sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Momento Poético

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Noutros lugares :

Não é que ser possível ser feliz acabe,

quando se aprende a sê-lo com bem pouco.

Ou que não mais saibamos repetir o gesto

que mais prazer nos dá, ou que daria

a outrem um prazer irresistível. Não:

o tempo nos afina e nos apura:

faríamos o gesto com infinda ciência.

Não é que passem as pessoas, quando

o nosso pouco é feito da passagem delas.

Nem é também que ao jovem seja dado

o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes

de serem destruídos, as pessoas somem,

e não mais voltam onde parecia

que elas ou outras voltariam sempre

por toda a eternidade. Mas não voltam,

desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias

mudam. Desertas ficam praias que brilhavam

não de água ou sol mas solta juventude.

As ruas rasgam casas onde leitos

já frios e lavados não rangiam mais.

E portas encostadas só se abrem sobre

a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,

em que com tempo o gesto sempre o mesmo

faríamos com ciência refinada e sábia

(o mesmo gesto que seria útil,

se o modo e a circunstância persistissem),

tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,

exactamente como dantes. Mas

aonde e como? Aonde e como? Quando?

Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,

a que horas do dia ou da noite, não sei.

Apenas sei que as circunstâncias mudam

e que os lugares acabam. E que a gente

não volta ou não repete, e sem razão, o que

só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,

feita de raiva e do vazio gélido,

não é saudade, não. Mas muito apenas

o horror de não saber como se sabe agora

o mesmo que aprendi. E a solidão

de tudo ser igual doutra maneira.

E o medo de que a vida seja isto:

um hábito quebrado que se não reata,

senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena

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NelitOlivas

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Momento Poético

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NOITE :
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Noites africanas langorosas, 
esbatidas em luares..., 
perdidas em mistérios... 
Há cantos de tungurúluas pelos ares!... 
....................................................
Noites africanas endoidadas, 
onde o barulhento frenesi das batucadas, 
põe tremores nas folhas dos cajueiros... 
..................................................... 
Noites africanas tenebrosas..., 
povoadas de fantasmas e de medos, 
povoadas das histórias de feiticeiros 
que as amas-secas pretas, 
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram, 
e  esqueceram 
as histórias...
Por isso as noites são tristes... 
Endoidadas, tenebrosas, langorosas, 
mas tristes... como o rosto gretado, 
e sulcado de rugas, das velhas pretas... 
como o olhar cansado dos colonos, 
como a solidão das terras enormes 
mas desabitadas...
É que os meninos brancos..., 
esqueceram as histórias, 
com que as amas-secas pretas 
os adormeciam, 
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!... 
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Alda Lara
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NelitOlivas

Momento Poético

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As mãos :
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Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
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Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
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E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
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Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
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Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967
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 NelitOlivas

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Momento Poético

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Jardim do Mar :


Vi um jardim que se desenrolava 
Ao longo de uma encosta suspenso 
Milagrosamente sobre o mar 
Que do largo contra ele cavalgava 
Desconhecido e imenso. 

Jardim de flores selvagens e duras 
E cactos torcidos em mil dobras, 
Caminhos de areia branca e estreitos 
Entre as rochas escuras 
E, aqui e além, os pinheiros 
Magros e direitos. 

Jardim do mar, do sol e do vento, 
Áspero e salgado, 
Pelos duros elementos devastado 
Como por um obscuro tormento: 
E que não podendo como as ondas 
Florescer em espuma, 
Raivoso atira para o largo, uma a uma, 
As pétalas redondas 
Das suas raras flores. 

Jardim que a água chama e devora 
Exausto pelos mil esplendores 
De que o mar se reveste em cada hora. 
Jardim onde o vento batalha 
E que a mão do mar esculpe e talha. 
Nu, áspero, devastado, 
Numa contínua exaltação, 
Jardim quebrado 
Da imensidão. 
Estreita taça 
A transbordar da anunciação 
Que às vezes nas coisas passa.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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NelitOlivas

domingo, 26 de outubro de 2014

Momento Poético

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Retalhos da Vida de Um Médico :

