quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - André Gide

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André Gide :
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O homem sensato é aquele que se surpreende com tudo.
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O apetite de saber nasce da dúvida. Deixa de acreditar e instrui-te!
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Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo.
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Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
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Não se descobrem novas terras sem se largar de vista a costa, durante muito tempo.
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Não pode haver senão vantagem num acordo e prejuízo num conflito.
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Não há problemas; apenas há soluções. O espírito de homem, depois, inventa o problema.
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Invejar a felicidade alheia é loucura: não nos saberíamos servir dela. A felicidade não se quer de confecção, mas sob medida.
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Encontrar uma boa fórmula não basta, trata-se de não a abandonar.
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É em nome da fé que se mata.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Múcio Leão

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Múcio Leão :
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A poesia que desce ao poeta :


Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.


E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres
e de outras regiões.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William S. Burroughs

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A Thanksgiving Prayer - William S. Burroughs :
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dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986 :
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agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.
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(tradução de leo gonçalves)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Felipe Fortuna

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Em seu lugar - Felipe Fortuna :
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Arrumo livros
como lembro os rostos,
de memória. Limpo livros
a me esgueirar
por estantes e frestas,
esgrima. Depois
volto a flagrar as lombadas
queimadas de luz
e de gordura dos dedos
(o corpo continua a penetrar
cada leitura).
Ali estive, aquele ali fui eu,
aqui me reencontro,
estranho antes e depois.
Ninguém fala o título:
ele mesmo
soletra a sua inclusão
e se perfila, agora convocado.
Daqui observo, perto e de rapina,
o livro que li e volta para a fila:
sua lombada erguida frente
à dúvida, que não termina.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gustave Flaubert

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Gustave Flaubert :
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"O que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele."
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"Não desculpo de modo algum aos homens de acção que não vençam, uma vez que o êxito é a única medida do seu mérito."
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"A moral da arte reside na sua própria beleza.
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"Não escolhemos o assunto (...) o segredo das obras-primas está aí, na concordância do assunto e do temperamento do amor."
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"O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma."
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"Eu não tenho nenhuma coragem, mas procedo como se a tivesse, o que talvez venha dar ao mesmo.
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"A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo.
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"Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere.
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"O estilo está sob as palavras como dentro delas. É igualmente a alma e a carne de uma obra.
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"Nada é mais humilhante do que ver os tolos vencer naquilo em que fracassámos."

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Garcia de Resende

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Trovas a Inês de Castro - Garcia de Resende :
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"Estes homens d'onde irão?"
Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’altura,
para d’alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim.
Começou-m’a desejar
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.
Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.
Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego,
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu’hão de ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.
E quando vi que descia,
saí a porta da sala,
devinhando o que queria;
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: - “Havei, senhor,
desta triste piedade!
“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
qu’ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.
“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim, só com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.
“Lembre-vos o grand’amor
que me vosso filho tem,
e que sentir grã dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, s’algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu’estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;
“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”
El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;
Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;
mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca disso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora.
Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dizia:
“-Senhor, vossa piedade
é digna de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas duma mulher.
E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.
“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará
filhos de benção terá,
será fora de pecado;
qu’agora será anojado,
amanhã lh’esquecerá.”
E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“-Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”
Fim
Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh’ouviram,
mui crus e não piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mão
m’atravessam o coração,
a confissão me tolheram:
este é o galardão
que meus amores me deram.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sylvia Plath

