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O homem sensato é aquele que se surpreende com tudo.
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O apetite de saber nasce da dúvida. Deixa de acreditar e instrui-te!
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Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo.
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Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
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Não se descobrem novas terras sem se largar de vista a costa, durante muito tempo.
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Não pode haver senão vantagem num acordo e prejuízo num conflito.
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Não há problemas; apenas há soluções. O espírito de homem, depois, inventa o problema.
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Invejar a felicidade alheia é loucura: não nos saberíamos servir dela. A felicidade não se quer de confecção, mas sob medida.
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Encontrar uma boa fórmula não basta, trata-se de não a abandonar.
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É em nome da fé que se mata.
Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os
seres! Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias, Isolado, nessa
crepuscular solidão que o acompanha.
E é então que vejo descer sobre
ele Uma como sombra de celestiais eflúvios: - A Poesia, a Poesia de
inesperadas ressonâncias, A grande Poesia, que é uma exalação
indefinível, Que é um som infinito, vindo de outras esferas, Que é a
comunicação miraculosa de outros seres e de outras regiões.
dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986 : .
agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.
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(tradução de leo gonçalves)
"Estes homens d'onde irão?"
Qual será o coração tão cru e sem piedade, que lhe não cause paixão uma tão grã crueldade e morte tão sem razão? Triste de mim, inocente, que, por ter muito fervente lealdade, fé, amor ao príncipe, meu senhor, me mataram cruamente!
A minha desaventura não contente d’acabar-me, por me dar maior tristura me foi pôr em tant’altura, para d’alto derribar-me; que, se me matara alguém, antes de ter tanto bem, em tais chamas não ardera, pai, filhos não conhecera, nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina, por nome Dona Inês de Castro, e de tal doutrina e virtudes, qu’era dina de meu mal ser ao revés. Vivia sem me lembrar que paixão podia dar nem dá-la ninguém a mim: foi-m’o príncipe olhar, por seu nojo e minha fim.
Começou-m’a desejar trabalhou por me servir; Fortuna foi ordenar dous corações conformar a uma vontade vir. Conheceu-me, conheci-o, quis-me bem e eu a ele, perdeu-me, também perdi-o; nunca té morte foi frio o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade, não senti perda de fama; pus nele minha verdade, quis fazer sua vontade, sendo mui formosa dama. Por m’estas obras pagar nunca jamais quis casar; pelo qual, aconselhado foi el-rei qu’era forçado, pelo seu, de me matar.
Estava mui acatada, como princesa servida, em meus paços mui honrada, de tudo mui abastada, de meu senhor mui querida. Estando mui de vagar, bem fora de tal cuidar, em Coimbra, d’assossego, pelos campos do Mondego cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu’hão de ser logo dão no coração, comecei entristecer e comigo só dizer: “Estes homens onde irão?” E tanto que perguntei, soube logo qu’era el-rei. Quando o vi tão apressado, meu coração trespassado foi, que nunca mais falei.
E quando vi que descia, saí a porta da sala, devinhando o que queria; com grão choro e cortesia lhe fiz uma triste fala. Meus filhos pus de redor de mim com grande humildade; mui cortada de temor lhe disse: - “Havei, senhor, desta triste piedade!
“Não possa mais a paixão que o que deveis fazer; metei nisso bem a mão, qu’é de fraco coração sem porquê matar mulher; quanto mais a mim, que dão culpa não sendo razão, por ser mãe dos inocentes qu’ante vós estão presentes, os quais vossos netos são.
“E tem tão pouca idade que, se não forem criados de mim, só com saudade e sua grande orfandade morrerão desamparados. Olhe bem quanta crueza fará nisto Voss’Alteza, e também, senhor, olhai pois do príncipe sois pai, não lhe deis tanta tristeza.