Serras, veredas, atalhos, 
Estradas e fragas de vento, 
Onde se encontram retalhos 
De vidas em sofrimento 
Retalhos fundos nos rostos, 
Mãos duras e retalhadas 
Pelo suor do desgosto, 
Retalha as caras fechadas 
O caminho que seguiste, 
Entre gente pobre e rude, 
Muitas vezes tu abriste 
Uma rosa de saúde 
Cada história é um retalho 
Cortado no coração 
De um homem que no trabalho 
Reparte a vida e o pão 
As vidas que defendeste, 
E o pão que repartiste, 
São lágrimas que tu bebeste 
Dos olhos de um povo triste 
E depois de tanto mundo, 
Retalhado de verdade, 
Também tu chegaste ao fundo 
Da doença da cidade 
Da que não vem na sebenta, 
Daquela que não se ensina, 
Da pobreza que afugenta 
Os barões da medicina 
Tu sabes quanto fizeste, 
A miséria não segura, 
Nem mesmo quando lhe deste 
A receita da ternura

Ary dos Santos

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NelitOlivas

sábado, 25 de outubro de 2014

Momento Poético

"Regresso" :

Quando eu voltar, 
que se alongue sobre o mar, 
o meu canto ao Criador! 
Porque me deu, vida e amor, 
para voltar... 

Voltar... 
Ver de novo baloiçar 
a fronde majestosa das palmeiras 
que as derradeiras horas do dia, 
circundam de magia... 
Regressar... 
Poder de novo respirar, 
(oh!...minha terra!...) 
aquele odor escaldante 
que o húmus vivificante 
do teu solo encerra! 
Embriagar 
uma vez mais o olhar, 
numa alegria selvagem, 
com o tom da tua paisagem, 
que o sol, 
a dardejar calor, 
transforma num inferno de cor... 

Não mais o pregão das varinas, 
nem o ar monótono, igual, 
do casario plano... 
Hei-de ver outra vez as casuarinas 
a debruar o oceano... 
Não mais o agitar fremente 
de uma cidade em convulsão... 
não mais esta visão, 
nem o crepitar mordente 
destes ruídos... 
os meus sentidos 
anseiam pela paz das noites tropicais 
em que o ar parece mudo, 
e o silêncio envolve tudo 
Sede...Tenho sede dos crepúsculos africanos, 
todos os dias iguais, e sempre belos, 
de tons quase irreais... 
Saudade...Tenho saudade 
do horizonte sem barreiras..., 
das calemas traiçoeiras, 
das cheias alucinadas... 
Saudade das batucadas 
que eu nunca via 
mas pressentia 
em cada hora, 
soando pelos longes, noites fora!... 

Sim! Eu hei-de voltar, 
tenho de voltar, 
não há nada que mo impeça. 
Com que prazer 
hei-de esquecer 
toda esta luta insana... 
que em frente está a terra angolana, 
a prometer o mundo 
a quem regressa... 

Ah! quando eu voltar... 
Hão-de as acácias rubras, 
a sangrar 
numa verbena sem fim, 
florir só para mim!... 
E o sol esplendoroso e quente, 
o sol ardente, 
há-de gritar na apoteose do poente, 
o meu prazer sem lei... 
A minha alegria enorme de poder 
enfim dizer: 
Voltei!...
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Alda Lara
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NelitOlivas

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Momento Poético

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Sorriso Audível das Folhas :
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Sorriso audível das folhas 
Não és mais que a brisa ali 
Se eu te olho e tu me olhas, 
Quem primeiro é que sorri? 
O primeiro a sorrir ri. 

Ri e olha de repente 
Para fins de não olhar 
Para onde nas folhas sente 
O som do vento a passar 
Tudo é vento e disfarçar. 

Mas o olhar, de estar olhando 
Onde não olha, voltou 
E estamos os dois falando 
O que se não conversou 
Isto acaba ou começou? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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NelitOlivas

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Momento Poético

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O rapaz da camisola verde :
De mãos nos bolso e de olhar distante, 
Jeito de marinheiro ou de soldado, 
Era um rapaz de camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado.

Perguntei-lhe quem era e ele me disse 
“Sou do monte, Senhor, e um seu criado”. 
Pobre rapaz de camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado. 

Porque me assaltam turvos pensamentos? 
Na minha frente estava um condenado. 
Vai-te, rapaz da camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado.

Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço, 
Indiferente à raiva do meu brado, 
E ali ficou de camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado. 

Soube depois ali que se perdera 
Esse que só eu pudera ter salvado. 
Ai do rapaz da camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado.