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"The Stones" - Sylvia Plath :
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As Pedras :
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Esta é a cidade onde os homens se consertam.
Repouso num grande leito.
O raso e azul círculo celeste
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Voou como o chapéu de uma boneca
Quando abandonei a luz. Entrei
No estômago da indiferença, o armário mudo.
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O maior dos almofarizes diminuiu-me.
Tornei-me num seixo imóvel.
As pedras da barriga estavam tranquilas,
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A lápide (2) serena, nada a perturbava.
Só a abertura da boca (3) sibilava,
Grilo inoportuno
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Numa pedreira de silêncios.
As pessoas da cidade ouviram-no.
Procuraram as pedras, taciturnas e separadas,
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A abertura da boca gritava as localizações.
Ébria como um feto
Sugo a polpa das trevas.
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Os tubos de alimentação abraçam-me. Esponjas beijam-me e retiram-me os líquenes.
O joalheiro manuseia o cinzel, descerra
E força a abertura de um olho de pedra.
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Isto é o pós-inferno: vejo a luz.
Um vento abre a câmara
Do ouvido, esse velho preocupado.
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Água apazigua o lábio de sílex,
E a luz do dia derrama a sua monotonia na parede.
Os enxertadores estão alegres,
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Aquecendo as tenazes, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt após volt. Pontos remendam-me as fissuras.
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Um operário passa trazendo um torso róseo.
Corações enchem os armazéns.
Esta é a cidade das peças sobresselentes.
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As minhas pernas e braços enfaixados emanam um doce cheiro a borracha.
Aqui eles recompõem cabeças ou qualquer membro.
Às sextas, as crianças vêm
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Trocar os seus ganchos por mãos.
Os mortos deixam olhos para outros.
O amor é o uniforme da minha enfermeira calva.
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O amor é o osso e tendão da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa esquiva.
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Dez dedos moldam uma taça para sombras.
Os meus remendos fazem comichão. Não se pode fazer nada, incomoda, mas
Ficarei como nova.
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(2) Trocadilho: head-stone significa lápide e Plath também insinua, “cabeça de pedra”.
(3) Literalmente, é a abertura da boca numa máscara (mouth-hole).
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Tradução de David Furtado

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ruy Belo

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Tu estás aqui - Ruy Belo :
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Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                    o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
                                                                                                  outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso 
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
                                                                                        que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
                                                                                        outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto 
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto 
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos 
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
                                                                                                   a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui 
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Chistopher Marlowe

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A Passionate Sheperd To His Love - CHRISTOPHER MARLOWE :
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El pastor apasionando a su amada 
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              ven a vivir conmigo y mi amor sé ;
todos los placeres hemos de probar,
valles, prados,colinas y campos
bosques e intrincadas montañas nos dejaran.

Y nos sentaremos en las rocas,
viendo los pastores a sus rebaños alimentar,
por riachuelos , en cuyas caidas
madrigales de melosiosas aver oiremos cantar.

Haremos yacijas de rosas,
y de fragantes ramilletes , un millar;
y un sombrero de flores y , con hojas de mirto,
una faldilla vamos a bordar.

Un vestido hecho con la mas fina lana,
sacada de nuestras hermosas ovejas;
para el frio, ajustadas zapatillas
y de oro puro sus hebillas.

Los pretendientes del pastor bailaran y cantaran
para tu regocijo cada mañana de mayo;
si estos deleites te logran conmover,
entonces vive con migo y mi amor sé.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto Frederico Schmidt

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Destino da Beleza - Augusto Frederico Schmidt :
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Quando o tempo desfaz as formas perecíveis
Para onde vai, qual o destino da Beleza,
Qual a expressão da própria identidade ?
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Na hora da libertação das formas,
Qual o destino da Beleza, que as formas puras realizaram ?
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Qual o destino do que é eterno
Mas está consignado no efémero,
No momento inexorável da purificação ?
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A Beleza não morre.
Não importa que o seu caminho
Seja visitado pela destruição, que é a própria lei,
E pelas sombras.
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A Beleza não morre,
Deus recolhe as flores que o tempo desfolha;
Deus recolhe a música das fisionomias
que o tempo escurece e silencia;
Deus recolhe o que venceu as substâncias frágeis
E realizou o milagre do Espírito Impassível
no movimento e na matéria.
Deus recolhe a Beleza, como o corpo absorve a sua sombra
Na hora em que a luz realiza o seu destino de unidade e pureza.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Dicionário Cão.nino Ilustrado - (189)

                                      .

