Velha oliveira, ó irmã do tempo e do silêncio, algo de ti se me tornou hoje perceptível; algo que eu não conhecia e me fez parar na ténue sombra que teces no caminho; algo que é uma doce corola de contacto.
Já os passos da luz se afastam na colina e um rumor de pérolas quebradas desce, lentamente desce por toda a serrania. Já as aves tuas amigas procuram na folhagem a doçura acumulada nos favos da noite. E também já são horas de nós os homens, nós os que passamos, suspendermos as cítaras do pensamento.
Entretanto, ó canção do crepúsculo, velha oliveira, eu paro sob os longos cílios da tua ramagem. Paro e, ao sentir nas mãos o teu enrugado tronco, e, nos olhos, a serenidade das tuas folhas, começo a entender uma bela mensagem: a paz, ah a paz!, a rosa da paz.
É como se uma gota de azeite descesse, brandamente descesse pelas coisas.
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
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"A Description of the Morning" - Jonathan Swift :
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Now hardly here and there a hackney-coach Appearing, show'd the ruddy morn's approach. Now Betty from her master's bed had flown, And softly stole to discompose her own. The slip-shod 'prentice from his master's door Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor. Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs, Prepar'd to scrub the entry and the stairs. The youth with broomy stumps began to trace The kennel-edge, where wheels had worn the place. The small-coal man was heard with cadence deep; Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep." Duns at his lordship's gate began to meet; And brickdust Moll had scream'd through half a street. The turnkey now his flock returning sees, Duly let out a-nights to steal for fees. The watchful bailiffs take their silent stands; And schoolboys lag with satchels in their hands.
Onde moras? Onde moras? Se adivinhasse onde moras ¾ Em frente da tua porta, Olhando a tua janela, Veria passar as horas, As minhas últimas horas. Sem ti a vida que importa? A vida, nem penso nela... Veria passar as horas, As minhas últimas horas, Em frente da tua porta, Olhando a tua janela...
Vamos celebrar a estupidez humana A estupidez de todas as nações O meu país e sua corja de assassinos Covardes, estupradores e ladrões Vamos celebrar a estupidez do povo Nossa polícia e televisão Vamos celebrar nosso governo E nosso estado, que não é nação Celebrar a juventude sem escola As crianças mortas Celebrar nossa desunião Vamos celebrar eros e thanatos Persephone e hades Vamos celebrar nossa tristeza Vamos celebrar nossa vaidade Vamos comemorar como idiotas A cada fevereiro e feriado Todos os mortos nas estradas Os mortos por falta de hospitais Vamos celebrar nossa justiça A ganância e difamação Vamos celebrar os preconceitos O voto dos analfabetos Comemorar a água podre E todos os impostos Queimadas, mentiras e seqüestros Nosso castelo de cartas marcadas O trabalho escravo Nosso pequeno universo Toda hipocrisia e toda afetação Todo roubo e toda indiferença Vamos celebrar epidemias: É a festa da torcida campeã Vamos celebrar a fome Não ter a quem ouvir Não se ter a quem amar Vamos alimentar o que é maldade Vamos machucar o coração Vamos celebrar nossa bandeira Nosso passado de absurdos gloriosos Tudo o que é gratuito e feio Tudo o que é normal Vamos cantar juntos o hino nacional (a lágrima é verdadeira) Vamos celebrar nossa saudade E comemorar a nossa solidão Vamos festejar a inveja A intolerância e a incompreensão Vamos festejar a violência E esquecer a nossa gente Que trabalhou honestamente a vida inteira E agora não tem mais direito a nada Vamos celebrar a aberração De toda a nossa falta de bom senso Nosso descaso por educação Vamos celebrar o horror De tudo isso - com festa, velório e caixão Está tudo morto e enterrado agora Já que também não podemos celebrar A estupidez de quem cantou esta canção Venha meu coração está com pressa Quando a esperança está dispersa Só a verdade me liberta Chega de maldade e ilusão Venha, o amor tem sempre a porta aberta E vem chegando a primavera Nosso futuro recomeça: Venha, que o que vem é perfeição
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To the Virgins, to Make Much of Time - Robert Herrick :
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Colham botões de rosas enquanto podem, O velho Tempo continua voando: E essa mesma flor que hoje lhes sorri, Amanhã estará expirando.
O glorioso sol, lume do céu, Quanto mais alto eleva-se a brilhar, Mais cedo encerrará sua jornada, E mais perto estará de se apagar.
Melhor idade não há que a primeira, Quando a juventude e o sangue pulsam quentes; Mas quando passa, piores são os tempos Que se sucedem e se arrastam inclementes.
Por isso, sem recato, usem o tempo, E enquanto podem, vivam a festejar, Pois depois de haver perdido os áureos anos, Terão o tempo inteiro para repousar.
. Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e
triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase
adormecia, ouvi o que parecia O som de alguém que batia levemente a meus
umbrais «Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais. É só
isso e nada mais.»
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio
dezembro, E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu
qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada P'ra esquecer (em vão) a
amada, hoje entre hostes celestiais — Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais, Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada
reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes
tais! Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo, «É uma visita
pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma visita tardia pede entrada em meus
umbrais. É só isso e nada mais».
E, mais forte num instante, já nem
tardo ou hesitante, «Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me
desculpais; Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo, Tão levemente
batendo, batendo por meus umbrais, Que mal ouvi...» E abri largos,
franquendo-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais.
A treva
enorme fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os
ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e
maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais — Eu o disse, o
nome dela, e o eco disse aos meus ais. Isto só e nada mais.
Para
dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo, Não tardou que ouvisse
novo som batendo mais e mais. «Por certo», disse eu, «aquela bulha é na
minha janela. Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.» Meu
coração se distraía pesquisando estes sinais. «É o vento, e nada
mais.»
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, Entrou
grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais. Não fez nenhum
cumprimento, não parou nem um momento, Mas com ar solene e lento pousou
sobre meus umbrais, Num alvo busto de Atena que há por sobre meus
umbrais. Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez
sorrir minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. «Tens o
aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado, Ó velho corvo emigrado
lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas trevas
infernais.» Disse-me o corvo, «Nunca mais».
Pasmei de ouvir este
raro pássaro falar tão claro, Inda que pouco sentido tivessem palavras
tais. Mas deve ser concedido que ninguém terá havido Que uma ave tenha
tido pousada nos seus umbrais, Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre
seus umbrais, Com o nome «Nunca mais».
Mas o corvo, sobre o busto,
nada mais dissera, augusto, Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse
em ais. Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento Perdido,
murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais Todos — todos lá se foram. Amanhã
também te vais». Disse o corvo, «Nunca mais».
A alma súbito movida
por frase tão bem cabida, «Por certo», disse eu, «são estas vozes
usuais. Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono Seguiram
até que o entono da alma se quebrou em ais, E o bordão de desesp'rança de
seu canto cheio de ais Era este «Nunca mais».
Mas, fazendo inda a
ave escura sorrir a minha amargura, Sentei-me defronte dela, do alvo busto e
meus umbrais; E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira Que
qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais, Esta ave negra e
agoureira dos maus tempos ancestrais, Com aquele «Nunca
mais».
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo À ave que na
minha alma cravava os olhos fatais, Isto e mais ia cismando, a cabeça
reclinando No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais, Naquele
veludo onde ela, entre as sombras desiguais, Reclinar-se-á nunca
mais!
Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso Que anjos
dessem, cujos leves passos soam musicais. «Maldito!», a mim disse, «deu-te
Deus, por anjos concedeu-te O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com
teus ais, O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!» Disse o
corvo, «Nunca mais».
«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave
preta! Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais, Dize a esta
alma entristecida se no Éden de outra vida Verá essa hoje perdida entre
hostes celestiais, Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!» Disse o
corvo, «Nunca mais».
«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu
disse. «Parte! Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas
infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste! Minha
solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!» Disse o corvo, «Nunca
mais».
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda No alvo
busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a medonha dor
de um demónio que sonha, E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e
mais, E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e
mais, Libertar-se-á... nunca mais!
Calar um velho é coisa difícil. Calar um velho autor então é coisa impossível.
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"Existe uma classe de pessoas que dá provas e atribui-se o mérito de ser ilustre há muitas gerações, embora permaneça ociosa e inútil. Intitula-se nobreza; e, não menos do que a classe dos sacerdotes, deve ser considerada como um dos maiores obstáculos à vida livre e um dos mais ferozes e permanentes pilares da tirania.
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"De onde aprendi desde então que o medo recíproco era aquele que governava o mundo.
Ontem, ao luar, nós dois em plena solidão Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão. Nada respondi, calmo assim fiquei Mas, fitando o azul do azul do céu A lua azul eu te mostrei Mostrando-a ti, dos olhos meus correr senti Uma nívea lágrima e, assim, te respondi Fiquei a sorrir por ter o prazer De ver a lágrima nos olhos a sofrer A dor da paixão não tem explicação Como definir o que eu só sei sentir É mister sofrer para se saber O que no peito o coração não quer dizer Pergunta ao luar, travesso e tão taful De noite a chorar na onda toda azul Pergunta, ao luar,do mar à canção Qual o mistério que há na dor de uma paixão Se tu desejas saber o que é o amor E sentir o seu calor O amaríssimo travor do seu dulçor Sobe um monte á beira mar, ao luar Ouve a onda sobre a arei-a a lacrimar Ouve o silêncio a falar na solidão De um calado coração A penar, a derramar os prantos seus Ouve o choro perenal A dor silente, universal E a dor maior, que é a dor de Deus
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"Il n'y a pas d'amour heureux" - Louis Aragon :
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Não existe amor feliz(Versão: Marcelo Moraes
Caetano)
Jamais homem algum conquistou
nem a força,
fraqueza, nem o coração,
E quando crê Abrir os braços, forma a
sombra de uma cruz
Quando se crê feliz, ele se dilacera Sua vida é tão
estranho, doloroso divórcio Não existe amor feliz
Sua vida se
parece aos soldados sem armas que havíamos vestido para um outro
destino de que serve acordar tão cedo como um sino? à noite cada qual,
lunático e franzino, dizei isto, minha vida, e secai vossas lágrimas, não
existe amor feliz
Meu belo amor, meu caro amor, minha fissura Eu te
tenho em mim como um pássaro ferido E há quem me observe a voar,
despercebido, Repetem sem saber o que por nós foi dito E que em teus
grandes olhos já se desconfigura Não existe amor feliz
Aprender a
viver é sempre muito tarde Que choram pela noite, em coro, dois
corações? O que é preciso à mais infeliz das canções? O que é preciso de
arrependimentos bons? O que é preciso chorar sobre doces violões? Não
existe amor feliz
As RosasRosas que desabrochais, Como os primeiros amores, Aos suaves resplendores Matinais;
Em vão ostentais, em vão, A vossa graça suprema; De pouco vale; é o diadema Da ilusão.
Em vão encheis de aroma o ar da tarde; Em vão abris o seio úmido e fresco Do sol nascente aos beijos amorosos; Em vão ornais a fronte à meiga virgem; Em vão, como penhor de puro afeto, Como um elo das almas, Passais do seio amante ao seio amante; Lá bate a hora infausta Em que é força morrer; as folhas lindas Perdem o viço da manhã primeira, As graças e o perfume. Rosas que sois então? – Restos perdidos, Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha Brisa do inverno ou mão indiferente.
Tal é o vosso destino, Ó filhas da natureza; Em que vos pese à beleza, Pereceis; Mas, não... Se a mão de um poeta Vos cultiva agora, ó rosas, Mais vivas, mais jubilosas, Floresceis.
Lá dentro de um arco de pranto, que nenhum ser humano jamais mirará, eu, apagado, de cócoras, com a língua queimada pelo ancestral do mundo, e o grito inútil, adentrado no couro universal, seguirei te chamando: velho, ruinoso, morto, sem cabeça, sem coração, sem pupilas, fundido no infinito do infinito, e no poço tremendamente fundo do irreparável, que circunda a grande solidão catastrófica com que tua atitude desfeita vai me saudar quando me deite, cansado de estar cansado do cansaço, por todo o longo e largo de tuas ribeiras irremediáveis, despedaçado na memória dos séculos, contigo e os filhos e as filhas e os netos e as netas e os pais e as mães, continuarei te chamando; caídos os vestígios e desaparecido, fundido e perdido definitivamente nas trevas da matéria que unicamente, algidamente, pavorosamente ilumina quando engendra, como um eco, um indivíduo, naquele instante imemorável em que não hei de ser nem mesmo uma sombra, e seguirei te chamando pelos séculos dos séculos, desde a eternidade vazia, seguirei te chamando... aprendi a escrever adorando-te, e agora lanço pedaços do mundo em pedaços, tua memória, truncado e desde abaixo, de um montão de escombros, de uma sociedade que se desmorona, agonizando, e os pequenos chacais famintos, que uivam no grande crepúsculo, no qual tudo está destruído, tudo destruído, e por cujo abismo se levantam as a achas e as forcas, entre as chamas amargas, desaforadas das últimas catástrofes, com um enorme cinturão de terremotos e cataclismo; agora a aurora não mais voltará a assomar; e os mundos obscuros, entrechocando-se, rolarão, comigo dentro, à enfurecida solidão.
Degolo minha linguagem a teus pés e me lanço como um touro escuro e desnudo contra o nada.