bem, um mal presente,
é um breve descanso fatigado;

.
É um sossego que nos dá cuidado,
um cobarde com nome de valente,
solitário andar por entre gente,
um amar nada mais que ser amado;

.
É uma liberdade encarcerada,
que dura até ao último momento;
doença que piora se é tratada.

.
Este o menino Amor, o seu tormento.
Vede a amizade que terá com nada
o que em tudo vai contra o seu intento!

Francisco Quevedo, in 'Antologia Poética'
Tradução de José Bento


sábado, 17 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nicolas Boileau

.
Nicolas Boileau :
.
.


A ARTE DE ESCREVER
(fragmento)

Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos
São como nuvem espessa, sempre emaranhados,
O dia da razão não saberia atravessá-la.
Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.
Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura
Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.
O que se concebe bem exprime-se claramente,
E as palavras para o dizer chegam facilmente.

(...)

Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia
Num prado cheio de flores lentamente passeia,
Do que duma torrente transbordante, tempestuosa,
Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.
Acelerem lentamente e sem perder coragem,
Vinte vezes empreendam a vossa obra:
Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la;
Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cecília Meireles

.
" NAUFRÁGIO " - Cecília Meireles  :
.
.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Cullen Bryant

.
William Cullen Bryant :
.
.
Thanatopsis

by William Cullen Bryant por William Cullen Bryant

To him who in the love of Nature holds Para ele, que no amor da Natureza detém
Communion with her visible forms, she speaks Comunhão com suas formas visíveis, ela fala
A various language; for his gayer hours Uma linguagem de vários, pois suas horas mais alegres
She has a voice of gladness, and a smile Ela tem uma voz de alegria, e um sorriso
And eloquence of beauty, and she glides E eloqüência da beleza, e ela desliza
Into his darker musings, with a mild Em suas reflexões mais escuros, com uma leve
And gentle sympathy, that steals away E simpatia gentil, que rouba
Their sharpness, ere he is aware. Sua nitidez, antes de o perceber. When thoughts Quando os pensamentos
Of the last bitter hour come like a blight Da última hora amarga vir como uma praga
Over thy spirit, and sad images Sobre o teu espírito, e as imagens tristes
Of the stern agony, and shroud, and pall, Da agonia popa, e mortalha, e mortalha,
And breathless darkness, and the narrow house, E a escuridão sem fôlego, ea casa estreita,
Make thee to shudder, and grow sick at heart;-- Faze-te a tremer, e crescer doentes do coração, -
Go forth under the open sky, and list Vá em frente , sob o céu aberto, e lista
To Nature's teachings, while from all around-- Para ensinamentos da Natureza, enquanto de todo -
Earth and her waters, and the depths of air,-- Terra e suas águas, e as profundezas do ar, -
Comes a still voice --Yet a few days, and thee Vem uma voz ainda - Mas alguns dias, e te
The all-beholding sun shall see no more O sol contemplando-tudo não verei mais
In all his course; nor yet in the cold ground, Em todo o curso dele; nem ainda no chão frio,
Where thy pale form was laid, with many tears, Onde a tua forma pálida foi colocado, com muitas lágrimas,
Nor in the embrace of ocean shall exist Nem no abraço do oceano deve existir
Thy image. Tua imagem. Earth, that hourished thee, shall claim Terra, que hourished ti, deve reclamar
Thy growth, to be resolv'd to earth again; Teu crescimento, para ser resolv'd de novo à terra;
And, lost each human trace, surrend'ring up E, perdido cada traço humano, surrend'ring-se
Thine individual being, shalt thou go Teu ser individual, irás
To mix forever with the elements, Para misturar sempre com os elementos,
To be a brother to th' insensible rock Para ser um irmão para o rock insensível th '
And to the sluggish clod, which the rude swain E, para o torrão lento, que o swain rudes
Turns with his share, and treads upon. Voltas com a sua parte, e pisa. The oak O carvalho
Shall send his roots abroad, and pierce thy mould. Devem enviar suas raízes no exterior, e furar o teu molde.
Yet not to thy eternal resting place No entanto, nem a teu lugar de descanso eterno
Shalt thou retire alone--nor couldst thou wish Tu aposentar sozinho - nem tu poderias desejar
Couch more magnificent. Couch mais magnífica. Thou shalt lie down Tu te deitarás
, With patriarchs of the infant world--with kings , Com patriarcas do mundo infantil - com reis
The powerful of the earth--the wise, the good, O poderoso da terra - o sábio, o bom,
Fair forms, and hoary seers of ages past, Formas justas e videntes hoary de eras passadas,
All in one mighty sepulchre. --The hills Tudo em um poderoso sepulcro. - As colinas
Rock-ribb'd and ancient as the sun,--the vales Rock-ribb'd e antiga como o sol, - os vales
Stretching in pensive quietness between; Alongamento em silêncio pensativo entre;
The vernal woods--rivers that move Os vernal madeiras - rios que se movem
In majesty, and the complaining brooks Em majestade, e os ribeiros reclamando
That make the meadows green; and pour'd round all, Que fazem a prados verdes e pour'd rodada de tudo,
Old ocean's grey and melancholy waste,-- Cinza Velho oceano e melancolia resíduos, -
Are but the solemn decorations all São apenas as decorações solenes todos
Of the great tomb of man. The golden sun, Do grande túmulo do homem. o sol dourado,
The planets, all the infinite host of heaven, Os planetas, todo o exército dos céus, infinito
Are shining on the sad abodes of death, Estão brilhando sobre as moradas tristes de morte,
Through the still lapse of ages. Através do lapso ainda de idades. All that tread Todos piso que
The globe are but a handful to the tribes O globo são apenas um punhado para as tribos
That slumber in its bosom.--Take the wings Isso sono em seu seio -. Tomar as asas
Of morning--and the Barcan desert pierce, De manhã - eo Barcan deserto Pierce,
Or lost thyself in the continuous woods Ou perdeu-te na floresta contínua
Where rolls the Oregan, and hears no sound, Onde rola o Oregan, e ouve nenhum som,
Save his own dashings--yet--the dead are there, Salvar seus próprios dashings - ainda - ali estão os mortos,
And millions in those solitudes, since first E os milhões em solidões, desde a primeira
The flight of years began, have laid them down O vôo do ano começou, lançaram-los
In their last sleep--the dead reign there alone. -- Em seu último sono - o reinado morto lá sozinho. -
So shalt thou rest--and what if thou shalt fall Então tu hás de resto - e que se queda tu
Unnoticed by the living--and no friend Despercebida pela vida - e nenhum amigo
Take note of thy departure? Tome nota da tua partida? All that breathe Tudo o que respira
Will share thy destiny. Irá partilhar o teu destino. The gay will laugh, O gay vai rir,
When thou art gone, the solemn brood of care Quando tu és ido, ninhada solene de cuidados
Plod on, and each one as before will chase Plod, e cada um vai perseguir como antes
His favourite phantom; yet all these shall leave Seu fantasma favorito; ainda todos estes devem deixar
Their mirth and their employments, and shall come, Sua alegria e seus empregos, e vem,
And make their bed with thee. E fazer a sua cama contigo. As the long train Como o trem longo
Of ages glide away, the sons of men, De idades deslizar fora, os filhos dos homens,
The youth in life's green spring, and he who goes A juventude em verde primavera da vida, e quem vai
In the full strength of years, matron, and maid, Em toda a força de anos, a matrona, ea empregada,
The bow'd with age, the infant in the smiles O bow'd com a idade, a criança nos sorrisos
And beauty of its innocent age cut off,-- Ea beleza de sua idade inocente cortado, -
Shall one by one be gathered to thy side, Será um por um ser recolhido ao teu lado,
By those, who in their turn shall follow them. Por aqueles, que por sua vez deve segui-los.
So live, that when thy summons comes to join Então viva, que quando teus convocação vem para se juntar
The innumerable caravan, that moves A caravana inumeráveis, que se move
To the pale realms of shade, where each shall take Para os reinos pálidas de sombra, onde cada um deve tomar
His chamber in the silent halls of death, Sua câmara nos corredores silenciosos da morte,
Thou go not, like the quarry-slave at night, Tu não vai, como a pedreira-escravo, à noite,
Scourge d to his dungeon, but sustain'd and sooth'd Flagelo d para seu calabouço, mas sustain'd e sooth'd
By an unfaltering trust, approach thy grave, Por uma confiança inabalável, aproximar tua sepultura,
Like one who wraps the drapery of his couch Como aquele que envolve a roupagem de seu sofá
About him, and lies down to pleasant dreams. Sobre ele, e deita-se aos sonhos agradáveis.
  1814

.
A criança e o lírio

Nívea flor, inocente infante!
Iguais sois ao nascerem,
Dos puros e dóceis o encontro assim deve ser,
Pureza e pureza, doçura e doçura.

Como aquelas alvas pétalas há pouco separadas,
De vosso coração pequeno e compassivo as dobras são;
Culposas paixões, malfazejos atos
Jamais nele deixaram um só vestígio.

Pura inocência! Posto, agora, os olhos ergueis
Com franzido cenho para a branca folha,
Logo se enfastiarão vossos olhos cândidos,
Linda que seja, dela vos afastareis.