(-z, +s)
 
+
 

 
+
 

 
=

=

=

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Descoberta
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NelitÓlivas

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Boris Pasternak

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Ser famoso... - Boris Pasternak :
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Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.

Não deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sebastião da Gama

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Pelo sonho é que vamos - Sebastião da Gama :
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Chegamos ? Não chegamos ?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
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Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
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Chegamos ? Não chegamos ?
- Partimos. Vamos. Somos.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Emily Bronte

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The Prisoner - Emily Bronte :
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A Prisioneira :
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Saibam ainda meus tiranos, eu não estou condenada a vestir
Ano após ano a melancolia, o desespero, a desolação;
Um mensageiro de Esperança vem a mim cada noite,
E oferece vida curta, liberdade eterna.
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Vem com os ventos do oeste, com os ares errantes do anoitecer,
Com esse claro crepúsculo de céu que traz as estrelas mais densas:
Ventos tomam um tom pensativo, e estrelas um lume tenro,
E sobem, e mudam visões que me matam de desejo.
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Desejo de nada conhecido nos meus anos mais maduros,
Quando a alegria enlouquecia de pavor, contava as futuras lágrimas:
Quando, estando o céu do meu espírito cheio de flashes de calor,
Eu não sabia de onde eles vinham se do sol ou se da trovoada.
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Mas primeiro, um silêncio de paz —uma calma sem som desce;
A luta da angústia acaba a impaciência feroz.
Música muda acalma meu peito —harmonia indescritível
Que nunca poderia sonhar, até que a Terra se perdesse para mim.
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Então amanhece o Invisível; o oculto revela sua verdade;
Meu senso externo foi-se, minha interna essência sente;
Suas asas são quase livres —seu lar, seu porto achou,
Medindo o abismo inclina-se, e ousa dar o salto final.
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Oh, terrível é a prova —intensa a agonia—
Quando a orelha começa a ouvir, e o olho começa a ver;
Quando o pulso começa a palpitar —o cérebro a pensar outra vez—
A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a corrente.~
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Contudo eu não perca o ardor, nem deseje menor tortura;
Quanto mais a angústia atormenta, mais cedo abençoará;
E vestido com o fogo do inferno, ou brilhante com luz celeste,
Se ele é o arauto da Morte, a visão é divina.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Craveirinha

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Tambor - José Craveirinha :
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Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor corpo e alma só tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos. Nem flor nascida no mato do desespero Nem rio correndo para o mar do desespero Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero. Nem nada! Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra. Eu Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra Só tambor perdido na escuridão da noite perdida. Oh velho Deus dos homens eu quero ser tambor e nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida Só tambor noite e dia, dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque! Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor!


 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Arthur Hugh Clough

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Say Not The Struggle - Arthur Hugh Clough :
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No digas que es inútil la lucha,
que las heridas y el esfuerzo son en vano,
que el enemigo no ceja ni desfallece
y que todo seguirá como siempre.

Si fue falsa la esperanza, los temores también pueden mentir.

Tal vez tras ese humo lejano, ocultos
ahora mismo tus camaradas persigan al adversario en retirada
y, pese a tu escepticismo, resulten dueños del campo de batalla.

Pues aunque aquí las olas exhaustas rompan
sin que parezcan ganar un palmo,
por allá la marea inunda bahías y ensenadas
avanzando en silencio.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Al Berto

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Os dias sem ninguém - Al Berto :
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os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
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foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida

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pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
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luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
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restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Lord Byron

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Lord Byron :
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There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne'er express, yet cannot all conceal.