Ai do rapaz da camisola verde, 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado. 
Negra madeixa ao vento, 
Boina maruja ao lado.
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Pedro Homem de Melo

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NelitOlivas

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Momento Poético

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O Navio de espelhos :

O navio de espelhos
não navega       cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny

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NelitOlivas

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Momento Poético

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Estou vivo e escrevo sol :

Eu escrevo versos ao meio-dia 
e a morte ao sol é uma cabeleira 
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo 
Estou vivo e escrevo sol 
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam 
no vazio fresco 
é porque aboli todas as mentiras 
e não sou mais que este momento puro 
a coincidência perfeita 
no acto de escrever e sol 
A vertigem única da verdade em riste 
a nulidade de todas as próximas paragens 
navego para o cimo 
tombo na claridade simples 
e os objectos atiram suas faces 
e na minha língua o sol trepida 
Melhor que beber vinho é mais claro 
ser no olhar o próprio olhar 
a maraviha é este espaço aberto 
a rua 
um grito 
a grande toalha do silêncio verde
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António Ramos Rosa

NelitOlivas

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Momento Poético

Prelúdio :
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Pela estrada desce a noite 
Mãe-Negra, desce com ela. 
Nem buganvílias vermelhas, 
nem vestidinhos de folhos, 
nem brincadeiras de guizos 
nas suas mãos apertadas...
Prelúdio
Só duas lágrimas grossas, 
em duas faces cansadas. 
Mãe-Negra tem voz de vento, 
voz de silêncio batendo 
nas folhas do cajueiro... 
Tem voz de noite, descendo
de mansinho, pela estrada.

  • ... Que é feito desses meninos 
    que gostava de embalar?
    Que é feito desses meninos 
    que ela ajudou a criar? 
    Quem ouve agora as histórias 
    que costumava contar?... 
    Mãe-Negra não sabe nada. 
    Mas ai de quem sabe tudo, 
    como eu sei tudo, 
    Mãe-Negra... 

  • É que os meninos cresceram, 
    e esqueceram 
    as histórias 
    que costumavas contar... 
    Muitos partiram pra longe, 
    quem sabe se hão-de voltar!... 
    Só tu ficaste esperando, 
    mãos cruzadas no regaços, 
    bem quieta bem calada… 
    É a tua a voz deste vento, 
    desta saudade descendo 
    de mansinho pela estrada...
Alda Lara
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NelitOlivas

domingo, 19 de outubro de 2014

Momento Poético

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O meu olhar :

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo comigo 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do mundo... 
Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender... 
O mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe porque ama, nem o que é amar... 

Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência é não pensar..

Fernando Pessoa

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NelitOlivas

sábado, 18 de outubro de 2014

Momento Poético

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Quadras da minha solidão : 


Fica longe o sol que vi, 
aquecer meu corpo outrora... 
Como é breve o sol daqui! 
E como é longa esta hora... 

Donde estou vejo partir 
quem parte certo e feliz. 
Só eu fico. E sonho ir, 
rumo ao sol do meu país... 

Por isso as asas dormentes, 
suspiram por outro céu. 
Mas ai delas! tão doentes, 
não podem voar mais eu... 

que comigo, preso a mim, 
tudo quanto sei de cor... 
Chamem-lhe nomes sem fim, 
por todos responde a dor. 

Mas dor de quê? dor de quem, 
se nada tenho a sofrer?... 
Saudade?...Amor?...Sei lá bem! 
É qualquer coisa a morrer... 

E assim, no pulso dos dias, 
sinto chegar outro Outono... 
passam as horas esguias, 
levando o meu abandono...
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Alda Lara 
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NelitOlivas

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Momento Poético

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Anoitecer :

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente,
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que vão ao meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive....

Florbela Espanca
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NelitOlivas

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Momento Poético

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Primavera :
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Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia
E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi
Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver
Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia
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David Mourão- Ferreira
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NelitOlivas

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Momento Poético

Encostas a face à melancolia :

Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave."

Eugénio de Andrade

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NelitOlivas

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Momento Poético

GATO :

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
 .
Alexandre O'Neill
Poesias Completas. 1951-1986
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NelitOlivas

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Momento Poético

Se depois de eu morrer :

"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, 
Não há nada mais simples 
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. 
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. 

Sou fácil de definir. 
Vi como um danado. 
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma. 
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. 
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. 
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras; 
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. 
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. 

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. 
Fechei os olhos e dormi. 
Além disso, fui o único poeta da Natureza."

Alberto Caeiro [F.Pessoa]


NelitOlivas

domingo, 12 de outubro de 2014

Momento Poético

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 O Azul :

O azul, o azul rouco, o azul
sem cor, luz gémea da sede.
Acerca deste rigor
tenho uma palavra a dizer,
uma sílaba a salvar
desta aridez, asa
ferida, o olhar arrastado
pela pedra
calcinada, húmido
ainda de ter pousado
à sombra de um nome,
o teu,
amor do mundo, amor de nada.
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Eugénio de Andrade
(Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
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NelitOlivas

sábado, 11 de outubro de 2014

Momento Poético

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Testamento :

À prostituta mais nova 
Do bairro mais velho e escuro, 
Deixo os meus brincos, lavrados 
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida 
Rapariga sem ternura, 
Sonhamdo algures uma lenda, 
Deixo o meu vestido branco, 
O meu vestido de noiva, 
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo 
Ofereço-o àquele amigo 
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus 
Das contas de outro sofrer, 
São para os homens humildes, 
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos, 
Esses, que são de dor 
Sincera e desordenada... 
Esses, que são de esperança, 
Desesperada mas firme, 
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora, 
Em que a minha alma venha 
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora... 
Com passos feitos de lua, 
Oferecê-los às crianças 
Que encontrares em cada rua..


Alda Lara 
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NelitOlivas

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Momento Poético

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O mar nos olhos :

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma
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Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

NelitOlivas

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Momento Poético

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Fado :

Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço 
Coisas de que não disponho, 

Como se fosse maldade 
Dar-te os olhos para berço 
E os cabelos para sonho. 

Dizem que quando eu me deito 
Contigo uma lua negra 
Vem fazer o casamento. 

Como se fosse defeito 
Saber que a vida não chega 
Para o nosso sentimento.

Lá porque o nosso passeio 
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos. 

Dão um nome muito feio 
Àquelas intimidades 
Em que ficando, fugimos.

Dizem que este desatino 
É a maldita lembrança 
Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino 
E mesmo que seja herança 
É legado natural. 

Porque é virtude tocar-te 
Tu és mais puro que um deus 
Purificas o que afagas. 

Meu amor só de afagar-te 
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.
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Natália Correia
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NelitOlivas

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Momento Poético

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O Somno de João :
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O João dorme... (Ó Maria, 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar...) 

Tem só um palmo de altura 
E nem meio de largura: 
Para o amigo orangotango 
O João seria... um morango! 
Podia engulil-o um leão 
Quando nasce! As pombas são 
Um poucochinho maiores... 
Mas os astros são menores! 

O João dorme... Que regalo! 
Deixal-o dormir, deixal-o! 
Callae-vos, agoas do moinho! 
Ó mar! falla mais baixinho... 
E tu, Mãe! e tu, Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

O João dorme... Innocente! 
Dorme, dorme eternamente, 
Teu calmo somno profundo! 
Não acordes para o mundo, 
Póde affogar-te a maré: 
Tu mal sabes o que isto é... 

Ó Mae! canta-lhe a canção, 
Os versos do teu irmão: 
«Na Vida que a Dor povoa, 
Ha só uma coisa boa, 
Que é dormir, dormir, dormir... 
Tudo vae sem se sentir.» 

Deixa-o dormir, até ser 
Um velhinho... até morrer! 

E tu vel-o-ás crescendo 
A teu lado (estou-o vendo 
João! Que rapaz tão lindo!) 
Mas sempre, sempre dormindo... 

Depois, um dia virá 
Que (dormindo) passará 
Do berço, onde agora dorme, 
Para outro, grande, enorme: 
E as pombas que eram maiores 
Que João... ficarão menores! 

Mas para isso, ó Maria! 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

E os annos irão passando. 

Depois, já velhinho, quando 
(Serás velhinha tambem) 
Perder a cor que, hoje, tem, 
Perder as cores vermelhas 
E for cheiinho de engelhas: 
Morrerá sem o sentir, 
Isto é deixa de dormir... 
Acorda e regressa ao seio 
De Deus, que é d'onde elle veio... 

Mas para isso, ó Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais davagar: 

Não vá o João, acordar... 
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António Nobre, in 'Só'


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NelitOlivas