“Lembre-vos o grand’amor que me vosso filho tem, e que sentir grã dor morrer-lhe tal servidor por lhe querer grande bem. Que, s’algum erro fizera, fora bem que padecera e qu’estes filhos ficaram orfãos tristes e buscaram quem deles paixão houvera;
“Mas, pois eu nunca errei e sempre mereci mais, deveis, poderoso rei, não quebrantar vossa lei, que, se morro, quebrantais. Usai mais de piedade que de rigor nem vontade, havei dó, senhor, de mim, não me deis tão triste fim, pois que nunca fiz maldade!”
El-rei, vendo como estava, houve de mim compaixão e viu o que não olhava: qu’eu a ele não errava nem fizera traição. E vendo quão de verdade tive amor e lealdade ao príncipe, cuja são, pôde mais a piedade que a determinação;
Que, se m’ele defendera que seu filho não amasse, e lh’eu não obedecera, então com razão pudera dar-m’a morte qu’ordenasse; mas vendo que nenhum’hora, dês que nasci até’gora, nunca disso me falou, quando se disto lembrou, foi-se pela porta fora.
Com seu rosto lagrimoso, co propósito mudado, muito triste, mui cuidoso, como rei mui piedoso, mui cristão e esforçado. Um daqueles que trazia consigo na companhia, cavaleiro desalmado, de trás dele, mui irado, estas palavras dizia:
“-Senhor, vossa piedade é digna de reprender, pois que, sem necessidade, mudaram vossa vontade lágrimas duma mulher. E quereis qu’abarregado, com filhos, como casado, estê, senhor, vosso filho? De vós mais me maravilho que dele, qu’é namorado.
“Se a logo não matais, não sereis nunca temido nem farão o que mandais, pois tão cedo vos mudais do conselho qu’era havido. Olhai quão justa querela tendes, pois, por amor dela, vosso filho quer estar sem casar e nos quer dar muita guerra com Castela.
“Com sua morte escusareis muitas mortes, muitos danos; vós, senhor, descansareis, e a vós e a nós dareis paz para duzentos anos. O príncipe casará filhos de benção terá, será fora de pecado; qu’agora será anojado, amanhã lh’esquecerá.”
E ouvindo seu dizer, el-rei ficou mui torvado por em tais estremos ver, e que havia de fazer ou um ou outro, forçado. Desejava dar-me vida, por lhe não ter merecida a morte nem nenhum mal: sentia pena mortal por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava a ele tod’esta culpa, e que tanto o apertava, disse àquele que bradava: “-Minha tenção me desculpa. Se o vós quereis fazer, fazei-o sem mo dizer, qu’eu nisso não mando nada, nem vejo essa coitada por que deva de morrer.”
Fim
Dous cavaleiros irosos, que tais palavras lh’ouviram, mui crus e não piedosos, perversos, desamorosos, contra mim rijo se viram; com as espadas na mão m’atravessam o coração, a confissão me tolheram: este é o galardão que meus amores me deram.