Há nas matas cerradas um prazer
Há nas encostas solitárias um arrebatamento,
Há sociedade, onde ninguém pode intrometer,
Pelo mar profundo, e música em seu lamento:
Eu não amo menos ao Homem, mas à Natureza mais,
Dessas nossas entrevistas, nas quais capturo
De tudo que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás,
Para me misturar ao Universo, e sentir puro
O que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder
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(Retirado do Blog "Alimento para a Alma", de Michell Macedo)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Fiama Hasse Pais Brandão

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Barcas novas - Fiama Hasse Pais Brandão :
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Lisboa tem barcas novas :

Lisboa tem barcas

agora lavradas de armas


Lisboa tem barcas novas

agora lavradas de homens


Barcas novas levam guerra

As armas não lavram terra


São de guerra as barcas novas

ao mar mandadas com homens


Barcas novas são mandadas

sobre o mar


Não lavram terra com armas

os homens


Nelas mandaram meter

os homens com a sua guerra


Ao mar mandaram as barcas

novas lavradas de armas


Barcas novas são mandadas

sobre o mar


Em Lisboa sobre o mar

armas novas são mandadas

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alfonsina Storni

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Voy a dormir - Alfonsina Storni :
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Vou dormir :

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
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Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
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Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
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Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…
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(Tradução de Héctor Zanetti)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rubem Braga

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Rubem Braga :
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Ao Espelho
Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh Braga envelhecido, envilecido.

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Guillaume Apollinaire

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La Jolie Rousse - Guillaume Apollinaire :
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A linda Russa
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Eis-me diante de todos um homem cheio de senso
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer
Tendo provado as dores e as alegrias do amor
Tendo sido capaz vez por outra de impor suas idéias
Sabendo várias línguas
Tendo viajado não pouco
Tendo visto a guerra na Artilharia e na Infantaria
Ferido na cabeça trepanado com clorofórmio
Tendo perdido seus melhores amigos na luta pavorosa
Conheço do antigo e do novo tanto quanto um homem só poderia saber de ambos
E sem hoje preocupar-me com essa guerra
Entre nós e para nós meus amigos
Julgo essa longa querela da tradição e da invenção
Da Ordem e da Aventura

Vós, cuja boca é feita à imagem da de Deus
Boca que é a própria ordem
Sede indulgentes quando nos comparades
Com aqueles que foram a perfeição da ordem
Nós que em toda a parte buscamos a aventura

Não somos vossos inimigos
Queremos dar-vos vastos e estranhos domínios
Onde o mistério em flores se oferece a quem o quiser colher
Lá existem fogos novos de cores jamais vistas
Mil fantasmas impoderáveis
Aos quais é preciso dar realidade
Queremos explorar a bondade país enorme onde tudo se cala
Há também o tempo que se pode expulsar ou mandar retornar
Piedade de nós que combatemos sempre nas fronteiras
Do ilimitado e do futuro
Piedade de nossos erros piedade de nossos pecados
Eis que retorna o verão a estação violenta
E minha juventude morreu como a primavera
Oh sol chegou o tempo da Razão ardente
E espero
Para segui-la sempre a forma nobre e suave
Que ela assume para que eu a ame unicamente
Ela vem e me atrai como um ferro o íman
Ela tem o aspecto adorável
De uma adorável ruiva
Seus cabelos são de ouro dir-se-iam
Um belo relâmpago que durasse
Ou essas chamas que pavoneiam
Nas rosas-chá que murcham

Mas ride ride de mim
Homens de toda parte sobretudo gente daqui
Pois há tantas coisas que não ouso contar-vos
Tantas coisas que não me deixaríeis dizer
Tende piedade de mim.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sandro Penna

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Sandro Penna :
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Mi avevano lasciato solo
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Deixaram-me só
no campo, sob
a chuva fina, só.
Olhavam-me mudos
admirados
os álamos nus: sofriam
a minha dor: dor
de não saber nitidamente…
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E a terra molhada
e os negros e altíssimos montes
calavam-se vencidos. Parecia
que um deus malvado
tivesse com um só gesto
petrificado tudo.
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E a chuva lavava aquelas pedras.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Oswald de Andrade

