domingo, 18 de maio de 2014

Momento Poético

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Canção perdida :


Hálitos de lilás, de violeta e d’opala,
Roxas macerações de dor e d’agonia, 
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala... 

Triste, canta uma voz na síncope do dia: 

Alguém de mim se não lembra 
Nas terras d’além do mar... 
Ó Morte, dava-te a vida, 
Se tu lha fosses levar!... 

Ó Morte, dava-te a vida, 
Se tu lha fosses levar!... 

Com o beijo do Sol na face cadavérica, 
Beijo que a morte esvai em palidez algente, 
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica... 

Doce, canta uma voz melancolicamente: 

O meu amor escondi-o 
Numa cova ao pé do mar... 
Morre o amor, vive a saudade... 
Morre o Sol, olha o luar!... 

Morre o amor, vive a saudade... 
Morre o Sol, olha o luar!... 

Latescente a neblina opálica flutua, 
Diluindo, evaporando os montes de granito 
Em colossos de sonho, extasiados de Lua... 

Flébil, chora uma voz no letargo infinito: 

Quem dá ais, ó rouxinol, 
Lá para as bandas do mar?... 
É o meu amor que na cova 
Leva as noites a chorar!... 

É o meu amor que na cova 
Leva as noites a chorar!... 

A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma, 
Imponderalizou a natureza inteira, 
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma... 

Triste expira uma voz na canção derradeira: 

Ó meu amor, dorme, dorme 
Na areia fina do mar. 
Que em antes da estrela d’alva 
Contigo me irei deitar!... 

Que em antes da estrela d’alva 
Contigo me irei deitar!... 


Guerra Junqueiro
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(material recolhido para publicação na página-Facebook da Universidade Sénior de Alcântara, ao abrigo do artº 75 do Código do Direito do Autor)
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NelitOlivas

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