As Pedras : . Esta é a cidade onde os homens se consertam. Repouso num grande leito. O raso e azul círculo celeste . Voou como o chapéu de uma boneca Quando abandonei a luz. Entrei No estômago da indiferença, o armário mudo. . O maior dos almofarizes diminuiu-me. Tornei-me num seixo imóvel. As pedras da barriga estavam tranquilas, . A lápide (2) serena, nada a perturbava. Só a abertura da boca (3) sibilava, Grilo inoportuno . Numa pedreira de silêncios. As pessoas da cidade ouviram-no. Procuraram as pedras, taciturnas e separadas, . A abertura da boca gritava as localizações. Ébria como um feto Sugo a polpa das trevas. . Os tubos de alimentação abraçam-me. Esponjas beijam-me e retiram-me os líquenes. O joalheiro manuseia o cinzel, descerra E força a abertura de um olho de pedra. . Isto é o pós-inferno: vejo a luz. Um vento abre a câmara Do ouvido, esse velho preocupado. . Água apazigua o lábio de sílex, E a luz do dia derrama a sua monotonia na parede. Os enxertadores estão alegres, . Aquecendo as tenazes, içando os delicados martelos. Uma corrente agita os fios Volt após volt. Pontos remendam-me as fissuras. . Um operário passa trazendo um torso róseo. Corações enchem os armazéns. Esta é a cidade das peças sobresselentes. . As minhas pernas e braços enfaixados emanam um doce cheiro a borracha. Aqui eles recompõem cabeças ou qualquer membro. Às sextas, as crianças vêm . Trocar os seus ganchos por mãos. Os mortos deixam olhos para outros. O amor é o uniforme da minha enfermeira calva. . O amor é o osso e tendão da minha praga. O vaso, reconstruído, abriga A rosa esquiva. . Dez dedos moldam uma taça para sombras. Os meus remendos fazem comichão. Não se pode fazer nada, incomoda, mas Ficarei como nova. . (2) Trocadilho: head-stone significa lápide e Plath também insinua, “cabeça de pedra”. (3) Literalmente, é a abertura da boca numa máscara (mouth-hole). . Tradução de David Furtado
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
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A Passionate Sheperd To His Love - CHRISTOPHER MARLOWE :
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El pastor apasionando a su amada
. ven a vivir conmigo y mi amor sé ; todos los placeres hemos de probar, valles, prados,colinas y campos bosques e intrincadas montañas nos dejaran.
Y nos sentaremos en las rocas, viendo los pastores a sus rebaños alimentar, por riachuelos , en cuyas caidas madrigales de melosiosas aver oiremos cantar.
Haremos yacijas de rosas, y de fragantes ramilletes , un millar; y un sombrero de flores y , con hojas de mirto, una faldilla vamos a bordar.
Un vestido hecho con la mas fina lana, sacada de nuestras hermosas ovejas; para el frio, ajustadas zapatillas y de oro puro sus hebillas.
Los pretendientes del pastor bailaran y cantaran para tu regocijo cada mañana de mayo; si estos deleites te logran conmover, entonces vive con migo y mi amor sé.
Chegamos ? Não chegamos ? Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos.
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Basta a fé no que temos. Basta a esperança naquilo que talvez não teremos. Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.
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Chegamos ? Não chegamos ? - Partimos. Vamos. Somos.
Saibam ainda meus tiranos, eu não estou condenada a vestir Ano após ano a melancolia, o desespero, a desolação; Um mensageiro de Esperança vem a mim cada noite, E oferece vida curta, liberdade eterna.
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Vem com os ventos do oeste, com os ares errantes do anoitecer, Com esse claro crepúsculo de céu que traz as estrelas mais densas: Ventos tomam um tom pensativo, e estrelas um lume tenro, E sobem, e mudam visões que me matam de desejo.
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Desejo de nada conhecido nos meus anos mais maduros, Quando a alegria enlouquecia de pavor, contava as futuras lágrimas: Quando, estando o céu do meu espírito cheio de flashes de calor, Eu não sabia de onde eles vinham se do sol ou se da trovoada.
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Mas primeiro, um silêncio de paz —uma calma sem som desce; A luta da angústia acaba a impaciência feroz. Música muda acalma meu peito —harmonia indescritível Que nunca poderia sonhar, até que a Terra se perdesse para mim.
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Então amanhece o Invisível; o oculto revela sua verdade; Meu senso externo foi-se, minha interna essência sente; Suas asas são quase livres —seu lar, seu porto achou, Medindo o abismo inclina-se, e ousa dar o salto final.
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Oh, terrível é a prova —intensa a agonia— Quando a orelha começa a ouvir, e o olho começa a ver; Quando o pulso começa a palpitar —o cérebro a pensar outra vez— A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a corrente.~
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Contudo eu não perca o ardor, nem deseje menor tortura; Quanto mais a angústia atormenta, mais cedo abençoará; E vestido com o fogo do inferno, ou brilhante com luz celeste, Se ele é o arauto da Morte, a visão é divina.