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Oswald de Andrade :
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Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
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Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
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Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
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Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
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Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Lord Dunsany

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Caronte - Lord Dunsany :
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Caronte inclinou-se para frente e remou. Todas as coisas eram uma com seu cansaço.
Para ele, não era uma coisa de anos ou de séculos, senão de ilimitados fluxos de tempo, e um antigo peso e uma dor em seus braços que se tinham convertido em parte de um esquema criado pelos deuses e em um pedaço de Eternidade.
Se os deuses lhe tivessem mandado ao menos um vento contrário, isso teria dividido todo o tempo em sua memória em dois fragmentos iguais.
Tão cinzas resultavam sempre as coisas onde ele estava que se alguma luminosidade se demorava entre os mortos, no rosto de alguma rainha, como Cleópatra, seus olhos não poderiam percebê-la.
Era estranho que atualmente os mortos estivessem chegando em tais quantidades. Chegavam de mil em mil, quando costumavam chegar de cinqüenta. Não era a obrigação nem o desejo de Caronte considerar o porquê dessas coisas em sua alma cinza. Inclinava-se para frente e remava.
Então, ninguém veio por um tempo. Não era comum que os deuses não mandassem ninguém da Terra por tal período de tempo. Mas os deuses sabem.
Então, um homem chegou só. E uma pequena sombra sentou-se, estremecendo na praia solitária, e o bote zarpou. Apenas um passageiro. Os deuses sabem. E um Caronte grande e cansado remou junto ao pequeno, silencioso e assustado espírito.
O som do rio era como um poderoso suspiro lançado pela Aflição, no começo, entre suas irmãs, e que não pode morrer como os ecos da dor humana que se apagam nas colinas terrestres, senão que era tão antigo como o tempo e a dor nos braços de Caronte.
Então, no cinza e tranqüilo rio, o bote se materializou na costa de Dis e a pequena sombra, ainda estremecendo, pôs o pé na terra, e Caronte voltou o bote para se dirigir, cansado, ao mundo. Então a pequena sombra falou; havia sido um homem.
"Sou o último", disse.
Nunca ninguém havia feito sorrir Caronte, nunca nada antes o havia feito chorar.
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A rose-red city :
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Una ciudad rosa y roja,

la mitad de vieja que el tiempo,

hace mil millones de años

tenía, ni más ni menos,

los dos quintos de la edad

que tendrá el vetusto tiempo

cuando mil millones de años

vuelvan a pasar de nuevo.

¿Qué edad tiene la ciudad

mientras escribo estos versos?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Sousa Freitas

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Acho inúteis as palavras - António Sousa Freitas :
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António Sousa Freitas
Acho inúteis as palavras
Quando o silêncio é maior
Inúteis são os meus gestos
P'ra te falarem de amor

Acho inúteis os sorrisos

Quando a noite nos procura
Inúteis são minhas penas

P'ra te falar de ternura

Acho inúteis nossas bocas

Quando voltar o pecado
Inúteis são os meus olhos

P'ra te falar do passado

Acho inúteis nossos corpos
Quando o desejo é certeza
Inúteis são minhas mãos

Nessa hora de pureza.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Daisaku Ikeda

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Daisaku Ikeda :
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A Estrada
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Existe uma estrada
Essa estrada,
é a estrada que eu amo.
Eu a escolhi.
Quando trilho esta estrada,
as esperanças brotam
e, o sorriso
se abre em meu rosto
Dessa estrada nunca,
jamais fugirei.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel António Pina

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Café Orfeu - Manuel António Pina :
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Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Khalil Gibran

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Os Filhos (O Profeta) - Khalil Gibran :
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  • " Vossos filhos não são vossos filhos.
    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor,
    mas não vossos pensamentos,
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles,
    mas não procureis fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os
    dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são
    arremessados como flechas vivas.
    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica
    com toda a sua força,
    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa
    alegria:
    Pois assim como ele ama a flecha que voa,
    Ama também o arco que permanece estável."