sábado, 31 de maio de 2014

Momento Poético

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Homem de um só parecer :

Homem dum só parecer,
D'um só rosto, uma só fé,
D’antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Tudo seu remédio tem,
E que é assim bem o sabeis.'
E ao remédio também.
Querei-Ios conhecer bem?
No fruto os conhecereis.

Ah! senhor, que vos direi
Que acede mais vento às velas?
Nunca se descuide o rei,
Que inda não é feita a lei
Já lhe são feitas cautelas.
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Sá de Miranda (1481-1558)

- da carta ao rei D. João III -
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Momento Poético

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Dulcineia, dulcineia :

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Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
- sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva...

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos...
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI...

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.
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José Gomes Ferreira 
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Momento Poético

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Abandono :
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Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
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Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
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Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.
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David Mourão Ferreira
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Momento Poético

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Inventário :

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
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José Saramago

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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

terça-feira, 27 de maio de 2014

Momento Poético

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Fado Maluda :

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Nasceu guardiã dos sonhos
Tem a magia nos olhos
Traz os segredos na mão
Torna Lisboa mais bela
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração
Torna Lisboa mais bela
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração

São quiosques, são telhados
E há pardais alucinados
Embriagados no Tejo
E uma cegonha perdida
Confusa, pediu guarida
Numa tela de Além Tejo
E uma cegonha perdida
Confusa, pediu guarida
Numa tela de Além Tejo

Tonalidades secretas
Azuis de Prússia, violetas
Ardências de chão queimado
E onde a noite princípia
Para não morrer a magia
Pousa os pincéis, canta o fado
E onde a noite principia
Para não morrer a magia
Pousa os pincéis, canta o fado
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Rosa Lobato de Faria
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Momento Poético

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Cai chuva do ceu cinzento :

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
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Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
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Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa, 15-11-1930
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

domingo, 25 de maio de 2014

Momento Poético

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"Recado a Lisboa" :
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Lisboa, querida mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude Lisboa
A cumprir esta mensagem
De um português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de São João
Lá pelas ruas de Alfama
Acendo o meu coração
No fogo da tua chama

Depois levo pela cidade
Num vaso de manjericos
Para matar a saudade
Desta saudade em que fico

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar
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João Villaret
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

sábado, 24 de maio de 2014

Momento Poético

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ADÁGIO :

Quanto caminho andado
desde o primeiro poema
ai quanto amor amassado
com mãos de alegria e pena
ai quanto caminho andado
serena.

Quanto verso ensanguentado
quanta distância de mim
quanto amor desesperado
quanto secreto jardim
ai quanto caminho errado
sem fim.

Morro por ti mas tu não vens
dentro de mim te chamo
mas tu não estás
mas tu não vês
o que arranquei de mim
meu amor tu não és
quem amo.

Ai quanto caminho andado
sozinha dentro de mim
ai quanto caminho errado
sem fim.

Canto por ti mas tu não és
dentro de mim te choro
mas tu não estás
mas tu não vês
já te arranquei de mim
é só por te não ter
que eu morro.
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José Carlos Ary dos Santos
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

Pensamento/Adivinha do Dia

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A quem é atribuído este Pensamento ? :

Conhece bem a sua Freguesia ?
- Onde se encontra esta figueira ?
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Soluções do dia anterior :
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Foto : Rua João de Lemos
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NelitOlivas

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Momento Poético

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Gaivota :

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
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Alexandre O'Neill
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(Material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Momento Poético

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Porque :

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
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Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
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Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
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Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
in Mar Novo (1958)

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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Momento Poético

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Desejos vãos :
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Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
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Florbela Espanca
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

terça-feira, 20 de maio de 2014

Momento Poético

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Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador ?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador !

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador !

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador. 

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador !
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Almeida Garrett
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NelitOlivas

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Momento Poético

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Eu tenho uma espécie de dever
de dever de sonhar
de sonhar sempre,
pois, sendo mais que uma espectadora de mim mesma
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas,
invento palco, cenário
para viver o meu sonho,
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Sonho impossível :

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã este chão que eu deixei
Por meu leito e perdão
Por saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão" Sonho Impossível
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Fernando Pessoa

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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

domingo, 18 de maio de 2014

Momento Poético

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Canção perdida :


Hálitos de lilás, de violeta e d’opala,
Roxas macerações de dor e d’agonia, 
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala... 

Triste, canta uma voz na síncope do dia: 

Alguém de mim se não lembra 
Nas terras d’além do mar... 
Ó Morte, dava-te a vida, 
Se tu lha fosses levar!... 

Ó Morte, dava-te a vida, 
Se tu lha fosses levar!... 

Com o beijo do Sol na face cadavérica, 
Beijo que a morte esvai em palidez algente, 
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica... 

Doce, canta uma voz melancolicamente: 

O meu amor escondi-o 
Numa cova ao pé do mar... 
Morre o amor, vive a saudade... 
Morre o Sol, olha o luar!... 

Morre o amor, vive a saudade... 
Morre o Sol, olha o luar!... 

Latescente a neblina opálica flutua, 
Diluindo, evaporando os montes de granito 
Em colossos de sonho, extasiados de Lua... 

Flébil, chora uma voz no letargo infinito: 

Quem dá ais, ó rouxinol, 
Lá para as bandas do mar?... 
É o meu amor que na cova 
Leva as noites a chorar!... 

É o meu amor que na cova 
Leva as noites a chorar!... 

A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma, 
Imponderalizou a natureza inteira, 
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma... 

Triste expira uma voz na canção derradeira: 

Ó meu amor, dorme, dorme 
Na areia fina do mar. 
Que em antes da estrela d’alva 
Contigo me irei deitar!... 

Que em antes da estrela d’alva 
Contigo me irei deitar!... 


Guerra Junqueiro
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

sábado, 17 de maio de 2014

Momento Poético

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Queixa das Almas Jovens Censuradas :

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte
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Natália Correia
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NelitOlivas


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Momento Poético

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Menina dos olhos de Água :


Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
e aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar
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Pedro Barroso
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NelitOlivas

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Momento poético

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"Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar".

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
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II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
 
Sophia de Mello Breyner in Poesia, 1944
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Momento poético

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O navio de espelhos  :

O navio de espelhos
não navega       cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
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Mário Cesariny 
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

terça-feira, 13 de maio de 2014

Momento Poético

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A Prece :
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Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho…
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Talvez que eu morra na rua
- Ínvia por mim de repente –
Em noite fria, sem Lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!
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Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem o meu coração.
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Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo…
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Talvez que eu morra no leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal !
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Pedro Homem de Melo
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas