segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Momento Poético

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Jardim do Mar :


Vi um jardim que se desenrolava 
Ao longo de uma encosta suspenso 
Milagrosamente sobre o mar 
Que do largo contra ele cavalgava 
Desconhecido e imenso. 

Jardim de flores selvagens e duras 
E cactos torcidos em mil dobras, 
Caminhos de areia branca e estreitos 
Entre as rochas escuras 
E, aqui e além, os pinheiros 
Magros e direitos. 

Jardim do mar, do sol e do vento, 
Áspero e salgado, 
Pelos duros elementos devastado 
Como por um obscuro tormento: 
E que não podendo como as ondas 
Florescer em espuma, 
Raivoso atira para o largo, uma a uma, 
As pétalas redondas 
Das suas raras flores. 

Jardim que a água chama e devora 
Exausto pelos mil esplendores 
De que o mar se reveste em cada hora. 
Jardim onde o vento batalha 
E que a mão do mar esculpe e talha. 
Nu, áspero, devastado, 
Numa contínua exaltação, 
Jardim quebrado 
Da imensidão. 
Estreita taça 
A transbordar da anunciação 
Que às vezes nas coisas passa.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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NelitOlivas

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