quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Antonio Cabral

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Antonio Cabral :
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A uma Oliveira
Velha oliveira, ó irmã do tempo e do silêncio,
algo de ti se me tornou hoje perceptível;
algo que eu não conhecia e me fez parar
na ténue sombra que teces no caminho;
algo que é uma doce corola de contacto.

Já os passos da luz se afastam na colina
e um rumor de pérolas quebradas
desce, lentamente desce por toda a serrania.
Já as aves tuas amigas procuram na folhagem
a doçura acumulada nos favos da noite.
E também já são horas
de nós os homens, nós os que passamos,
suspendermos as cítaras do pensamento.

Entretanto, ó canção do crepúsculo, velha oliveira,
eu paro sob os longos cílios da tua ramagem.
Paro e, ao sentir nas mãos o teu enrugado tronco,
e, nos olhos, a serenidade das tuas folhas,
começo a entender uma bela mensagem:
a paz, ah a paz!, a rosa da paz.

É como se uma gota de azeite descesse,
brandamente descesse pelas coisas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Boris Pasternak

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Boris Pasternak :
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Ser famoso...


Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.


O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.


Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.


Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.


Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.


Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.


Não deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cristovan Pavia

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Ao meu cão Fixe - Cristovan Pavia :
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Agora os crepúsculos são frios
E a brisa traz a humidade das folhas mortas...

Tu, meu cão, cerras os olhos e dormes...

Vem aí Dezembro...
Tenho saudades do teu silêncio,
Do teu focinho macio e quente,
Do teu olhar,
Meu amigo!

Oh! meu cão, para ti ainda sou o teu dono menino
E és o único que me acompanha nos passeios mágicos...

Depressa lá estarei contigo. Dezembro aproxima-se...
Agora os crepúsculos são frios...

domingo, 28 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Oscar Wilde

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Loucos e santos - Oscar Wilde :
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Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

sábado, 27 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Casimiro de Abreu

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Meus oito anos - Casimiro de Abreu :
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Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Carmen Cardin

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Fruto Verde - Carmen Cardin :
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Desejável é o fruto, adorável é o sabor
(Romance esse eu queria ter vivido!)
Mais vale não se manifestar o amor
Que ser ele um desejo proibido.

Como um anelo filosófico, profundo
Tal uma ânsia pungente e vital
Assim é o querer, sentimento oriundo
Do Bem, o fôlego da vida, do mal!

Eu seria a primorosa companheira,
Tu serias a inspiração altaneira,
Se o nosso utópico sonho fosse verdade...

Entretanto, a realidade é diferente:
Ainda em nosso mundo não se fez presente
O esplendoroso alvorecer da Felicidade!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

- Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jonathan Swift

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"A Description of the Morning" - Jonathan Swift :
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Now hardly here and there a hackney-coach
Appearing, show'd the ruddy morn's approach.
Now Betty from her master's bed had flown,
And softly stole to discompose her own.
The slip-shod 'prentice from his master's door
Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor.
Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs,
Prepar'd to scrub the entry and the stairs.
The youth with broomy stumps began to trace
The kennel-edge, where wheels had worn the place.
The small-coal man was heard with cadence deep;
Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep."
Duns at his lordship's gate began to meet;
And brickdust Moll had scream'd through half a street.
The turnkey now his flock returning sees,
Duly let out a-nights to steal for fees.
The watchful bailiffs take their silent stands;
And schoolboys lag with satchels in their hands.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Feijó

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(Onde moras Onde moras?) Poema Ideal - António Feijó :
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Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras
¾ Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas.
Sem ti a vida que importa?
A vida, nem penso nela...
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas,
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - T.S. Eliot

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"The Naming of Cats"-T.S. Eliot :
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O nome dos Gatos - Por T.S.Eliot
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Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,
E não um jogo que entretenha os indolentes;
Pode julgar-me louco como o chapeleiro,
Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,
Como Pedro, Augusto, Belarmino ou Tomás
Como Victor ou Jonas, Jorge ou Clemente
- Enfim nomes discretos e bastante usuais.

Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,
Uns para damas, outro para cavalheiros,
Como Platão, Admetus, Electra, Demétrio
Mas são todos discretos e assaz corriqueiros

Mas a um gato cabe dar um nome especial
Um que lhe seja próprio e menos correntio:
Se não como manter a cauda em vertical,
Distender os bigodes e afagar o brio?

Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,
Como Quaxo, Munkunstrap ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum...
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,
Este de que jamais ninguém cogitaria,
O nome que nenhuma ciência exata atesta
SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.

Se um gato surpreenderes com ar meditabundo,
Saibas a origem do deleite que o consome:
Sua mente se entrega ao êxtase profundo
De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:
Seu inefável afável
Inefanefável
Abismal, inviolável e singelo Nome.
***
Extraído do "Livro do velho Gambá sobre gatos travessos".
T.S.Eliot, Obra Completa, vol 1, Poesia.
Tradução de Ivan Junqueira

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Renato Russo

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 Perfeição - Renato Russo :
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Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar eros e thanatos
Persephone e hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
(a lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também não podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

domingo, 21 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Herrick

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To the Virgins, to Make Much of Time - Robert Herrick :
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           Colham botões de rosas enquanto podem,
O velho Tempo continua voando:
E essa mesma flor que hoje lhes sorri,
Amanhã estará expirando.

O glorioso sol, lume do céu,
Quanto mais alto eleva-se a brilhar,
Mais cedo encerrará sua jornada,
E mais perto estará de se apagar.

Melhor idade não há que a primeira,
Quando a juventude e o sangue pulsam quentes;
Mas quando passa, piores são os tempos
Que se sucedem e se arrastam inclementes.

Por isso, sem recato, usem o tempo,
E enquanto podem, vivam a festejar,
Pois depois de haver perdido os áureos anos,
                                     Terão o tempo inteiro para repousar.                                               

sábado, 20 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alexandre O'Neill

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"Há Palavras Que Nos Beijam"  - Alexandre O'Neill  :
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Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Edgar Allan Poe

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The Raven - Edgar Allan Poe :
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O CORVO
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Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - João Cabral de Melo Neto

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"O profissional da memória" - João Cabral de Melo Neto :
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Passeando presente dela

pelas ruas de Sevilha,

imaginou injetar-se

lembranças, como vacina,


para quando fosse dali

poder voltar a habitá-las,

uma e outras, e duplamente,

a mulher, ruas e praças.


Assim, foi entretecendo

entre ela, e Sevilha fios

de memória, para tê-las

num só e ambíguo tecido;


foi-se injetando a presença

a seu lado numa casa,

seu íntimo numa viela,

sua face numa fachada .


Mas desconvivendo delas,

longe da vida e do corpo,

viu que a tela da lembrança

se foi puindo pouco a pouco;


já não lembrava do que

se injetou em tal esquina,

que fonte o lembrava dela,

que gesto dela, qual rima.


A lembrança foi perdendo

a trama exata tecida

até um sépia diluído

de fotografia antiga.


Mas o que perdeu de exato

de outra forma recupera:

que hoje qualquer coisa de um

traz da outra sua atmosfera.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Vittorio Alfieri

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Vittorio Alfieri :
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Calar um velho é coisa difícil. Calar um velho autor então é coisa impossível.
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"Existe uma classe de pessoas que dá provas e atribui-se o mérito de ser ilustre há muitas gerações, embora permaneça ociosa e inútil. Intitula-se nobreza; e, não menos do que a classe dos sacerdotes, deve ser considerada como um dos maiores obstáculos à vida livre e um dos mais ferozes e permanentes pilares da tirania.
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"De onde aprendi desde então que o medo recíproco era aquele que governava o mundo.
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"Os mentirosos estão sempre prontos a jurar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Catulo da Paixão Cearense

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Ontem ao Luar - Catulo da Paixão Cearense :
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Ontem, ao luar, nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão.
Nada respondi, calmo assim fiquei
Mas, fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei
Mostrando-a ti, dos olhos meus correr senti
Uma nívea lágrima e, assim, te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer
De ver a lágrima nos olhos a sofrer
A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que eu só sei sentir
É mister sofrer para se saber
O que no peito o coração não quer dizer
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta, ao luar,do mar à canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor
O amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe um monte á beira mar, ao luar
Ouve a onda sobre a arei-a a lacrimar
Ouve o silêncio a falar na solidão
De um calado coração
A penar, a derramar os prantos seus
Ouve o choro perenal
A dor silente, universal
E a dor maior, que é a dor de Deus

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Louis Aragon

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"Il n'y a pas d'amour heureux" - Louis Aragon :
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Não existe amor feliz(Versão: Marcelo Moraes Caetano)