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia, dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!
que las heridas y el esfuerzo son en
vano,
que el enemigo no ceja ni desfallece
y que todo seguirá como
siempre.
Si fue falsa la esperanza, los temores también pueden
mentir.
Tal vez tras ese humo lejano, ocultos
ahora mismo tus
camaradas persigan al adversario en retirada
y, pese a tu escepticismo,
resulten dueños del campo de batalla.
Pues aunque aquí las olas exhaustas
rompan
sin que parezcan ganar un palmo,
por allá la marea inunda bahías y
ensenadas
avanzando en silencio.
os dias sem ninguém pequeníssimos recados escritos à pressa amachucados nos dedos . foi bela a madressilva subindo pela noite da morada esquecida . pedras exactas poeiras perfumadas bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila areias cobertas de insectos ossos dentes e o rio por onde partem as noites de cansaço . luminosa floração luas ácidas despenhando-se fendas de terra cidades costeiras pássaros frágeis caminhos em pleno voo durante a lucidez tremenda do sonho . restam-me os corredores de vidro onde posso afagar os restos carbonizados do corpo abro a porta que dava acesso ao rosto desço os degraus musgosos do pátio atravesso o jardim de alvenaria onde vivi todo este tempo antes de me precipitar.
There is a pleasure in the
pathless woods, There is a rapture on the lonely
shore, There is
society, where none intrudes, By the deep Sea, and music in
its roar: I love
not Man the less, but Nature more, From these our interviews, in
which I steal From all I may be, or have been
before, To
mingle with the Universe, and feel What I can ne'er express, yet
cannot all conceal.
Há nas matas cerradas um
prazer Há nas
encostas solitárias um arrebatamento, Há sociedade, onde ninguém pode
intrometer, Pelo
mar profundo, e música em seu lamento: Eu não amo menos ao Homem, mas à
Natureza mais, Dessas nossas entrevistas, nas
quais capturo De
tudo que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás, Para me misturar ao Universo, e
sentir puro O
que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder .
(Retirado do Blog "Alimento para a Alma", de Michell Macedo)
Dentes de flores, touca de sereno, Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina, Deixa-me prontos os lençóis terrosos E o edredom de musgos escardeados.
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Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me. Põe-me uma lâmpada à cabeceira; Uma constelação; a que te agrade; Todas são boas: a abaixa um pouquinho
.
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos… Te embala um pé celeste desde acima E um pássaro te traça uns compassos
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Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo: Se ele chama novamente por telefone Diz-lhe que não insista, que saí…
. (Tradução de Héctor Zanetti)
A linda Russa . Eis-me diante de todos um homem cheio de senso Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer Tendo provado as dores e as alegrias do amor Tendo sido capaz vez por outra de impor suas idéias Sabendo várias línguas Tendo viajado não pouco Tendo visto a guerra na Artilharia e na Infantaria Ferido na cabeça trepanado com clorofórmio Tendo perdido seus melhores amigos na luta pavorosa Conheço do antigo e do novo tanto quanto um homem só poderia saber de ambos E sem hoje preocupar-me com essa guerra Entre nós e para nós meus amigos Julgo essa longa querela da tradição e da invenção Da Ordem e da Aventura
Vós, cuja boca é feita à imagem da de Deus Boca que é a própria ordem Sede indulgentes quando nos comparades Com aqueles que foram a perfeição da ordem Nós que em toda a parte buscamos a aventura
Não somos vossos inimigos Queremos dar-vos vastos e estranhos domínios Onde o mistério em flores se oferece a quem o quiser colher Lá existem fogos novos de cores jamais vistas Mil fantasmas impoderáveis Aos quais é preciso dar realidade Queremos explorar a bondade país enorme onde tudo se cala Há também o tempo que se pode expulsar ou mandar retornar Piedade de nós que combatemos sempre nas fronteiras Do ilimitado e do futuro Piedade de nossos erros piedade de nossos pecados Eis que retorna o verão a estação violenta E minha juventude morreu como a primavera Oh sol chegou o tempo da Razão ardente E espero Para segui-la sempre a forma nobre e suave Que ela assume para que eu a ame unicamente Ela vem e me atrai como um ferro o íman Ela tem o aspecto adorável De uma adorável ruiva Seus cabelos são de ouro dir-se-iam Um belo relâmpago que durasse Ou essas chamas que pavoneiam Nas rosas-chá que murcham
Mas ride ride de mim Homens de toda parte sobretudo gente daqui Pois há tantas coisas que não ouso contar-vos Tantas coisas que não me deixaríeis dizer Tende piedade de mim.