Em vossas horas de canseiras, livrai-vos dela,
A bela branca flor, arremessai-a ao chão;
Contudo, à medida que vos fogem os tenros anos,
Do coração a pureza e a inocência conservai.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Fanha

.
Eu sou português aqui - José Fanha :
.
.
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Isidore Ducasse (Comte de Lautréamont)

.
Les chants de Madoror - Isidore Ducasse (Comte de Lautréamont) :
.
.
Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que eu não ria. Vi os homens, de cabeça feia e terríveis olhos enterrados na órbita escura, ultrapassarem a dureza do rochedo, a rigidez do aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, a fúria insane dos criminosos, as traições do hipócrita, os comediantes mais extraordinários, a força de carácter dos padres, e os seres mais escondidos por fora, os mais frios dos mundos e do céu; vi-os cansar os moralistas para descobrirem o seu coração e fazerem recair do alto sobre eles a cólera implacável. Vi-os todos ao mesmo tempo: ora, com o mais robusto punho erguido para o céu, como o de uma criança, já perversa, contra a mãe, provavelmente incitados por algum espírito do inferno, com os olhos carregados de um remorso agudo mas cheio de ódio, num silêncio glacial, sem ousarem emitir as meditações vastas e ingratas que abrigavam no peito, tão plenas de injustiça e de horror elas eram, e entristecerem de compaixão o Deus de misericórdia; ora, em cada momento do dia, desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando inacreditáveis anátemas sem senso comum contra tudo o que respira, contra si próprios e contra a Providência, prostituírem as mulheres e as crianças e desonrarem assim as partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares erguem as suas águas, engolem as tábuas nos seus abismos; os furacões e os tremores de terra derrubam as casas; a peste e as diversas doenças dizimam as famílias em oração. Mas os homens não dão por isso. Também os vi a corarem e empalidecerem de vergonha pelo seu comportamento sobre a terra; raramente. Tempestades, irmãs dos furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do meu coração; terra, de misterioso seio; habitantes das esferas; universo inteiro; Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me um homem que seja bom!... Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de espanto; morre-se por menos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Teixeira Pascoaes

.
Deslumbramento - Teixeira Pascoaes :
.
.
A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria,
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa...
É doido torvelinho que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade...
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero! Um grito
De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
.
Encantamento :
.
Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar...
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

domingo, 11 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Félix Arvers

.
Meu Segredo - Félix Arvers :
.
.

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
"Que mulher será esta?" E não compreenderá.
.
(Tradução de Olegário Mariano)

sábado, 10 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Oswald de Andrade

.
A descoberta - Oswald de Andrade :
.
.

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ezra Pound

.
Ezra Pound :
.
.
SAUDAÇÃO

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.


(tradução de Mário Faustino)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Bandeira

.
O ultimo poema - Manuel Bandeira :
.
.
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Valéry

.
Paul Valéry :
.
.
A ADORMECIDA
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos
.
(tradução: Augusto de Campos)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mario de Benedetti

.
Por que Cantamos  - Mario de Benedetti :
.
.
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Fiódor Dostoievski

.
Fiódor Dostoievski :
.
.
A Prisão DouradaTenta fazer esta experiência, construindo um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! "Estou muito bem aqui sozinho!". Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros, e é-te dito: 'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!". Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu paraíso e pular por cima do muro. Mais! Tudo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade.

domingo, 4 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Miguel Ángel Asturias

.
Credo - Miguel Ángel Asturias :
.
.

Credo (Miguel Angel Astúrias)

Creio na Liberdade, Mãe de América
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!
.
Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.
.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

sábado, 3 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Stephen Spender

.
Rough - Stephen Spender  :
.
.
Rough
My parents kept me from children who were rough
Who threw words like stones and who torn clothes.
Their thighs showed through rags.. They ran in the street
And climbed cliffs and stripped by the country streams.

If feared more than tigers th.eit: musdes like iron
Their jerkirig hands and their knees tight on my arms.
I feared the salt coarse pointing of those boys
Who copied my lisp behind me on the road.

They were lithe, they sprang out behind hedges
Like dogs to bark at my world. They threw mud
While I looked the other way, pretending to smile.
I longed to forgive them, but they never smiled.
Tosco

Mis padres me protegían de niños que eran toscos
que emitían palabras como piedras y llevaban raídas ropas,
mostrando sus muslos a través de harapos. Corrían por la calle,
escalaban riscos y se desnudaban junto a los arroyos del campo.

Temía a sus músculos. de acero más que a tigres,
a sus agitadas manos y a sus rodillas firmes sobre mis brazos.
Temía el grosero señalar con descaro de aquellos niños
que imitaban mi ceceo a mi espalda en la calle.

Eran ágiles y aparecían como perros desde detrás de setos
para ladrar a mi mundo. Lanzaban barro
mientras yo miraba hacia otro lado fingiendo sonreír.
Deseaba perdonarlos ardientemente, pero ellos no sonreían nunca.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Herberto Helder

.
Sobre o Poema - Herberto Helder :
.
.
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Thomas Hardy

.
Thomas Hardy :
.
.
O OUTRO
Eis aqui o chão antigo,
tão gasto e liso de andado.
Eis aqui limiar amigo
que mortos pés hão cruzado

Na cadeira ela sentada
para o lume se sorria;
e dele a vida brincada
no fogo se consumia.

Criança, em sonhos dancei;
feliz o dia passou,
dourado brasão de um rei.
Mas nenhum de nós olhou.