Jamais homem algum
conquistou

nem a força, fraqueza,
nem o coração,

E quando crê
Abrir os braços, forma a sombra de uma cruz

Quando se crê feliz, ele se dilacera
Sua vida é tão estranho, doloroso divórcio
Não existe amor feliz

Sua vida
se parece aos soldados sem armas
que havíamos vestido para um outro destino
de que serve acordar tão cedo como um sino?
à noite cada qual, lunático e franzino,
dizei isto, minha vida, e secai vossas lágrimas,
não existe amor feliz

Meu belo amor, meu caro amor, minha fissura
Eu te tenho em mim como um pássaro ferido
E há quem me observe a voar, despercebido,
Repetem sem saber o que por nós foi dito
E que em teus grandes olhos já se desconfigura
Não existe amor feliz

Aprender a viver é sempre muito tarde
Que choram pela noite, em coro, dois corações?
O que é preciso à mais infeliz das canções?
O que é preciso de arrependimentos bons?
O que é preciso chorar sobre doces violões?
Não existe amor feliz

sábado, 13 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Saint John Perse

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Vents - Saint John Perse :
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Ventos :

"Eram muito grandes ventos sobre todas as faces deste mundo,
Muito grandes ventos em júbilo pelo mundo, que não tinham direcção nem poiso,
Que não tinham cuidado nem cautela, e nos deixavam, homens de palha,
No ano de palha no seu rasto... Ah! sim, muito grandes ventos sobre todas as faces de vivos!

Farejando a púrpura, o cilício, farejando o marfim e o caco, farejando o mundo inteiro das coisas,
E que corriam por ofício sobre os nossos maiores versos de atletas, de poetas,
Eram muito grandes ventos em demanda sobre todas as pistas deste mundo,
Sobre todas as coisas perecíveis, sobre todas as coisas alcançáveis, através do mundo inteiro das coisas...

E de arejarem a usura e a secura no coração dos homens investidos,
Eis que produziam esse gosto de palha e de aromas, em todas as praças das nossas cidades,
Como no levantamento das grandes lajes públicas.
E o coração erguia-nos
Às bocas mortas dos Ofícios. E o deus refluía grandes obras do espírito.
 
Pois todo um século se propalava na secura da sua palha, entre estranhas desinências: esgotado de vagens, de silíquas, esgotado de coisas frementes,
Como uma grande árvore sob os seus trapos e os seus farrapos do outro inverno, trajando libré do ano morto;
Como uma grande árvore estremecendo nas suas matracas de madeira morta e nas suas corolas de terracota–
Muito grande árvore pedinte que esbanjou o seu património, face queimada de amor e de violência onde o desejo ainda vai cantar.

«Ó tu, desejo, que vais cantar...» E não querem lá ver já toda a minha página ela mesma sussurrante,
Como essa grande árvore de magia sob a sua miséria de inverno: vã com o seu lote de ícones, de fetiches,
Embalando despojos e espectros de gafanhotos; legando, ligando ao vento do céu filiais de asas e de enxames, aluviões do mais alto verbo –
Ah! Muito grande árvore da linguagem povoada de oráculos, de máximas e murmurando murmúrio de nado-cego nos sejam-quem-forem do saber...”

(excerto de: Saint-John Perse, Vents, Oeuvres Complètes, Gallimard, 1972; tradução: Flávio Pinho)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Nathan de Castro

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Soneto do Amor Eterno - Nathan de Castro :
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Hei de falar de amor, porque de amor
eu sobrevivo à luz de cada dia...
E de tanto rimar amor com dor,
já me entreguei aos lábios da poesia.

Hei de escrever as lágrimas da flor...
De orvalhos bebo a paz da melodia
e canto, pois meu canto tem o pôr-
de-sol mais belo ao sol da fantasia.

Hei de cantar as músicas da estrela,
e até que o verso morra, eu quero vê-la
dormindo em meus momentos de cetim...

Mas se a canção pintar outra aquarela,
a noite escreverá nova janela
e o encanto há de acordar noutro jardim.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - W. H. Auden

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"Musee des Beaux Arts" - W. H. Auden :
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MUSÉE DES BEAUX ARTS


Eles nunca se enganavam sobre o sofrimento,

Os Velhos Mestres: como entendiam

Bem a sua posição humana; como tem lugar

Enquanto alguém está comendo ou abrindo uma janela ou só a passear

Por aí, como quando os mais velhos estão reverente, apaixonadamente

Esperando pelo miraculoso nascimento,

Sempre haverá crianças que não queriam, especialmente,

Que isso acontecesse, a patinar num lago na orla do mato:

Eles nunca esqueciam

Que até o terrível martírio tem de seguir o seu curso exato

De qualquer modo num canto, nalgum terreiro

Imundo onde os cachorros continuam levando sua vida canina e o cavalo

Do torturador raspa contra uma árvore o seu inocente traseiro.


No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo o mais se desvia

Tranquilamente do desastre; o camponês com o arado podia

Muito bem ter ouvido o barulho, o grito desamparado,

Mas para ele não era um fracasso importante; o sol brilhou

Como tinha de brilhar sobre as pernas brancas submergindo

Na água verde; e o navio caro e delicado

Que deve ter visto alguma coisa espantosa, um garoto caindo

Do céu, tinha algum lugar para ir e calmamente continuou.

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(Tradução de Renato Suttana)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Machado de Assis

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Machado de Assis :
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As RosasRosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Andre Breton

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Andre Breton :
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andré breton / as atitudes espectrais

Não dou nenhuma importância à vida
Não pego com alfinetes na importância a mais ínfima borboleta de vida
Não importo à vida
Mas os veios do sal os veios brancos
Todas as bolhas de sombra
E as anémonas do mar
Descem e respiram dentro do meu pensamento
Vêm das lágrimas que não verto
Dos passos que não dou passos duas vezes passos -
Na memória da areia ao encher da maré
As grades estão no interior da gaiola
E os pássaros vêm das maiores a1turas cantar diante delas
Uma passagem subterrânea une todos os perfumes
A mulher que lá entrou um dia
Tornou-se tão brilhante que não a vi
Com estes olhos que a mim mesmo viram arder
Tinha já a idade que hoje tenho
E vigiava-me vigiava o meu pensamento como um guarda-nocturno numa fábrica sem fim
Só eu vigiava
A praça continuava a encantar os mesmos eléctricos
As figuras de gesso nada haviam perdido da sua expressão
Mordiam a figa do sorriso
Sei de um tecido numa cidade perdida
Se me apetecesse aparecer-vos vestido desse pano
Imaginariam chegado o vosso fim
E o meu
Enfim as fontes saberiam que não se deve dizer Fontaine
Atraem-se os lobos com espelhos de neve
Tenho uma barca solta de todos os climas
Sou arrastado por um banco de gelo de dentes flamejantes
Corto e racho a lenha desta árvore sempre verde
Um músico ata-se às cordas do seu instrumento
O Pavilhão Negro do tempo de nenhuma história de infância
Aborda um navio que não passa do fantasma do seu
Há talvez uma bainha para esta espada
Mas nesta bainha existe já um duelo
Em que os dois adversários se desarmam
o morto é o menos ofendido
o futuro não é nunca

As cortinas jamais corridas
Tremulam nas janelas por construir
As camas feitas de todas as flores-de-lis
Resvalam sob os candeeiros de orvalho
Uma noite virá
As pepitas de luz imobilizam-se no musgo azulado
As mãos que fazem e desfazem os nós do amor e do ar
Mantêm a transparência para quem vê
As palmas sobre as mãos
As auréolas nos olhos
Mas o braseiro das auréolas e das palmas
Acende-se começa a arder no ermo da floresta
Lá onde os cervos inclinam a cabeça para ver passar os anos
Ainda só se ouve uma fraca pulsação
A gerar mil rumores mais leves ou mais surdos
E esta pulsação perpetua-se
Há vestidos vibrantes
Vibração em uníssono com a pulsação
Mas quando quero ver as caras das que os vestem
Uma grande névoa levanta-se da terra
Por baixo do campanário atrás dos mais elegantes reservatórios de vida e de riqueza
Nas gargantas que escurecem entre duas montanhas
No mar à hora de arrefecer o sol
As estrelas separam os seres que me acenam
Mas o carro lançado a toda a desfilada
Leva-me as hesitações até à última
Que me espera lá longe na cidade onde as estátuas de bronze e de pedra trocam de lugar com as estátuas de cera
Banians banians

Le Revolver à cheveux blancs (1932)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Luiza Caetano

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Luiza Caetano :
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"CANTO A LISBOA"
Lisboa
se vestiu de Rio, languidamente
sensual! tortuosa! brilhante!