Deixaram-me só no campo, sob a chuva fina, só. Olhavam-me mudos admirados os álamos nus: sofriam a minha dor: dor de não saber nitidamente…
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E a terra molhada e os negros e altíssimos montes calavam-se vencidos. Parecia que um deus malvado tivesse com um só gesto petrificado tudo.
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E a chuva lavava aquelas pedras.
Aceitarás o amor como eu o encaro ?... . Aceitarás o amor como eu o encaro ?... ...Azul bem leve, um nimbo, suavemente Guarda-te a imagem, como um anteparo Contra estes móveis de banal presente. . Tudo o que há de melhor e de mais raro Vive em teu corpo nu de adolescente, A perna assim jogada e o braço, o claro Olhar preso no meu, perdidamente. . Não exijas mais nada. Não desejo Também mais nada, só te olhar, enquanto A realidade é simples, e isto apenas. . Que grandeza... a evasão total do pejo Que nasce das imperfeições. O encanto Que nasce das adorações serenas.
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Caronte inclinou-se para frente e remou. Todas as coisas eram uma com seu cansaço.
Para ele, não era uma coisa de anos ou de séculos, senão de ilimitados fluxos de tempo, e um antigo peso e uma dor em seus braços que se tinham convertido em parte de um esquema criado pelos deuses e em um pedaço de Eternidade.
Se os deuses lhe tivessem mandado ao menos um vento contrário, isso teria dividido todo o tempo em sua memória em dois fragmentos iguais.
Tão cinzas resultavam sempre as coisas onde ele estava que se alguma luminosidade se demorava entre os mortos, no rosto de alguma rainha, como Cleópatra, seus olhos não poderiam percebê-la.
Era estranho que atualmente os mortos estivessem chegando em tais quantidades. Chegavam de mil em mil, quando costumavam chegar de cinqüenta. Não era a obrigação nem o desejo de Caronte considerar o porquê dessas coisas em sua alma cinza. Inclinava-se para frente e remava.
Então, ninguém veio por um tempo. Não era comum que os deuses não mandassem ninguém da Terra por tal período de tempo. Mas os deuses sabem.
Então, um homem chegou só. E uma pequena sombra sentou-se, estremecendo na praia solitária, e o bote zarpou. Apenas um passageiro. Os deuses sabem. E um Caronte grande e cansado remou junto ao pequeno, silencioso e assustado espírito.
O som do rio era como um poderoso suspiro lançado pela Aflição, no começo, entre suas irmãs, e que não pode morrer como os ecos da dor humana que se apagam nas colinas terrestres, senão que era tão antigo como o tempo e a dor nos braços de Caronte.
Então, no cinza e tranqüilo rio, o bote se materializou na costa de Dis e a pequena sombra, ainda estremecendo, pôs o pé na terra, e Caronte voltou o bote para se dirigir, cansado, ao mundo. Então a pequena sombra falou; havia sido um homem.
"Sou o último", disse.
Nunca ninguém havia feito sorrir Caronte, nunca nada antes o havia feito chorar.
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. A rose-red city : .
. Existe uma estrada Essa estrada, é a estrada que eu amo. Eu a escolhi. Quando trilho esta estrada, as esperanças brotam e, o sorriso se abre em meu rosto Dessa estrada nunca, jamais fugirei.
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido
" Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os
dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são
arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica
com toda a sua força,
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa
alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável."