sábado, 6 de julho de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jacint Verdaguer

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 Jacint Verdaguer :
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À Beira-Mar :

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No alto de um promontório que domina
as ondas desse mar,
quando ao poente o astro rei declina
me ponho a meditar.
Com o esplendor daquela luz acesa
contemplo o meu não-ser;
contemplo o mar e o céu, e sua grandeza
esmaga meu poder.
Ondas a me guardar tantas lembranças
(espelho de estrelas),
que aos meus sonhos já mortos não me cansa
observar entre elas.
Tantos castelos nesta praia alcei
que o vento pôs um fim,
com cúpulas e torres altaneiras
de ouro, prata e marfim:
poemas, ai!, que por um tempo foram
qual jogos de azar,
conchinhas que um instante vêm para fora
para ao fundo voltar:
barcos com suas velas que naufragam
numa manhã de maio,
ilhas de ouro que nascem e se apagam
vindo o primeiro raio:
ideias que me encurtam a existência
roubando-me o calor;
qual lufada que leva com a essência
a ressecada flor:
Do coração ou da vida, algo tomam
as ondas que se vão;
se nada tenho, as ondas que ora assomam
que querem me dirão?
Com as ondas do mar ou as do tempo um dia
hei de rodar ao fundo;
por que, por que, enganosa poesia,
me ensinas fazer mundos?
Por que escrever nas areias os versos meus?
Quando em tuas singelas
páginas, ó praia do mar dos céus,
os farei com estrelas?

Tradução de Fábio Aristimunho Vargas
(retirado, com a devida vénia, do blog "Minhas Poesias Preferidas")

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