Bate o Sol na Mouraria
faz sombra no Bairro Alto,
porque a festa é no Rossio!

Lisboa se vestiu de Rio
na franja do frio
dos embandeirados
barcos no Tejo.

há fumos! há cheiros na brisa
perfumes de namorados

Lisboa,
Coberta de luzes
qual manto de lantejoulas
na Rua do Capelão
Marinheiros soltam amarras
e as varinas o pregão
juntamente... os seus amores

Tomando café na Ribeira
entre um buquê de flores,

Lisboa chora!
Lisboa canta !
Lisboa Ri!

se esfuma no canto do Rio
comendo castanhas assadas
em cada final do dia,

Lisboa de mãos-dadas
apaixonadamente!

domingo, 7 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Faulkner

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William Faulkner  :
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Uma Árvore
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Porque tremes tu aí
Entre o rio branco e a estrada?
Não tens frio,
Com a luz do sol sonhando contigo;
Ainda assim tu ergues teus braços suplicantes como que
De forma a alcançar nuvens do céu pra esconder tua magreza.

Tu és uma jovem menina
Tremendo em espasmos de uma modéstia em êxtase,
Uma branca menina existente
Cujas roupas foram arrancadas à força.

sábado, 6 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Cabral

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"Leonor" - António Cabral :
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LEONOR

A Leonor continua descalça,
o que sempre lhe deu certa graça.

Pelo menos não cheira a chulé
e tem nuvem de pó sobre ò pé.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor

Um filhito ranhoso na mão,
uma ideia já podre no pão.

Meia dúzia de sonhos partidos,
a seus pés, como cacos de vidros.

Digam lá se as madames do Alvor
são tão lindas como esta Leonor.

- António Cabral, Antologia dos Poemas Durienses, Chaves, Edições Tartaruga, 1999.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Pablo de Rokha

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Fuego Negro (fragmento ) - Pablo de Rokha :

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FRAGMENTO
Lá dentro de um arco de pranto, que nenhum ser humano jamais mirará, eu, apagado, de cócoras, com a língua queimada pelo ancestral do mundo, e o grito inútil, adentrado no couro universal, seguirei te chamando: velho, ruinoso, morto, sem cabeça, sem coração, sem pupilas, fundido no infinito do infinito, e no poço tremendamente fundo do irreparável, que circunda a grande solidão catastrófica com que tua atitude desfeita vai me saudar quando me deite, cansado de estar cansado do cansaço, por todo o longo e largo de tuas ribeiras irremediáveis, despedaçado na memória dos séculos, contigo e os filhos e as filhas e os netos e as netas e os pais e as mães, continuarei te chamando; caídos os vestígios e desaparecido, fundido e perdido definitivamente nas trevas da matéria que unicamente, algidamente, pavorosamente ilumina quando engendra, como um eco, um indivíduo, naquele instante imemorável em que não hei de ser nem mesmo uma sombra, e seguirei te chamando pelos séculos dos séculos, desde a eternidade vazia, seguirei te chamando... aprendi a escrever adorando-te, e agora lanço pedaços do mundo em pedaços, tua memória, truncado e desde abaixo, de um montão de escombros, de uma sociedade que se desmorona, agonizando, e os pequenos chacais famintos, que uivam no grande crepúsculo, no qual tudo está destruído, tudo destruído, e por cujo abismo se levantam as a achas e as forcas, entre as chamas amargas, desaforadas das últimas catástrofes, com um enorme cinturão de terremotos e cataclismo; agora a aurora não mais voltará a assomar; e os mundos obscuros, entrechocando-se, rolarão, comigo dentro, à enfurecida solidão.
Degolo minha linguagem a teus pés e me lanço como um touro escuro e desnudo contra o nada.
De FUEGO NEGRO (1963)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - D.H. Lawrence

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"The Ship of Death" - D.H. Lawrence :
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A Barca da Morte

(D.H. Lawrence - Tradução de Rui Rosado)

I


Agora é o Outono, o cair dos frutos

e a longa viagem para o esquecimento.


As maçãs que caem como grandes gotas de orvalho

Conseguem ferir uma saída de si próprias.

5 É tempo de ir, do adeus

ao próprio eu, de encontrar uma saída

do eu caído.


II


Já construiste a tua barca da morte, a tua?.

Constrói a tua barca da morte, vais precisar dela.

