António Cândido Franco :
17
Esforço-me por arrumar os pensamentos.
Antes não havia pássaros.
Era eu o pássaro.
Cantava
mas sem o saber.
Agora há pássaros.
Um pássaro sacudiu o corpo.
Acabei de o ver.
E acabei de por duas vezes
o ouvir cantar.
ainda o vejo e escuto
mas ele
prisioneiro do sia e da luz
não me vê.
Esse pássaro
está dentro da sua manhã de Primavera.
É um pássaro
tão alegre para mim
como tão triste é para ele.
Está tão livre e tão preso
como outrora eu estive
na minha infância
antes de nascer
quando cantava e não me ouvia
quando era mas não me via.
E foi preciso perder a minha infância
afastar-me tanto de casa
para que houvesse um pássaro à minha volta.
Quem é mais
ele ou eu?
Aquele que para nascer deixou de ser
ou aquele que continuou a ser para não ser?
Aquele que nem ser sabe
ou aquele que canta sem saber?
Quem devo escolher
aquele que alegria dá mais triste
ou o que tristeza dando conhece a alegria?
O que houve no haver sem ter havido
foi o que foi só feliz ou o que foi triste?
.
(retirado, com a devida vénia, de "tulisses")

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