sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Henri Michaux

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Henri Michaux :

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À distância!
tu aí, mantêm-te à distância!

neutralizado
paralizado

com a dor de uma perna partida num descarrilamento
debaixo do eixo que a esmaga
que lhe parou mesmo em cima
e tu também mesmo aí parado

longe de mim...
que o mal entre em ti, massa idiota

que o mal entre em ti
agitado de fumo
espalhando clamores
derrubado por búfalos!

Polvo sobre a tua capa
excessivamente pesada e cara

anfractuosidade sobre a tua face
rijo martelo sobre os teus dedos frios 
rijo martelo sobre o teu caminhar horripilante 
de cem faces, de cem ratoeiras, de cem 
pequenos fragores!

Máquinas sobre ti
de devastar 
de despedaçar
de esticar 
de abater
de enlouquecer

máquinas incoercíveis, incansáveis
capazes de matar à pancada o mais enfadonho!

Tóneis rolantes sobre a tua fronte para deixares 
de dormir
desabamentos e obras sobre a tua fronte para
deixares de dormir
formigas, papa-léguas, desassossegos
carros de lilipute sob a tua fronte para
deixares de dormir
funda que volteia, arco tenso ao teu ouvido para
deixares de ouvir!

Uivos no teu pescoço
uivos sobre os rebanhos que te apaudem
sobre o alarve que tu és
sobre as tuas notas a arruinarem-se 
sobre o regalo do teu cú mimado!

Que os estropiados te tomem por passeio
que os babuínos roedores de ramos te tomem
por coqueiro.

à distância
à distância
à distância

que a tua interminável língua
que ficou ainda mais longa depois de tanto
tempo a cantar músicas idiotas
sirva de correia de transmissão nas fábricas
sirva nas gruas a içar contentores
sirva no porto lingar cubas e pepas de cerveja
que te afoga os neuróneos!

À distância sobes montes sem fim 
cais numa floresta de cordas
és levado por um onagro
por um rebanho de bisontes
por um rinoceronte furioso
por seja lá quem fôr
seja lá o quê
seja lá quem fôr

passando para o mundo do horror
da infecção
da putrefacção

à distância
à distância
à distância

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