10 Não tarda a geada impiedosa, e cairão as maçãs

pesadas, quase retumbantes, na terra ressequida.


E, no ar, a morte como um cheiro de cinzas!

Não a sentes?


E no corpo ferido, a alma assustada
15 fica encolhida, contraíndo-se do frio

que sopra sobre ela pelos orifícios.


III


E consegue um homem a sua quietude

com um punhal nu?


Com adagas, punhais, balas, um homem consegue
20 uma fenda ou ferida para sair a vida;

mas é isso a quietude, diz-me, a quietude?


Claro que não! como pode um crime, mesmo contra si

criar quietude?


IV


Falemos de quietudes que conhecemos,
25 das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes

num coração forte e em paz!


Como tornar, isto em quietude nossa?


V


Constrói, pois, a barca da morte, que vais partir

na mais longa viagem, para o esquecimento.

30 E morre a morte, a longa e dolorida morte

que fica entre o velho e o novo eu.


Caíram-nos já, feridos, rasgados, os corpos,

esvaem-se-nos já as almas pela saída

dessa cruel ferida.

35 O oceano sombrio, infindável, do fim

espraia-se já pelas nossas rebentadas chagas,

abate-se já sobre nós o dilúvio.


Constrói a tua barca da morte, a tua pequena arca

abastece-a com comida biscoitos e vinho,
40 para o obscuro voo no esquecimento.


VI


Pouco a pouco o corpo morre, e a alma tímida

vê o suporte levado no erguer do negro dilúvio.


Morrendo, estamos morrendo, estamos todos morrendo

e nada deterá o dilúvio de morte que cresce em nós
45 e não tarda a erguer-se sobre o mundo, sobre o mundo exterior.


Morrendo, estamos morrendo, pouco a pouco morrendo

e abandona-nos o ânimo,

e abriga-se a alma nua na chuva negra sobre o dilúvio

abrigando-se nos últimos ramos da árvore da nossa vida.


VII

50 Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta

aceitar a morte, e construir a barca

da morte que nos leve a alma na mais longa viagem.


Uma pequena barca, com remos e comida

e pequenos pratos, e todo o apetrechamento
55 pronto e necessário à alma de partida.


Agora, lança à água a pequena barca, agora, que o corpo morre

e a vida parte, lança a alma frágil

na frágil barca da coragem, na arca da fé,

com os mantimentos, as pequenas caçarolas
60 e as mudas de roupa;

no negro deserto do dilúvio

nas águas do fim

no mar da morte, onde navegamos ainda,

às escuras, porque não temos leme nem existe porto.

65 Não há porto, nenhum sítio para onde ir

apenas o negrume que se aprofunda e escurece mais,

mais negro sobre o dilúvio silencioso e inagitado

escuridão após escuridão, para cima e para baixo

e pelos lados absoluta escuridão, já não pode haver direção.
70 E a pequena barca está lá, e contudo partiu.

Não pode ser vista, porque nada o permite.

Desapareceu! partiu! e contudo está

em algum lado.

Em lado algum!


VIII

75 E tudo partiu, o corpo partiu

submerso, desaparecido, inteiramente desaparecido.

A escuridão de cima é tão densa como a de baixo,

por entre elas a pequena barca

partiu
80 desapareceu.


É o fim, é o esquecimento.


IX


E, contudo, da eternidade separa-se

um filamento sobre o negrume,

um filamento horizontal
85 que se eleva palidamente sobre o escuro.


Será ilusão ou eleva-se essa palidez

um pouco mais alto?

Mas espera, espera, porque há a madrugada,

a madrugada cruel do regresso à vida
90 após o esquecimento.


Espera, espera, a pequena barca

à deriva, debaixo do cinzento mortal das cinzas

duma madrugada de dilúvio.


Espera, espera! mesmo assim uma réstea de amarelo
95 e, por estranho, alma cansada e fria, uma réstea de rosa.


Uma réstea de rosa, e tudo isto recomeça.


X


Desde o dilúvio, e o corpo, como uma concha polida

emerge extraordinário e belo.

E a pequena barca torna a casa, deslizando, trêmula,
100 sobre as águas do dilúvio róseo,

e a frágil alma desembarca, volta a casa

enchendo de paz o coração.


O coração renovado embala-se na paz,

mesmo na do próprio esquecimento .

105 Constrói a tua barca da morte, a tua!

vais precisar dela.

Espera-te a viagem do esquecimento.